Uma princesa de cabelo black power luta contra o racismo, por Eliane Trindade

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(Folha de S.Paulo, 06/05/2014) “Caro Fausto Silva, nosso cabelo não é vassoura. Não é bombril. Não é ruim nem o secamos numa ventania.” Do alto de seu 1,81 m alongados pela cabeleira black power, a promotora de eventos Tati Braga respondeu assim, em seu perfil no Facebook, ao apresentador da Globo.

Diante de reações como essa nas redes sociais, Faustão foi forçado a se explicar sobre seu comentário em relação ao visual “vassoura de bruxa” de Arielle Macedo, dançarina da funkeira Anitta, feito em 20 de abril.

Era o início de uma polêmica que correu em paralelo a outra, também midiática, sobre racismo: o jogador Daniel Alves comendo uma banana em resposta ao gesto ofensivo de um torcedor em partida do Campeonato Espanhol, seguida da controversa campanha #somostodosmacacos.

Nesse meio de campo minado, a jovem de classe média alta e moradora de Higienópolis, bairro nobre de SP, dá uma banana para a chapinha (e todas as formas de alisamentos), ao assumir os fios naturalmente crespos. Um gesto de afirmação de sua identidade negra.

A “brincadeira”, como justificou o apresentador em rede nacional, é do mesmo tipo que Tati encara vida afora, em ambientes tão díspares quanto a escola da filha e os salões sofisticados onde circula com o marido, o italiano Diego Tomassini, responsável pela representação brasileira do Ministério do Meio Ambiente da Itália e diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Federação das Indústrias de SP).

EM PRIMEIRA PESSOA

A seguir, o relato em primeira pessoa de uma mulher negra de 27 anos, nove deles desfilando pela vida com uma “coroa que lembra cotidianamente suas raízes, tão fortes quanto o orgulho de ser negra”:

“Eu costumo dizer que sou da época pré-chapinha. Assumir meu cabelo foi um processo complicadíssimo. Até os 18 anos, fazia todos aqueles alisamentos químicos e passava horas no cabeleireiro esticando os fios na escova.

Desde criança, aprendemos que nosso cabelo é feio. Me falavam: ‘Você tem que abaixar, domar a juba’. Sofria bullying, que ainda não tinha esse nome. Na escola era sempre aquela coisa: ‘Seu cabelo é ruim’.

Quando me olhava no espelho, via outra pessoa. Como no filme ‘Preciosa’, no qual a protagonista se imaginava loura, branca e magra. O seu oposto. Eu sonhava em ser Paquita. Como elas eram todas loiras, queria pintar meu cabelo de amarelo. É a negação do que você é.

Passei a cultivar os meus cachos quando descobri pela internet um coletivo do Rio de Janeiro chamado Meninas Black Power. Elas fazem um trabalho de empoderamento com garotas negras e vão às escolas para captar meninas de 10, 11 anos que já começam a alisar, para dizer que elas podem ser lindas com seus fios cacheados.

PRINCESA ANGOLANA

Se nós negras não começarmos a nos gostar e achar nosso cabelo lindo, ninguém vai fazer isso.

Eu ensino isso para meus três filhos. Ana tem cinco anos, e o cabelo no meio das costas, todo ondulado. Outra dia, numa festa da escola, falaram pra ela que não havia nenhuma princesa com o cabelo ruim como o dela. Ela chegou em casa dizendo que queria cortar os cachos. Falei que eles eram lindos e quem tem de gostar é ela.

No dia seguinte, Ana foi pra escola novamente com o cabelo solto e, quando falaram de novo, ela respondeu: ‘Eu sou uma princesa angolana’. Ela é bem clarinha e tem cabelo meio lourinho, mas se assumiu.

A forma como eu lido com o meu cabelo é um exemplo pra ela. É aquela coisa, vou ao salão fazer a unha e o cabeleireiro vem enlouquecido: ‘Tem uma escova divina, que vai te deixar com um cabelo lindo’. Digo: ‘Não, obrigada. Gosto assim, quanto mais volume melhor’.

De um outro, ouvi: ‘Você viu os cachos comportados da Taís Araújo?’ Eu respondo: ‘Você quer dizer do aplique dela’. Na época de ‘Cobras e Lagartos’, a atriz fez uma química para aparecer loura e o cabelo dela caiu. Ela usou turbante quase a novela toda. No final, apareceu com o cabelo curtinho e cacheadinho. Aconteceu o mesmo com Naomi Campbell, que foi ficando careca e hoje usa peruca.

EM TERRA ESTRANHA

Eu sou a única negra do meu prédio na avenida Higienópolis. Logo que mudei, tinha que me identificar sempre na portaria. Até que um dia, eu repliquei: ‘Não precisa avisar para eu subir para minha casa’. No elevador, uma vizinha já me ofereceu emprego: ‘Estou precisando de uma mocinha lá em casa’. É aquela coisa de eu só poder entrar naquele tipo de prédio onde moro como funcionária.

Quando nós reclamamos de situações como essas dizem que entendemos errado. As pessoas não percebem que são racistas nem se assumem como tal.

SALADA RACIAL

Minha família é uma salada. Por parte de pai, minha avó era descendente de italianos. Minha bisavó materna era escrava reprodutora, que teve 20 e tantos filhos e fugiu para um quilombo.

De lá, ela veio para São Paulo, onde nasceu minha avó, que se casou com um homem branco, descendente do dono da minha trisavó.

Por isso, tenho a pele e olhos mais claros. As filhas da minha avó são todas brancas, enquanto os filhos, todos negros. Quando saía com as meninas pensavam que ela fosse a babá. Recentemente, estava com os meus filhos na praça Buenos Aires, aqui no bairro, e acharam o mesmo. Ao responder que sou a mãe, já ouvi absurdos: ‘Que sorte seus filhos terem saído clarinhos’. É muito cruel.

Trocar essas experiências na internet vai nos fortalecendo. É aquele sentimento: ‘Não estou sozinha’. Achei a minha turma. Temos também as Blogueiras Negras, o portal Geledés, do Instituto da Mulher Negra. Hoje, é possível encontrar vídeos com tutoriais de como tratar o nosso cabelo em casa. Outros ensinam a fazer turbante.

ATO POLÍTICO

Daniel Alves pegar a banana e comer em campo é um ato de resistência. Quando alguém te chama de macaco, ou você vira e dá um tapa na cara ou ignora. É como se ele tivesse dado um tapa na cara da torcida racista.

O problema é não ter o mesmo alvoroço quando houve um caso de racismo com um árbitro no Rio Grande do Sul. Nem quando chamaram Joaquim Barbosa de macaco pelo Twitter. E olha que o cara é o presidente do Supremo Tribunal Federal.

Por isso, a militância deve ser cotidiana. Muitas meninas negras ainda não entendem que assumir o cabelo ‘vassoura de bruxa’ é também um ato político e um modo simbólico de dizer: ‘Eu existo e vocês vão ter que me encarar’. Pela minha experiência, aceita que dói menos.”

ALÉM DO INSTAGRAM

Coordenadora do projeto Imprensa e Racismo da Andi (Agência Nacional dos Direitos da Infância), a jornalista Maria Carolina Trevisan também foi instigada a falar sobre a campanha #somostodosmacacos. Seu comentário no Facebook teve 120 compartilhamentos e foi republicado em sites ligados ao movimento negro.

“O racismo é complexo, está arraigado na nossa cultura e não pode ser resolvido no Instagram”, criticou, diante da enxurrada de fotos de famosos, entre elas dos apresentadores Luciano Huck e Angélica. O casal foi um dos primeiros a apoiar o chamado de Neymar, que postou no seu perfil uma foto com uma banana, ao lado do filho.

O atacante, colega de Dani Alves no Barcelona, desencadeava assim uma campanha publicitária encomendada por seu pai à agência Loducca para reagir ao preconceito do qual passou a ser vítima nos gramados europeus. O mesmo Neymar que, em 2010, declarara nunca ter sofrido racismo, “até porque eu não sou preto”.

O publicitário Guga Ketzer negou, em entrevista ao site da “Veja”, que o movimento tivesse sido orquestrado. “O Neymar [que está contundido] ia comer [a banana em campo], mas como foi o Dani, maravilha também”, afirmou. E disse que desmerecer o movimento pelo fato de ter uma agência por trás é tão preconceituoso quanto o torcedor que joga a banana. “Por que não pode haver ajuda profissional?”

RACISMO MATA

Em entrevista ao “Altas Horas”, da Globo, Daniel Alves declarou que um detalhe da campanha não o agradou: “Eu não gosto muito do #somostodosmacacos, porque acho que a gente é a evolução disso. Somos humanos e todos iguais. Acho que é isso que devemos defender”.

Carolina Trevisan vê diferenças entre o gesto espontâneo e a adesão a uma campanha sem o devido engajamento. “Uma coisa é Dani Alves comer a banana –pela primeira vez um jogador se manifestava durante uma partida. Outra coisa é nós, brancos, posarmos com a fruta. Se cada um que postou essa imagem se vigiasse para sacar quando o seu próprio racismo aflora, seria um passo.”

A jornalista ressalta que o futebol brasileiro levou 31 anos para aceitar negros em suas equipes. Antes disso, os jogadores tinham que passar pó de arroz para embranquecer a pele e entrar em campo. E conclui: “Se você é branco e quer ter uma atuação legítima, é necessário cuidado, delicadeza, humildade, escuta e, principalmente, muito respeito. Porque o racismo reproduz uma dor enorme. O racismo mata.” E dói, como relata a princesa black power de Higienópolis.

Acesse no site de origem: Uma princesa de cabelo black power luta contra o racismo (Folha de S.Paulo, 06/05/2014

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