Salvadora de Marias

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Major que atende 5.700 mulheres vítimas de violência na Bahia diz que a polícia está doente

(UOL, 16/10/2019 – acesse no site de origem)

Por dois anos, a empresária Lívia Aragão, 42, viveu presa na própria casa, em Salvador (BA). Com medo de seu ex-marido e agressor, ela vedou algumas janelas com tijolos, instalou um grande portão de ferro e, paralelo a ele, grades. Tudo trancado com múltiplas correntes e cadeados para evitar que a longa lista de violências que sofreu se repita. Só para citar algumas: o homem a ameaçou de morte diversas vezes e chegou a apontar armas para os filhos do casal — uma menina de 13 anos e um menino de 12.

“Eu tinha medo de colocar o pé para fora. Nas poucas vezes em que saí durante aquele período, quase fui atropelada e recebi ameaças de linchamento”, diz a baiana que hoje já faz saídas mais longas, mas ainda vive sob medida protetiva (instrumento legal que impede homens agressores de chegarem perto das vítimas enquanto respondem a processos por violência contra mulher). “Se eu estou viva, é graças a Denice e aos policiais que trabalham com ela”, diz.

Lívia é uma das 5.700 atendidas pela Ronda Maria da Penha, equipe especial criada há quatro anos pela Major Denice Santiago. Trata-se de um serviço da Polícia Militar da Bahia dedicado a garantir a segurança de mulheres que vivem sob ameaça permanente de seus agressores. Sob sua batuta também foi criada a Ronda para Homens. São Encontros com agressores ministrados por policiais masculinos. “São homens conversando com homens pelo fim da violência”, diz.

Seu efetivo conta com 108 policiais que atuam em todo o estado baiano. Já a major está baseada na capital, Salvador. Ela fica no Distrito Integrado de Segurança Pública (DISEP) onde há um muro grafitado com frases como: “Você não é culpada: lugar de mulher é onde ela quiser” ou “Cuide-se! Você é uma guerreira!”

Em seu gabinete, onde recebeu a reportagem de Ecoa, há lembranças dos prêmios que tem recebido como reconhecimento de seu trabalho: o selo de Práticas Inovadoras de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, entregue pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Diploma Bertha Luz, do Senado Federal, por exemplo. O sucesso do trabalho de Denice tem tido outros impactos. Mais estados brasileiros têm se inspirado na experiência baiana para criar seus próprios serviços. É o caso de Alagoas, onde os policiais foram treinados pela própria major.

Sem pé na porta

Nem todas as mulheres sob medida protetiva na Bahia são atendidas pela Ronda. Há pelo menos outros 15 mil casos que ficam de fora. A seleção é feita pelo poder Judiciário, nas varas de combate à violência contra a mulher, parceiras da iniciativa. “Eu não tenho condições de atender todos, infelizmente”, diz Denice.

O atendimento oferecido não é sempre igual e leva em consideração a vulnerabilidade da mulher. Quando começou a ser atendida, por exemplo, Lívia recebia a visita dos policiais semanalmente, às vezes mais de uma vez na semana. Além disso, mantinha o telefone de Denice e da ronda sempre por perto. E chegou a ligar em situações de emergência.

“Uma vez, meus filhos perceberam que ele estava tentando abrir o portão, eu liguei, os policiais chegaram rapidinho e o prenderam”, diz ela que apelidou a Ronda de “salvadores de Maria”. O agressor de Lívia voltou a ser solto, mas, como a situação agora está sob controle, as visitas são mensais.

Nessas ocasiões, os policiais chegam de surpresa e de mansinho. A abordagem requer um treinamento especial, pois é muito diferente do dia a dia da polícia convencional. Nada de pé na porta, calado, levanta a mão. Pelo contrário, a ideia é que cheguem como se fossem bons vizinhos. “Eles precisam passar por um processo de ressignificação e revisão do papel da polícia, pois trabalhamos de uma forma muito diferente daquela que estão acostumados”, diz Denice.

“Precisamos fazer uma revolução na polícia”

A criação da ronda vem de uma convicção que Denice repete com voz apaixonada: “A missão constitucional da polícia é preservar a ordem pública. E isso significa educar e proteger a sociedade e prevenir o crime. O combate faz parte do nosso trabalho, sim. Mas, toda vez que um crime acontece, a polícia falhou. A ronda tem esse papel preventivo. Nesses anos, ela tem sido esse lugar de aproximação humana da corporação com a sociedade. Eu acho que ela humanizou a polícia, mas tem muita coisa para fazer.

A polícia ainda é uma organização doente. Precisamos fazer uma revolução na polícia. É possível que um PM entre na sua casa, sente na sala, converse e fique tudo em paz. É possível que a relação com a polícia dentro do lar não seja só pé na porta e violências institucionais, como as que sofrem pessoas nas periferias. É possível que a polícia fale com alguém, toque em alguém, sem que isso aterrorize. Eu não vou entrar em um bairro carente em Salvador de uma forma e, em um bairro rico, de outra. Tem que ser igual. O lugar onde a pessoa vive não pode determinar a forma como ela vai ser tratada. Agir assim é uma atitude higienista, de extermínio. Eu não consigo entender e aceitar que seja diferente. E eu acho que a Ronda é uma estrutura que permite essa interação humanizada entre policiais e a sociedade e devemos ampliar a experiência.”

Denice não está sozinha em suas convicções. Os policiais que compõem a ronda se voluntariam para integrar o serviço. “Eles se dispõem a trabalhar com algo que não conheciam, diferente do que está culturalmente aprisionado neles. E fazem com muito comprometimento! Eu já vi caso aqui de uma policial sair logo cedo para fazer uma perseguição que foi até cinco horas da manhã do outro dia, sem parar, até encontrar o cara que fez barbaridades com a mulher, com requintes de crueldade. Isso é muito comprometimento!”, conta, com a voz embargada.

Pela saúde da policial

Apesar de suas crenças e do apoio de quem trabalha com ela, a major sabe que replicar a experiência da ronda para outros setores da segurança pública é um grande desafio. A Ronda Maria da Penha é uma exceção não só na polícia baiana, mas em todo Brasil. E, quanto a isso as inquietações de Denice são muitas, vão do cotidiano entre os colegas até as estruturas de opressão da sociedade.

“Internamente, a polícia ainda está se transformando. Mas muita gente não acredita no que eu faço. Então preciso me vigiar porque eu não posso agredi-los. Eu preciso mostrar para eles que meu trabalho tem utilidade, finalidade, objetivo. E isso é um exercício muito grande de paciência e fé. Mas eu penso que se eu me destemperar, eles venceram. E eu não posso permitir isso. Eu tenho que discutir comigo, não com eles. Aí eu vou criando minha estratégia, romantizando minhas dores, encontrando caminhos alternativos”.

Para manter o equilíbrio, Denice não descuida da saúde. Faz psicanálise e tenta, sempre que possível, encarar a vida com leveza. “Outro dias, estávamos em um encontro das outras rondas, de 16 estados. Eram mulheres e homens que trabalham com violência doméstica. E aí teve uma parte sobre autocuidado. A psicóloga perguntou o que fazemos para cuidar da gente e pediu para escrevermos em um papel. Aí eu coloquei lá: ‘falo besteira’. Eu preciso o tempo todo ter um cuidado interno e externo”, diz.

Polícia feminista

Denice ingressou na Polícia Militar em 1990, na primeira turma para mulheres. A profissão ela não escolheu, lhe “veio”, como diz. Uma pessoa de sua família ficou sabendo do concurso, avisou seu pai e ela decidiu se candidatar. Seus quase trinta anos de serviço estão marcados por ações visando a melhores condições para a mulher, seja a cidadã comum ou a policial.

Em 2006, ela criou o Centro de Referência Maria Felipa, núcleo de gênero dentro da PM baiana que tem a missão de valorizar e melhorar as condições de trabalho da mulher no batalhão. Uma das conquistas do grupo foi a aprovação de uma portaria que assegura direitos às policiais grávidas.

A experiência de Denice lhe mostrou que se as violências sofridas são múltiplas, elas têm um denominador comum: o machismo. “Para mim, o machismo é um micro-organismo, um vírus ou uma bactéria que mata. E nós vamos criando diversas vacinas contra ele. O feminismo é uma delas. Aí sabe o que o machismo faz? Ele vai mudando, vai tentando se regenerar. Quando vê que estamos nos fortalecendo”, reflete.

Outro antídoto contra o machismo, segundo Denice, é fazer com que toda a sociedade seja envolvida na discussão: dos homens às crianças. “É preciso que os homens estejam envolvidos no processo. A violência é uma construção, uma doença social. E, como doença, ela vai precisar ser tratada. Se toda a sociedade está doente, precisa ser tratada. Precisamos transversalizar o tema nas escolas. É preciso quebrar esse tabu de falar sobre violência doméstica.

Eu não entendo como as pessoas assistem a cenas de violência doméstica na TV e não conversam com as crianças sobre o tema. Eu não consigo entender quando um pai grita em casa, chantageia, ameaça, humilha uma mãe na frente das crianças e isso não é trazido à mesa para conversar com os filhos e dizer ‘olha, papai gritou, mas ele está errado’. Não, não se pode falar. Ainda está muito ‘em briga de marido e mulher, não se mete a colher’. Então a gente precisa dialogar a partir dos processos de formação, da família, da escola… A gente precisa cuidar desse agressor, conversar com os homens.”

Daqui para frente

Seu próximo passo? “Imagine eu comandando o Colégio da Polícia Militar? A primeira coisa que eu faria seria misturar as companhias no desfile do 7 de setembro. Não teria essa coisa só de mulher ou só de homem. E também teria debate de gênero nas escolas militares, pois uma coisa de que precisamos na vida é congruência. Eu não sou indisciplinada. Eu cumpro horário, eu cumpro metas, eu sei reverenciar o militarismo. Mas eu também sei discutir sobre o feminismo, sobre discriminação racial. Eu fui estudar história da África para saber de onde eu vim. Dentro da escola a gente pode fazer muito mais. A maioria dos meninos e meninas são filhos de oficiais e de praças. Eles acreditam nos ideais. Então como não vamos promover espaço para discutir o sonho dessas crianças? Tem que fazer. Por mim, eles ficam na escola o dia inteiro”.

Por Maíra Kubik Mano

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