Violência contra a mulher: problema além da ficção

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(Jornal de Brasília, 02/12/2015) Bastante discutido nas redes sociais, tema também é retratado na TV como forma de conscientizar

Recentemente, campanhas como #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto, que denunciam abusos sofridos por mulheres, tomaram conta das redes sociais. Por conta dessas iniciativas, o número de denúncias de violência contra a mulher – seja ela física, moral ou psicológica – no 180, o disque-denúncia, chegou a 63.090, 40% a mais do que no mesmo período do ano passado, de acordo com dados divulgados, ontem, pela Central de Atendimento à Mulher. Na TV e no cinema, o tema violência contra a mulher também é muito abordado, e não é de hoje.

Na novela Mulheres Apaixonadas (2003), o tema da violência doméstica foi bastante discutido com a personagem da atriz Helena Ranaldi. Ela vivia Raquel, mulher que sofria agressões físicas do marido Marcos (Dan Stulbach). Vítima do ciúme doentio do parceiro, a personagem tinha medo de denunciá-lo. As célebres cenas de agressão com raquete de tênis deram o que falar na época.

Atualmente, os noveleiros de plantão têm se deparado com o relacionamento abusivo vivido por Domingas e Juca (Osvaldo Mil), em A Regra do Jogo. A atriz que dá vida à personagem, Maeve Jinkings, ressalta a importância de se falar no assunto, para que as pessoas olhem com mais simpatia para mulheres que passam por essas situações, e ainda precisam lidar com o julgamento da sociedade. “Espero que não apenas as mulheres agredidas psicologicamente, como Domingas, possam refletir melhor, mas também os que estão ao redor. A pessoas tendem a não compreender a complexidade das relações e frequentemente culpam a vítima. Isso é uma ignorância que fortalece o agressor”, diz a atriz brasiliense.

Inspiração

Jinkings afirma não ter como prever se a sua história irá servir como motivação para mulheres que passam pela mesma situação, mas se diz satisfeita com a repercussão de seu trabalho. “Antes eu não conhecia quase nada da dinâmica do assédio moral nas relações de casal. O que espero é que isso, no mínimo, cause algum debate, algum incômodo”.

A teledramaturgia brasileira está repleta de personagens que podiam servir de referência e pesquisa, mas Maeve preferiu não utilizar nenhuma. “Queria compreender essas mulheres na vida. Li bastante o diário de Frida Kahlo, sobre seu enorme amor por Diego (Rivera), sua solidão, e como ela suportava as traições dele”, conta a atriz, que adianta, ainda, que os telespectadores estão próximos de ver no ar a reviravolta na vida de Domingas.

Lei Maria da Penha

Paolla Oliveira, de O Profeta (2006), era Sônia, que chegou a ser trancada no quarto pelo próprio parceiro, sem poder comer. No fim, ela consegue se libertar do cativeiro e vive sua vida longe do malfeitor. Na pele da personagem Catarina, de A Favorita (2008), Lília Cabral deu vida a uma dona de casa submissa que sofria com agressões físicas e morais do marido, vivido por Jackson Antunes. Na trama a reviravolta começa quando Catarina começa a se relacionar com Stela (Paula Burlamaqui).

Em 2011, a novela Fina Estampa representou as implicações policiais e legais decorrentes da denúncia de violência doméstica por meio da história do casal Baltazar (Alexandre Nero) e Celeste (Dira Paes), na foto abaixo: ele agride a mulher e a filha continuamente. Ao tentar matar a esposa em uma briga, a polícia é acionada, e ele, preso em flagrante, sendo retratado na trama todo o desenrolar do procedimento previsto na Lei Maria da Penha.

Quatro perguntas para Maeve Jinkings

Onde buscou referências para criar a Domingas? Chegou a ter contato com mulheres vítimas de violência?

Entrevistei e continuo aberta a entrevistar diversas mulheres vítimas desse tipo de relação. No início precisei procurá-las, mas hoje em dia os depoimentos chegam em enxurrada, vou filtrando na medida de minha possibilidade emocional e de tempo. Também conversei com homens agressores e li relatos de alguns deles a fim de compreender melhor a dinâmica que os leva a acreditar que podem agredir suas companheiras.

Por que, na sua opinião, tanto a personagem, quanto as “Domingas” da vida real, se mantêm em um relacionamento abusivo?

Em primeiro lugar porque ninguém acha que está vivendo isso. É como uma doença que só “o outro” é quem tem… quem vive isso demora muito a perceber e, quando percebe, o mais comum é se sentir responsável pela situação. Uma relação abusiva é alimentada basicamente por medo e culpa, o agressor joga com esses elementos e assim manipula psicologicamente a vítima. De todo modo, cada caso é um caso.

A audiência feminina da novela te aborda na rua? Se identifica?

Sim, muitas mulheres me abordam, e muitas naturalmente me contam suas histórias. A verdade é que elas são mais comuns do que se pensa, e em todas as classes e família há algum caso. Depois de Domingas, já obtive relatos de todos os lados, até dentro dos meus círculos de amizade mais próximos, na família, no Projac. Todos conhecem alguém, a gente apenas não fala sobre isso, pois é um tema vergonhoso e confuso.

Você nasceu em Brasília, mas foi embora muito cedo. Tem boas lembranças da cidade?

Tenho memórias muito vivas da minha infância na capital. Meu pai, irmãs, parentes e amigos ainda vivem na cidade. Visito todos os anos, amo muito Brasília!

Raquel Martins Ribeiro

Acesse no site de origem: Violência contra a mulher: problema além da ficção (Jornal de Brasília, 02/12/2015)

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