Lírio Cipriani: “É preciso que os homens se engajem nessa luta”

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No Fundo Fale Sem Medo, entendemos que só alcançaremos o fim da violência contra a mulher envolvendo toda a sociedade nessa transformação – homens, mulheres, crianças, todas e todos.

(Fundo Fale Sem Medo, 25/09/2018 – acesse no site de origem)

Um dos criadores do Fundo Fale Sem Medo foi inclusive um homem: Lírio Cipriani. Lírio começou a trabalhar na Avon em 1971 como selecionador de pessoal. Passou a supervisor de recrutamento e seleção, administrador de salário, supervisor da administração de salários. Foi promovido a gerente de vendas, depois a gerente de Benefícios. Foi gerente de promoção de vendas e depois, promovido a diretor de Recursos Humanos e diretor de Comunicação. Em 2003, assumiu o cargo de diretor executivo do Instituto Avon, e participou em 2012 da criação do Fundo Fale Sem Medo, parceria com o Fundo ELAS.

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Conversamos com Lírio Cipriani sobre sua trajetória e a importância do engajamento dos homens na luta pelo fim da violência contra as mulheres: “Enquanto os homens continuarem assistindo de braços cruzados e esperando que apenas as mulheres lutem por seus direitos, pouco avanço acontecerá”, diz o líder.. Confira:

Você tem uma longa trajetória na Avon – iniciou em 1970, passou por diversos cargos e esteve na formação do Instituto Avon, onde atuou como Diretor Executivo guiando o Instituto em sua missão de promover o empoderamento da mulher, apoiando causas que mobilizam a sociedade. Foram mais de 40 anos em uma empresa voltada para as mulheres. De que forma isso transformou a sua visão de mundo no que diz respeito a gênero e direitos das mulheres?

O caminho percorrido nos últimos anos foi de progresso. Ingressei na Avon em 1971 e, convenhamos, era um tempo em que as piadas e brincadeiras que desqualificavam as mulheres corriam às soltas pelos corredores. E nas rodinhas dos homens, é claro. As atitudes e comportamentos dos superiores homens demonstrava claramente o machismo instalado e naturalizado. Aquilo me incomodava muito. Com a criação do Instituto Avon, em 2003, e com a implantação das iniciativas de enfrentamento da violência contra as mulheres, em 2008, conseguirmos dar passos importantes. Com o apoio da direção da empresa, fomos trilhando outros caminhos, graças ao DNA da Avon, que sempre permitiu e incentivou mudanças significativas em direção ao empoderamento das mulheres e igualdade de gênero. Fator importante na consolidação de estratégias de enfrentamento da violência foram as parcerias com organizações da sociedade civil que já estavam engajadas no tema e que, com o apoio do Instituto Avon, puderam ampliar ainda mais suas atividades.

A Avon é pioneira no investimento em ações que buscam o fim da violência contra a mulher, e o Fundo Fale Sem Medo é parte fundamental dessa história. Por que você escolheu esse caminho, e como foi fazê-lo em um momento em que as empresas não queriam estar ligadas ao tema?

O Fundo Fale sem Medo foi um passo decisivo rumo à consolidação de nossa estratégia: falar sem medo, procurar ajuda, “botar a boca no trombone”, meter a colher em briga de mulher. Em muitas entrevistas jornalistas me perguntaram: “como é estar numa empresa que incentiva a beleza, o bem-estar e, ao mesmo tempo, lida com causas tão difíceis como câncer de mama e violência contra a mulher?” Minha resposta sempre foi: “É isso que nos diferencia. Temos a coragem de enfrentar temas difíceis, mas vitais para a mulher, para quem nossos produtos são comercializados”. O Fundo Fale sem Medo beneficiou milhares de mulheres no Brasil e, com certeza, ajudou muitas a quebrarem o ciclo da violência em que viviam.

Como você vê, hoje, a importância do engajamento dos homens na luta pelo fim da violência contra as mulheres?

Ainda temos um longo caminho a percorrer. Uma pesquisa do Instituto Avon em parceria com o Instituto Locomotiva, em 2016, apontava que “48% dos homens ainda não admitem que o homem cuide da casa e a mulher trabalhe fora”, que “35% dos homens ainda vêm o trabalho doméstico como responsabilidade da mulher”. Os principais agentes no enfrentamento da violência contra a mulher devem ser os homens. Enquanto os homens continuarem assistindo de braços cruzados e esperando que apenas as mulheres lutem por seus direitos, pouco avanço acontecerá. É preciso que os homens se engajem nessa luta. É preciso que eles também se sintam responsáveis por acabar com a violência contra elas, em todos os sentidos. Só desconstruiremos essa cultura machista se estivermos conscientes e colocarmos em prática a necessidade de acabar com o machismo que alimenta a desigualdade e perpetua a violência contra a mulher. O papel dos homens na desconstrução do machismo é fundamental.

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