Mulheres adotam estratégias para escapar da violência doméstica durante isolamento social

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Era o ano de 2014, no Recife, quando as mulheres do Córrego do Euclides, no Alto José Bonifácio, adotaram uma estratégia exemplar no combate à violência doméstica. Munidas de apitos, rompiam pouco a pouco o silêncio sempre que o potencial agressor dava o sinal de atacar. Dessa forma, a mulher ganhava um tempo precioso para se salvar, avisar às outras e conseguir socorro da polícia. A iniciativa, na época, foi do Grupo de Mulheres Cidadania Feminina. De certa forma, o apitaço inibia o agressor. A ação foi reconhecida pela ONU.

Em meio à pandemia do coronavírus, as mulheres com histórico ou não de violência doméstica também precisam criar estratégias de defesa. Isso porque, estudos têm apontado para o aumento de casos de agressões durante o isolamento social. Avani Santana, coordenadora do Centro de Referência Clarice Lispector, diz que as mulheres atendidas no espaço sempre recebem orientações de como precisam lidar para escapar de um agressor. São os chamados planos de fuga.

Uma das dicas é deslocar a discussão de espaços como cozinha e quarto, por exemplo, e buscar espaços mais expostos, como uma varanda ou sala. “Na cozinha, há risco dela ser machucada com algum utensílio doméstico. No quarto, a porta pode ser trancada. O ideal é deixar a porta da casa aberta, tirar a chave da fechadura e criar estratégias com vizinhas mais íntimas”, sugere Avani.

Também faz parte da estratégias manter roupas na casa de alguém para no momento de uma fuga não precisar organizar uma bolsa ou mesmo não correr o risco de não conseguir pegá-la, mesmo estando arrumada. “Importante a mulher deixar uma cópia da chave do carro com alguém e estabelecer códigos com amigas. Um exemplo pode ser: na hora da briga, você bate uma panela, bate na parede ou grita. Isso intimida o agressor”, diz Avani.

A mulher precisa também conhecer os sinais de que está sendo vítima de violência doméstica. Porque, em geral, a agressão não começa de forma física, mas pelo viés psicológico. O sinal de alerta deve ser ligado quando a mulher começa a vivenciar situações de piadas ofensivas, chantagens, mentiras, ser ignorada, ciúmes, culpa, humilhação, intimidação e ameaça.

O nível de violência pode ser considerado ainda maior quando o companheiro passa a proibir , destruir bens pessoais e “brincar” de bater, beliscar ou dar tapas. Especialistas alertam que se a mulher não pediu ajuda antes, a decisão não pode ficar para depois se o homem chuta, confina, ameaça com objetos e armas, ameaça de morte, força uma relação sexual, violenta ou mutila. “Existe uma rotina onde o homem começa a provocar a mulher e ela, com anos de convivência, sabe quando isso acontece”, explica Avani.

Uma novidade no combate a essa violência durante o isolamento foi lançada pela  Secretaria da Mulher do Recife. Desde o último dia 3, as mulheres poderão pedir socorro pelo whatsapp. As mensagens enviadas para o número (81) 99488.6138 são respondidas por técnicas do Centro de Referência Clarice Lispector. “Ele vai permitir que a mulher faça a denúncia em silêncio, sem chamar a atenção do agressor,” disse Cida Pedrosa, secretária da Mulher do Recife. O medo de ser flagrada e agredida pode estar desestimulando vítimas a pedir ajuda.

Segundo Avani, o número do WhatsApp tem sido muito procurado. “10% querem desabafar e 30% já contam relatos de violência e querem saber como fazer. A maioria deseja entender o serviço.”

Embora no Rio de Janeiro e no Paraná e em países como a China, França e Itália já tinha sido constatado o aumento, as denúncias no Recife permanecem na média, com pequena variação para baixo, informou a Secretaria Municipal da Mulher. Entre 16 de março até o dia 2 de abril, o Centro de Referência Clarice Lispector, que acolhe mulheres vítimas, fez 19 atendimentos presenciais. Em todo o mês de março foram 49. Já o serviço telefônico gratuito Liga Mulher recebeu 113 ligações, número abaixo da média para o mesmo período de março do ano passado. Em todo o mês, foram 301 chamados.

A secretaria também fez a campanha virtual “Mulher, ficar em casa não significa ficar calada”. Tanto a Prefeitura do Recife quanto o governo do estado, através das secretarias da Mulher, têm divulgado nas redes sociais quais serviços estão disponíveis para as vítimas enquanto durar a quarentena.

O Centro de Referência Clarice Lispector está em regime de plantão, com duas técnicas atendendo de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, pelo telefone 08002810107.

Avani também orienta às mulheres vítimas procurarem diretamente as delegacias da mulher ou delegacias de bairro onde aconteceu o fato para fazerem a denúncia. O acionamento também pode ser feito junto à Polícia Militar, através do 190.

No caso da mulher estar machucada em virtude de violência doméstica, a orientação é procurar o Centro de Atenção à Mulher Vítima de Violência Sony Santos, que funciona em um anexo do Hospital da Mulher do Recife, na BR-101, no Curado. “Na unidade, a mulher vai ter o cuidado de saúde e acolhida de uma equipe multiprofissional, formada por psicóloga, enfermeira, médica. Além disso, no local a mulher pode fazer exame de corpo de delito e ainda registrar o boletim de ocorrência. A equipe cuida do machucado e encaminha para procedimento legal”, explica Avani.

Mulheres com filhos em situação de risco de vida também vão continuar seguindo para quatro casas abrigo, em regime de plantão de 24 horas, conforme garantiu o governo do estado. Para serem encaminhadas aos abrigos, a mulher precisa ser direcionada pela rede de referência.

O monitoramento eletrônico, que permite à mulher vítima saber se o agressor descumpriu ordem de se aproximar dela, também permanece e a qualquer momento ela pode acionar o equipamento, também conhecido como botão de alerta.

Mulheres com ordem judicial para receberem o monitoramento eletrônico por parte do estado devem procurar a sede da Secretaria da Mulher, no Cais do Apolo, 222, no 4º andar, das 8h às 15h.

A rede de atendimento também pode solicitar o cadastro de mulheres vítimas no 190 Mulher das 8h às 15. Outro serviço disponível é o telefone da Ouvidoria da Mulher do estado, o 08002818187.

Estão suspensos os serviços das salas da mulher localizadas no Compaz Eduardo Campos, no Alto Santa Terezinha, e no Ariano Suassuna, no Cordeiro, além do serviço do Centro da Mulher Metropolitana Júlia Santiago, em Brasília Teimosa, na Zona Sul do Recife.

Estratégias para escapar da violência doméstica

  • Evite discutir na cozinha (há objetos pontiagudos que podem virar arma) ou no quarto ( a porta pode ser trancada e a mulher fica presa). Busque levar a discussão para ambientes mais abertos
  • Deixe a porta de casa aberta e pegue a chave
  • Combine com vizinhas amigas sinais de que está sendo vítima. Você pode bater panelas, bater na parede ou mesmo gritar e pedir socorro
  • Deixe roupas na casa de uma amiga para o caso de uma emergência de você precisar fugir. Pode ser que não haja tempo de arrumar uma bolsa de última hora ou mesmo de pegá-la, caso esteja pronta
  • Deixe uma cópia da chave do carro com uma amiga

Os sinais de um homem agressor:

Nível um
  • Faz piadas ofensivas
  • Chantageia
  • Mente
  • Ignora a mulher
  • Tem ciúmes
  • Faz a mulher se sentir culpada
  • Humilha
  • Intimida
  • Ameaça
Nível dois
  • Proíbe a mulher de qualquer atividade
  • Destrói bens pessoais
  • Brinca de bater
  • Belisca ou dá tapas
Nível três
  • Dá chutes na mulher
  • Confina
  • Ameaça com objetos ou armas
  • Ameaça de morte
  • Força relação sexual
  • Estupra
  • Mutila

Telefones úteis:

  • Centro de Referência Clarice Lispector: segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, pelo telefone 08002810107
  • WhatsApp do Clarice Lispector: (81) 99488.6138.
  • Centro de Atenção à Mulher Vítima de Violência Sony Santos:  81 2011.0100
  • Polícia Militar: 190
  • Ouvidoria da Mulher do estado: 08002818187.

Dados do Clarice Lispector de 2019:

  • 582 atendimentos presenciais e 3797 chamadas para o Liga, Mulher
  • 469 mulheres foram acompanhadas, ao longo do ano, pela equipe multidisciplinar do Centro
  • 17 prisões de agressores forma solicitadas
  • 7 agressores receberam monitoramento eletrônico
  • 26 petições foram encaminhadas à Justiça, informando descumprimento de medida protetiva
Por Marcionila Teixeira
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