O dia que nunca pensamos que chegaria, por Luyara Franco e Larissa Amorim

28 de janeiro, 2026 Diplomatique Por Luyara Franco e Larissa Amorim

A um mês do julgamento no STF do caso Marielle e Anderson, Brasil encara a possibilidade histórica de romper um ciclo de impunidade

Durante anos, o caso Marielle e Anderson foi atravessado por uma sensação compartilhada por milhões de brasileiras e brasileiros: a de que a justiça talvez nunca chegasse. O tempo passou, os silêncios se acumularam, as respostas foram adiadas, e o país aprendeu, à força, a conviver com a ausência de explicações para um dos crimes mais graves da história recente da democracia brasileira. Por isso, a marcação do julgamento para os dias 24 e 25 de fevereiro de 2026 não é apenas uma data no calendário: é o dia que, por muito tempo, nunca pensamos que chegaria.

Mas chegar não basta. O que está em jogo agora não é apenas a realização de um julgamento e sim a capacidade de responder àquilo que a sociedade exige desde 2018: a condenação dos mandantes.

Nunca antes na história da justiça brasileira um caso expôs de forma tão contundente a infiltração de grupos criminosos no Estado Brasileiro e nas suas forças de segurança, e a violência política de gênero e raça que vulnerabiliza e torna alvo mulheres negras, de favelas e periferias, e LBTs.

O assasinato de Marielle Franco, vereadora negra, em exercício do seu primeiro mandato, cometido por agentes públicos, foi uma tentativa explícita de silenciar pela violência uma representação política legítima. Não se tratou de um crime isolado, foi um ataque direto à soberania do voto, à participação popular e, principalmente, à democracia brasileira. Quando uma mulher negra, mãe, lésbica e defensora de direitos humanos é executada por aquilo que representa, o alvo é coletivo.

Por isso, este julgamento ultrapassa a responsabilização individual dos executores. A pergunta central que ecoa neste fevereiro é simples e profunda: o Brasil será capaz de responsabilizar quem mandou matar? A condenação dos mandantes é o que diferencia um rito formal de um verdadeiro compromisso democrático. Sem ela, a mensagem que permanece é a de que é possível planejar a morte de representantes eleitos sem que os centros de poder sejam alcançados.

Há também um impacto direto sobre o presente e o futuro da política brasileira. Mulheres negras que ocupam cargos públicos – ou que sonham em ocupar – observam esse processo como quem busca sinais de proteção ou abandono. A ausência de condenação alimenta o medo, a violência política de gênero e raça e o afastamento desses espaços. A responsabilização, ao contrário, pode inaugurar um horizonte de esperança, afirmando que o Estado não permitirá que o medo seja instrumento de disputa política.

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