Crianças e adolescentes vítimas de abusos sexual: o trauma e a busca por justiça

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O Profissão Repórter investigou por um ano denúncias de abuso sexual contra um professor de teatro de Osasco, em São Paulo. O programa também teve acesso a audiências que julgam casos do mesmo tipo em um tribunal.

(Profissão Repórter, 25/07/2019 – acesse no site de origem)

O Profissão Repórter investigou durante um ano as denúncias de abuso sexual contra Renato Malveira Pinho, que é professor de teatro da cidade de Osasco, na Grande São Paulo. No total, 11 ex-alunas o acusam.

A repórter Nathalia Tavolieri ouviu depoimentos de meninas e adolescentes sobre a conduta do professor, que era tido como muito brincalhão, que gostava de dar caronas e até levava as alunas para lanchonetes.

Uma das vítimas de Renato conversou com a equipe do Profissão Repórter em maio de 2018 e revelou como era a abordagem até o momento do abuso.

“Como professor parece que é nosso amigo, ele falava gírias. Ele era bem legal, brincava demais nas aulas”, disse uma das vítimas sobre a personalidade do professor.

A adolescente também conta que ele falava em fazer teste para ajudar na evolução da atuação das garotas, e que a levou para uma sala e desligou a câmera para praticar abusos.

“Ele falava que entendendo seu corpo, você poderia entrar mais no personagem. Ele me levava para uma sala e falava que ia desligar as câmeras, ai ele pagou a luz e começou a tocar meu braço, perna, minha barriga, meu peito, depois ele me virou de costas. Ele tocou no meu corpo e na segunda vez ele já começou a passar a mão por baixo da minha roupa. Na última vez ele já tirou minha roupa, foi quando aconteceu. Perdi minha virgindade com 13 anos de idade”, conta a adolescente.

Ela também conta que os repetidos episódios de abuso a fizeram a ter repulsa do próprio corpo e que seu comportamento mudou.

“Eu comecei a ter repulsa. Não conseguia mais olhar para o meu peito, para a minha bunda, nem olhar para minha barriga. Comecei a ter repulsa do meu corpo”, revelou.

Para a promotora de Justiça Gabriela Manssur, o homem que quer cometer algum abuso sexual procura se aproximar da vítima fazendo com que ela crie uma relação de confiança.

“Nesses casos em que, muitas vezes, o homem quer cometer algum tipo de abuso sexual, estupro ou qualquer ato sexual contra a vontade da vítima, ele se aproxima dessas mulheres, dessas meninas fazendo com que elas criem uma relação de confiança com eles. Nesse caso ele tinha sim uma autoridade sobre ela. Todo abuso sexual contra menor de 14 anos não precisa para caracterizar o estupro qualquer tipo de violência ou grave ameaça”, explica a promotora.

A equipe do Profissão Repórter também conseguiu falar com mais jovens que acusam o professor de teatro Renato Malveira Pinho de abuso. Elas seguem a mesma linha de que Renato procurava ser muito amigo das alunas.

“Quando acabavam os ensaios ele era bem amigo, ai ele levava a gente para comer batata. Teve uma vez que ele colocou 13 pessoas no carro. Foi quando ele começou a me deixar por último nas caronas e a falar que queria me ensinar a namorar. Ele falava que podia me ensinar a lidar com eles, fazer eles gostarem de mim e separava isso em aulas. Na primeira aula ele tirou minha camiseta, beijou meus seios e ficou passando a mão pelo meu corpo. Ele me manipulou de uma forma que sabia que eu não ia contar para ninguém”, revela uma das vítimas.

A outra adolescente revela que Renato a procurou no Facebook e logo começou a conversar. Mas o teor das conversas logo mudou e que com 13 anos vivenciou situações traumáticas.

“Ele me adicionou no Facebook. Eu admirava ele, eu fui tentar falar isso como forma de admiração, ai foi quando a conversa teve outro caminho. As perguntas não eram mais sobre a escola, elas era: ‘você já namorou?’, ‘teve relação sexual?’. Eu tinha 13 anos e nunca tinha tido nada além de beijo com nenhum tipo de pessoa. Ai rolou um encontro e ele foi me buscar em casa. Ai no quarto dele, ele começou a me beijar, mas eu nunca tive beijo de língua e com ele foi de língua. Ele me encostou no armário muito forte e passou muito a mão em mim, ele se esfregou em mim e parecia que eu estava rendida, uma sensação de que estava presa”, contou outra vítima.

Dificuldade para registrar denúncia

O Profissão Repórter também acompanhou de perto a dificuldade das vítimas do professor de teatro Renato Malveiro Pinho em registrar denúncia nas delegacias.

Uma das adolescentes revela que a uma delegada de plantão não aceitou registrar a denúncia porque não se enquadra crime pelo fato de ela ter 16 anos quando aconteceu o caso.

“Ela ficou pedindo provas. Ela nem falou comigo essa delegada, foi uma escrivã que ligou para essa delegada e ela disse que isso não se enquadra como crime”, contou a adolescente.

A promotora de Justiça Gabriela Manssur disse que um delegado não pode pedir provas para acatar uma denúncia de qualquer tipo, isso cabe ao juiz que vai julgar o caso.

“Quem precisa de prova é o juiz que vai determinar quais provas são importantes para que ele consiga condenar. E nós do Ministério Público e da Polícia Civil vamos fazer essas provas para o convencimento do juiz”, explicou a promotora.

A equipe do programa também foi buscar mais explicações sobre a dificuldade de registrar denúncias com a responsável pelas Delegacias da Mulher do Estado de São Paulo, Jamila Jorge Ferrari.

“Como toda vítima, independente de ser ou não da Delegacia da Mulher, ela deve procurar os nossos órgãos corregedores, no caso a Corregedoria de Polícia Civil de São Paulo é aberta 24 horas para que, eventualmente, você sinta que aquele atendimento não foi o correto, você pode fazer essa reclamação”, explica Jamila.

Núcleo acolhe vítimas de abuso sexual

A repórter Nathalia Tavolieri visitou uma das vítimas do ex-professor de teatro Renato Malveiro Pinho no Núcleo Acolher.

“Faz muito tempo que não tenho crise do pânico, parei de tomar antidepressivos. Estou melhorando muito meu psicológico”, contou a adolescente.

O Núcleo Acolher é um serviço oferecido pela Prefeitura de Osasco há 12 anos. Lá, médicos e psicólogos oferecem acolhimento e tratamento psicológico a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.

Atenção especial com crianças

O Profissão Repórter também mostrou os casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes que estão mais avançados na justiça. O repórter Guilherme Belarmino teve acesso às audiências no Tribunal de Justiça de São Paulo.

“Nós temos, contando entre processos e inquéritos policiais, em torno de cinco mil processos”, explica a juíza Tatiane Moreira.

Ela também conta que o local possui um trabalho específico para vítimas desses crimes. “É um projeto que a gente tem chamado cão terapeuta. Ele vem no fórum, no espaço que é de escuta de crianças para tentar amenizar um pouco a tensão de vir depor em juízo. Ele fica interagindo com a criança enquanto a audiência acontece.

Em uma das audiências, um motorista de van escolar é acusado de abusar de três meninas menores de 14 anos e também de uma adolescente menor de 18 anos.

A juíza explica que no processo os pais da criança são ouvidos primeiramente porque eles possuem mais elementos e para poupar a criança de perguntas.

“A gente ouve primeiro o pai ou a mãe da criança e depois a gente ouve a criança. Os pais geralmente trazem mais elementos e serve para poupar a criança de perguntas. As crianças são ouvidas de duas formas. Ela escolhe prestar depoimento na sala de audiência ou o depoimento especial em uma sala em separado. E quem ouve a história são psicólogos ou assistentes sociais, ela filmava e transmitida ao vivo para a sala de audiência”, conta a juíza.

Além dos pais e das crianças, a esposa e a enteada do motorista da van também foram ouvidas na audiência. A enteada revelou que já havia percebido um comportamento estranho dele com a sobrinha. “Teve uma festa da família e eu tinha percebido que ela estava sempre fugindo dele. E meu irmão questionou porque ela estava assim, ela disse que não gostava que ele a abrace”, conta.

O motorista também foi ouvido pela juíza na audiência e negou todas as acusações. Em conversa com o Profissão Repórter, ele disse acreditar na absolvição, porque é inocente. O réu foi condenado a 38 anos de prisão.

Confira o programa completo neste link

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