Temos que acelerar as políticas de igualdade de gênero, por Wal Flores

19/01/2018 - 12:03 -
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Já faz uns bons três anos que o tema da diversidade invadiu as campanhas, atraiu a atenção da mídia, gerou empatia entre os principais influenciadores do mundo, chegou nas conversas familiares e na mesa de bar. Em 2017, a questão LGBT ganhou ainda mais força e trouxe expoentes importantes como Pabllo Vittar e vários outros empresários e empreendedoras que configuram um novo padrão de sucesso, representado por aqueles que têm uma opção sexual diferente ou mesmo as pessoas que não se identificam com o gênero que nasceram.

(O Estado de S. Paulo, 19/01/2018 – acesse no site de origem)

Já no fim de 2017, os escândalos relacionados ao assédio sexual tomaram conta das discussões globais. E o assunto se manteve aquecido já no início de 2018, com novas denúncias e manifestações midiáticas, como as atrizes que foram de preto no Globo de Ouro – em demonstração de apoio às mulheres assediadas na indústria cinematográfica – e o artigo publicado no jornal francês Le Monde, assinado por artistas francesas como Catherine Millet e Catherine Deneuve, são movimentos que colocaram luz sobre uma nova perspectiva: a liberdade sexual feminina.

Divulgado no início do ano, o artigo francês questiona o posicionamento de movimentos como o #metoo, que discute o assédio sexual, especialmente no ambiente de trabalho. No texto do Le Monde, há um questionamento sobre o que é um assédio sexual. Qual o limite de uma cantada, de uma paquera? O que é uma agressão masculina?  Segundo Millet, escritora e crítica de arte de 69 anos (seu best-seller autobiográfico conta detalhes de uma vida sexual bem progressista), pontua que as mulheres, dependendo de sua condição social, cultural ou econômica, vão lidar com as questões sexuais de diferentes formas.

De outro lado, mulheres vítimas de agressão pedem medidas mais drásticas. Até mesmo aplicativos já foram criados para facilitar a assinatura de “contratos” entre homens e mulheres que vão permitir uma paquera sem riscos futuros. Sinal dos tempos.

Como todo tema polêmico e novo para a nossa sociedade, é importante dialogarmos com pontos de vista diferentes. As mulheres têm avançado muito nos últimos anos e não queremos retroceder. Mas, precisamos reconhecer que o assunto é novo e alguns limites ainda precisam ser estabelecidos.

A busca do equilíbrio no discurso e nas atitudes podem nos levar a um mundo mais harmônico.  Tivemos bons avanços no que tange à igualdade de gênero e algumas ações não são mais toleradas por nenhuma das linhas de pensamento.  A equidade de gênero deve estar presente em vários movimentos sociais, políticos e econômicos da nossa sociedade. E a melhor forma de acompanhar esta evolução é observando os indicadores de transformação.

Como está a situação da igualdade de gênero na política, na liderança das empresas, nos conselhos empresariais, no estimulo à formação de mulheres ligadas à ciência, tecnologia, engenharia e matemática? Ao se analisar os dados, eles são surpreendentes. Entre as principais empresas brasileiras, por exemplo, apenas 7% do conselho é formado por mulheres. Na Noruega, onde uma legislação de cotas já vigora desde 2010, esse número já passa de 40%.

Com políticas claras de assédio sexual ou mesmo medidas simples de não estereotipar produtos e embalagens de rosa e azul, princesas para meninas e super-heróis para os meninos, já vemos um bom começo para as marcas. A campanha “Like a girl” da Always, ainda continua sendo um case incrível de como as marcas podem se apropriar de uma causa de forma genuína, relevante e criativa.

A igualdade de gênero ainda tem muito para evoluir. Aqui está uma oportunidade para uma marca se engajar com uma causa massiva e com muitas oportunidades transformadoras. Uma vez que o Brasil possui mais de 51% da população formada por mulheres, ao defender e atuar em prol de seus direitos, uma marca pode garantir sua presença nas conversas femininas e até nas rodas mais masculinas.

Como disse o psiquiatra Contardo Calligaris em seu último artigo, “…a nossa cultura é fundada no ódio à mulher há 3.000 anos (desde as histórias de Eva e Pandora), como encarnação do mal e voz tentadora do demônio.” Temos que lutar para que esta transformação cultural mude na velocidade das tecnologias exponenciais para que possamos colher os frutos ainda nesta geração.