‘Somos parecidas com as que foram enviadas à fogueira na Idade Média’, diz ativista da ONG Católicas Pelo Direito de Decidir

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Tabata Tesser fala das críticas por defender pautas como a legalização do aborto

(O Globo, 17/10/2019 – acesse no site de origem)

Aos 24 anos, ela é uma das autoras do recém-lançado livro “Teologias fora do armário: teologia, gênero e diversidade sexual”, organizado por Regina Soares Jurkewicz e distribuído gratuitamente pela organização, que discute diversos desses assuntos. Em breve, o trabalho também estará disponibilizado para download no site da ONG.

A violência contra mulheres nos espaços religiosos e os impactos do fundamentalismo religioso nos direitos sexuais e reprodutivos delas estão no centro da luta encampada por Tesser e suas companheiras.

— Se é verdade que o Cristianismo legitimou muitos processos opressores, dominadores, escravocratas, é verdade também que a gente pode reinventar o sentido do Cristianismo e que a gente precisa de um processo de reparação histórica com esses povos, prioritariamente — argumenta a socióloga.

— Católicas é um espaço de um encontro de muita fé, mas também onde mulheres indignadas, muito parecidas com aquelas que foram enviadas à fogueira na Idade Média, estão se questionando: a serviço de que está a estrutura que permanece em curso na Igreja? — critica a ativista, que conversou com CELINA durante o 3º Diálogos “Mulheres em Movimento: Fortalecendo Alianças Globais”, evento do Fundo Elas que reuniu 120 ativistas do Brasil e de outros países no fim de setembro.

Como foi seu início como ativista? Como você foi parar no Católicas pelo Direito de Decidir?

Eu digo que eu me reconheci feminista não no movimento feminista, não em casa, não com as minhas amigas. Foi no espaço da igreja. Eu fui coordenadora paroquial da Pastoral da Juventude, uma das pastorais que compõem a Igreja Católica hoje. A PJ é um espaço onde a gente discute muito participação política, o elo com os movimentos sociais, o que leva a toda essa estrutura de poder. E era no grupo de jovens que a gente ia descobrindo um pouco o mundo e o que era o mundo também para fora daquele espaço.

Eu acho é sempre importante lembrar: a Pastoral da Juventude é ligada à Teologia da Libertação, então a gente tem um viés de tratar Jesus numa perspectiva coletiva, nunca numa saída individual. É um Jesus semelhante ao outro, que condena a riqueza etc.

Mas ainda é muito comum uma interpretação de Jesus diferente dessa.

Desde pequena eu me questionava qual era esse Deus que muitas vezes a Igreja pregava, e aquele que a gente estava vivenciando de fato na nossa experiência de fé coletiva. Por exemplo: eu sou batizada, sou crismada, mas não posso me reconhecer enquanto uma liderança da Igreja, pelo fato de ser mulher. A Igreja ainda é um espaço onde a gente ocupa tarefas consideradas muito domésticas, e não existem lugares onde a gente tenha minimamente poder de decisão. Acaba sendo algo até contraditório com a experiência da Igreja, porque as mulheres são maioria ocupando os cultos, as missas.

Eu me sentia muitas vezes imersa num processo de violência. De, por exemplo, ter que me confessar — e, no caso da Igreja Católica, somente a homens, padres — e me deparar com discursos que mais vulnerabilizavam a nossa situação do que colaboram. Eu já ouvi padre rindo de estupro durante a missa, e aí vi a multidão dando risada. Já tivemos casos de racismo dentro do nosso ambiente, até mesmo no grupo de jovens. Eram experiências que foram me despertando: “Qual o sentido de tudo isso aqui?”.

Viver em comunidade, para mim, é uma coisa muito importante. Então foi quando eu me aventurei e falei: “Eu preciso entender o que é todo esse fenômeno para fora daqui”. Foi quando eu decidi fazer Ciências Sociais e conheci o grupo Católicas Pelo Direito de Decidir.

Eu já ouvi padre rindo de estupro durante a missa, e aí vi a multidão dando risada. Já tivemos casos de racismo dentro do nosso ambiente. Essas experiências foram me despertando: ‘Qual o sentido de tudo isso aqui?’

TABATA TESSER

E como tem sido participar da organização?

A princípio, houve um choque. As pessoas até perguntam: “É uma nova igreja?”. A gente diz: “Não, Católicas Pelo Direito de Decidir é todo aquele católico que usa métodos contraceptivos, que usa camisinha, que decide interromper uma gravidez, que decide viver a sua sexualidade de forma plena e livre. É aquele que não tem a sua experiência de fé encaixotada num dogma religioso”.

Pouco se fala do protagonismo das mulheres religiosas, especialmente das cristãs. Há uma leitura muito generalizadora, uma visão estigmatizante do que seriam as feministas cristãs. Como se a gente, inclusive, fosse favorável a qualquer tipo de exploração ou modelo patriarcal. Poucos conhecem a Teologia Feminista, que é um método teológico ético de construção do pensamento bíblico com uma leitura feminina e feminista do que foi o Cristianismo. E conhecer isso foi um processo que me libertou, me trouxe ao que é hoje o meu pensamento sobre como é importante ser cristã sem abdicar da minha luta feminista.

Percebi que há sempre uma rede de mulheres em volta quando alguma mulher decide interromper uma gravidez, como vi acontecer com boa parte das minhas amigas que são religiosas. O fato de a Igreja considerar a interrupção da gravidez um pecado não impede que as mulheres façam esse procedimento. O que as leva a tomar essa decisão são outros fatores, que não passam pela questão religiosa, apesar de a teologia pressioná-las mentalmente para que não façam esse tipo de procedimento. Que é violento — eu sempre gosto de dizer que ninguém favorável a interromper uma gravidez, porque não é uma coisa que você acorda e diz: “Olá, hoje vou fazer um aborto”, como se fosse uma coisa tranquila.

Há também um discurso teológico que reforça a tortura psicológica contra a população LGBT, como é a narrativa da “cura gay”. Como se alguém que ama precisasse de algum tipo de cura. Tem todo um discurso que a gente vive na nossa experiência de fé, e que a gente diz que nesse Deus que acumula riqueza, que faz tortura psicológica com a população LGBT, que é quase um gerenciador das posturas humanas, que é mau… nesse Deus a gente não crê.

Como funciona propriamente o trabalho de vocês?

Católicas Pelo Direito de Decidir é uma organização que existe há mais de 25 anos no Brasil. A gente prioritariamente tem um debate para combater os fundamentalismos. Achamos isso essencial, especialmente porque hoje em dia há um sentimento de aprofundamento da teocracia. O próprio slogan do atual presidente é “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”. Acho que nós somos um processo de afirmação em meio a uma série de negações que fazem para a vida das mulheres, e em nome de um Deus que é fundamentalista.

Então a gente tem um grupo, que eu coordeno, em São Paulo, que se chama FÉministas, inter-religioso, ecumênico, só de mulheres, no qual a gente discute gênero, raça, classe e religião a partir de teologias feministas — porque tem teologista feminista negra, latino-americana, queer, lésbica, enfim —, e, recentemente, a gente teve a alegria de fazer um arcabouço teórico, que foi a produção do livro “Teologias fora do armário”. Essa publicação é uma contribuição de diversas ativistas de Católicas, mas que tem presença de homens, o que a gente acha importante também para a discussão eclesial. É um livro para as pessoas que sentam no banco das nossas comunidades de fé, e que muitas vezes não se sentem representadas pelo discurso que elas ouvem.

Se é verdade que o Cristianismo legitimou muitos processos opressores, dominadores e escravocratas, é verdade também que a gente pode reinventar o sentido do Cristianismo e que a gente precisa de um processo de reparação histórica com esses povos, prioritariamente. Católicas é um espaço de muita fé, mas também onde mulheres indignadas, muito parecidas com aquelas que foram enviadas à fogueira na Idade Média, estão se questionando: “a serviço de que está a estrutura que permanece em curso na Igreja?”

A gente não cré num Deus que acumula riqueza, que faz tortura psicológica com a população LGBT, que é quase um gerenciador das posturas humanas, que é mau

TABATA TESSER

A gente esteve presente na ADPF 42 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental), que é uma ação que discriminaliza o aborto na sua integridade, que está em discussão no STF. Temos diversas publicações, que distribuímos nas comunidades evangélicas e católicas. A gente busca cada vez mais se aprofundar na questão cultural, então lançou um EP, um disco de vinil, “Ventre laico, mente livre”. São cantoras negras, maravilhosas, e a produção é da Elisa Gargiulo. Aborda especificamente que o nosso corpo não é propriedade de uma religião e que essa carne não pode ser comercializada nem teologizada para fins de dominação, de controle. Está disponível em todas as plataformas. E a gente também tem cartilhas educativas, porque informação é poder. A gente participa também de redes latino-americanas em defesa da vida das mulheres. Então, estamos bastante inseridas no movimento das mulheres, diríamos, no último século.

Você tinha que idade quando começou a atuar dentro da pastoral e do Católicas?

Eu frequento a igreja desde meus 12 anos. Meu pai foi pastor, é muito louca essa história. Ele é católico, mas foi pastor. Chegou a abrir uma igreja, depois fechou. Mas eu tive uma experiência de fé com minha avó paterna, Lourdes, que para mim é a mulher mais religiosa que existiu. A cada semana semana, ela me levava a uma paróquia diferente de São Paulo para eu conhecer algum santo. Era devota de Nossa Senhora. Foi ali que eu falei: “caramba, a Igreja Católica é uma coisa que nos chama atenção.” Fui batizada, fui para a catequese e depois para a crisma. Na pastoral, entrei com 14. Comecei no Católicas oficialmente aos meus 21 anos.

E, agora, foi uma realização participar do evento do Fundo ELAS representando o Católicas, que está num processo de renovação de quadros. Muitas vieram antes de mim: a Zeca Rosado (Maria José Rosado Nunes), por exemplo, que é professora da PUC; e Rosângela (Aparecida Talib) e Regina (Soares Jurkewicz), que fundaram Católicas. E agora a juventude tem chegado com tudo para dizer que a gente não vai ficar à parte desse processo histórico.

O aborto é um tema que causa reações extremas — agora, ainda mais, com esse acirramento político que estamos vivendo no Brasil. Como é isso para vocês, enquanto organização e também pessoalmente, como ativistas? Recebem ameaças, ataques?

As intimidações são recorrentes. Porque uma coisa é o movimento feminista em geral falar da legalização. Outra coisa são mulheres religiosas falarem. A gente recentemente teve um caso que precisa ser denunciado. Eu fui perseguida depois de ter participado de uma mesa dentro da Paróquia São Francisco de Assis, na Zona Leste de São Paulo, com o padre Ticão. Era uma Semana da Juventude que o grupo Renovação Jovem faz todo ano. Falei sobre o direito ao corpo, justiça reprodutiva, e o padre Ticão no dia seguinte falou sobre cannabis medicinal, porque a paróquia tem um grupo que discute esse tema. O setor raivoso, odioso e conservador se mobilizou para estar na atividade para tentar boicotar minha fala. Eles me interromperam, divulgaram vídeos com recortes, uma série de coisas, me perseguiram nas minhas redes sociais e nas redes de Católicas.

Mas eu sou muito sutil também. Tem uma frase do Oscar Romero (arcebispo de El Salvador que denunciava violações de direitos humanos em seu país, foi morto pelo governo em 1980 e, em 2018, canonizado pelo Papa Francisco) que diz: “Se a Igreja não está sendo perseguida, é porque ela tem algum problema.” Ainda mais quando a gente fala de justiça social.

Jesus está no primeiro relato da História de impedimento de um feminicídio, quando ele não deixa que Maria Madalena seja apedrejada. Esses irmãos que discordam de mim seguram a pedra novamente

TABATA TESSER

Por isso o nome do livro que publicamos é “Teologias fora do armário”: a gente não quer que temas considerados polêmicos continuem sendo tratados como tabus porque supostamente eles não passariam pelo espaço da Igreja. É mentira. Eu sempre gosto de recordar que a Igreja se idealiza como um espaço seguro, mas muitas vezes ela é o espaço violento. Há uma ideia de que a Igreja é, automaticamente, detentora da paz. E é mentira. É um espaço que tem muita alegria, muita acolhida, mas também tem muita dor.

Então, a gente é, sim, ameaçada e perseguida pela própria hierarquia da Igreja, mas também por setores minoritários — eu fico pensando em grupos que ultimamente têm defendido terraplanismo e que as mulheres voltem para a fogueira. Já ouvimos coisas horrorosas, tipo: “saudades da Inquisição”. É uma maneira duríssima de dizer que é preciso silenciar os corpos das mulheres que falam disso. Agora, ser chamada de herege, por exemplo, não nos ofende, porque o movimento herético foi importante para a Igreja. Se algo acontece por muito tempo sem nenhum conflito, ali tem um problema. A Igreja é um espaço de discussões múltiplas.

A gente diz que os nossos passos vêm de muito longe: Jesus está no primeiro relato da História de impedimento de um feminicídio, quando ele não deixa que Maria Madalena seja apedrejada. Esses irmãos que discordam de mim seguram a pedra novamente.

Sua atuação no Católicas hoje é como socióloga?

Não acho que dê para separar as coisas. Eu atuo na ONG Católicas pelo Direito de Decidir como articuladora do Núcleo de Juventude. Claro que a Sociologia me deu todo um arcabouço teórico, mas é a vida real: a organização dos movimentos feministas, estar inserida no movimento social, compreendendo os contextos, a conjuntura. Hoje a minha tarefa é difundir o ativismo e o grupo das FÉministas, que a gente quer nacionalizar.

É a primeira iniciativa brasileira de uma organização de mulheres que façam um diálogo religioso, mas ecumênico também — por isso, a gente aceita mulheres ateias, por exemplo, pessoas que não têm nenhuma crença.

É o que a gente tem chamado de feminismo cristão, que é a capacidade de conciliar diferentes aspectos da história do Cristo, que teve uma espiritualidade libertadora, mas que, ao mesmo tempo, teve também experiências sexuais e afetivas que foram tiradas do contexto bíblico. Na Bíblia, está presente uma discussão sobre sexualidade, que não pode ser algo condenável. Mas é o que é hoje: regulamentada, condenável, burocrática. É justamente essa dimensão que a gente busca difundir. Principalmente para as mulheres, que não foram ensinadas nem sequer a tocar seu próprio corpo, porque considera-se que elas são objetos sexuais para os aportes masculinos. E isso vai se diferenciando dependendo da sua raça, da sua classe, se você é uma mulher com deficiência, se não é, o estado onde você mora.

E é muito bom que essas discussões tenham crescido nos últimos tempos. Porque, se é verdade que o fundamentalismo anticristão tem aumentado, é verdade também que o movimento feminista de mulheres cristãs tem crescido. É um recado à conjuntura. A organização de mulheres sempre precede um movimento fundamentalista e que quer retirar os direitos das mulheres. Por isso é preciso ficar sempre vigilante e atuante.

Por Kamille Viola

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