Thelma vence o BBB 20 e mostra ao Brasil que lutas feminista e antirracista têm que andar juntas

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A médica não se calou diante do machismo e nem diante do racismo durante o confinamento

(O Globo/Celina, 28/04/2020 – acesse no site de origem)

Essencialmente, o “Big Brother Brasil” é um programa de entretenimento. Mas, inevitavelmente, ele acaba evidenciando problemas que estão presentes no nosso dia a dia e levantando questões que transcendem um reality show. Não foi a primeira vez que o machismo e o racismo estiveram na pauta do programa — seja entre seus participantes, seja no debate público nas redes sociais. O inédito no “BBB 20” foi que estas discussões fizeram parte da essência da narrativa do programa, dentro e fora da casa, e culminaram na bela (e esperada por muitos) vitória de Thelma Assis na noite desta segunda-feira (27).

O diferencial do BBB 20, para além do fato de o elenco, pela primeira vez, ser composto por anônimos e famosos, já começou a despontar na segunda semana de confinamento. Depois da formação do segundo paredão, todas as participantes mulheres se uniram para confrontar os brothers que confabulavam uma estratégia machista para se dar bem na disputa.

O plano de boa parte dos meninos da casa — Babu Santana,Pyong Lee e Victor Hugo não estavam envolvidos — era seduzir (alô, autoestima!) as participantes comprometidas para que elas tivessem alguma atitude que seria desaprovada pelo público, eliminando suas chances de se dar bem na disputa. Lucas Galina e Petrix Barbosa, que participavam da estratégia, também tinham namoradas fora da casa, mas contavam com a certeza de que um “deslize” da parte delas seria muito mais mal visto que qualquer comportamento desleal deles. Uma ilustração perfeita de como o machismo estabelece uma dupla moral para homens e mulheres na sociedade.

O plano tinha sido revelado para Marcela e Gizelly, que depois da formação do segundo paredão, decidiram abrir o jogo e contar a estratégia para as companheiras de confinamento. E elas não deixaram barato. Unidas — mais um ineditismo dentro do reality show — confrontaram os participantes que sabiam que estavam por trás do que apelidaram de “teste de fidelidade”, especialmente Hadson, tido por elas como o criador da jogada. Fora da casa, o público sabia do envolvimento dos outros.

O embate definiu o que viria a ser o principal fio condutor do BBB 20: a união das mulheres contra as atitudes machistas dos participantes. Marcela ganhou protagonismo, especialmente depois que os participantes da casa de vidro entraram no confinamento e confirmaram sua versão dos fatos, e chegou a ser considerada favorita ao prêmio. Os brothers não entenderam que não poderiam fugir de ser confrontados com suas próprias atitudes machistas. Por mais que tentassem se convencer que “aquilo era um jogo” e que valia tudo, o público — especialmente o feminino, muito mobilizado nas redes sociais — não perdoou.

Ao longo das semanas, todos os envolvidos na estratégia do “teste de fidelidade” ou que tiveram outras atitudes machistas dentro da casa — Petrix e Pyong foram acusados de assédio e Guilherme de ter comportamentos abusivos no seu relacionamento com Gabi — foram sendo eliminados.

A disputa poderia parecer mais ou menos definida, mas outra história se desenrolava paralelamente e seu protagonista era o ator Babu Santana, que já tinha uma torcida grande fora da casa. O participante foi constantemente enviado ao paredão sob justificativas rasas de boa parte das sisters que haviam se unido no início do programa — especialmente Marcela, Gizelly e Ivy. Enquanto o grupo, batizado de “comunidade hippie” por Manu Gavassi, era tolerante com os comportamentos de Daniel, um homem branco que perdia estalecas a todo minuto por descumprir as regras do confinamento, taxavam Babu, um homem negro, de “monstro” e “agressivo” e o isolavam.

Em entrevista à Celina publicada no dia 20 de março, a socióloga Winnie Bueno explicou que atribuir a todo momento a agressividade a uma pessoa negra, seja ela homem ou mulher, é um exemplo de estereótipo racista. “Essa ideia pode justificar, por exemplo, o tratamento que a polícia dá à população negra. Porque se esses homens e mulheres são agressivos, o estado tem permissão para ser agressivo também”, afirmou.

As atitudes consideradas racistas foram criticadas por boa parte do público e as “fadas sensatas” perderam a popularidade. Dentro da casa, elas foram confrontadas pela amiga Thelma Assis, que desde o início do programa também se identificara e mantinha uma amizade com Babu, apesar de ambos participarem de grupos diferentes no jogo. As participantes inclusive questionaram a lealdade de Thelma a Babu, sem entender (ou querer entender) que ao tratá-lo dessa forma estavam reproduzindo o racismo e acabaram isolando a anestesista também.

A própria Thelma ouviu comentários racistas dentro da casa e enfim se aproximou de Rafa e Manu. A perseguição a Babu e o isolamento de Thelma fez com que o trio se afastasse das outras participantes e se aproximasse do ator. O quarteto chegou a semi-final junto.

Faltou as outras participantes, e a boa parte das mulheres brancas que acompanhavam o programa, entender que pouco adianta lutar para que a sociedade se livre dos seus comportamentos e vícios machistas se não lutarmos para que os comportamentos e vícios racistas também sejam abolidos.

Se o desfecho do programa tivesse sido outro, acharia que não tínhamos aprendido nada nestes quase cem dias de confinamento televisionado. Mas a vitória de Thelma, além da sua potente representatividade, mostra que BBB 20 ensinou muita coisa a muita gente, inclusive a mim. Thelma se manteve coerente com aquilo que acreditava, apontou as falhas nas atitudes das próprias amigas e não calou, nem diante do machismo e nem diante do racismo. Thelma é exemplo de força e de coragem e mostra que a luta feminista será antirracista ou não será.

Por Leda Antunes

 

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