Três em cada dez brasileiras ainda não têm rendimento próprio, diz IBGE

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(G1, 31/10/2014) Avanço das mulheres na qualificação refletem pouco no mercado de trabalho. Pesquisa mostra que, mesmo mais instruídas, elas ainda ganham menos

Apesar de terem conseguido reverter as desigualdades com relação aos homens na educação, as mulheres ainda vão veem esse avanço refletido no mercado de trabalho. Mesmo mais instruídas, elas ainda têm salários menores que os dos homens e três em cada dez brasileiras sequer têm rendimento próprio, segundo as estatísticas de gênero apresentadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (31).

Os dados apontam as diferenças entre homens e mulheres em aspectos como mercado de trabalho, educação, habitação e rendimento com base nos censos de 2000 e 2010. “Embora tenha havido uma redução na década de mulheres sem rendimento, elas ainda eram 30% em 2010, o que é um número elevado. Elas podem estar em famílias com rendimento, mas o fato de não terem rendimento próprio aumenta a dependência”, explica Barbara Cobo, gerente de indicadores sociais do IBGE e coordenadora da pesquisa.

A proporção de mulheres de 16 anos ou mais sem rendimento está acima do observado para o total da população (25,1%) e para os homens nessa mesma faixa etária (19,4%). A região Norte é onde há mais mulheres nesta condição (37,7%). No oposto está o Sul, com 24,6% das mulheres sem rendimento próprio. (veja gráfico ao lado)

Para as mulheres que têm rendimentos, o principal problema é a disparidade com relação ao que recebem os homens. Apesar de mais instruídas, elas ainda ganham menos que eles. Em 2010, havia mais mulheres entre os universitários de 18 a 24 anos (57,1%). Ainda segundo o IBGE, o nível educacional das mulheres é superior ao dos homens na faixa etária de 25 anos ou mais, e a maior diferença percentual por sexo está justamente no nível superior completo – com 12,5% das mulheres graduadas contra 9,9% dos homens.

Entre 2000 e 2010, elas tiveram o maior aumento relativo de rendimento médio (12% contra 7,9% dos homens), o que reduziu um pouco a diferença. Porém, em 2010, elas ainda ganhavam o equivalente a 68% do rendimento deles.

O componente racial aumenta ainda mais a disparidade. O rendimento médio das mulheres pretas ou pardas, de R$ 727 em 2010, equivalia a 35% do rendimento dos homens brancos, de R$ 2.086. As mulheres das áreas rurais apresentaram os rendimentos mais baixos de todos – R$ 480, inferior ao salário mínimo da época (R$ 510).

“Há uma desigualdade acumulada. Mesmo entre o grupo das mulheres, as brancas estão em melhor situação que as pretas ou pardas, que acabam duplamente desfavorecidas”, analisa Barbara.

Razões

Segundo ela, há vários fatores que apontam para a disparidade de rendimentos entre homens e mulheres. Apesar da superioridade escolar da população feminia adulta, elas ainda direcionam para carreiras com menor rendimento médio, como educação, humanidades e arte. Entretanto, o estudo mostra que o rendimento feminino não se iguala ao masculino em nenhuma das áreas gerais analisadas.

A dupla jornada de trabalho da mulher também influencia. “As mulheres ainda são primordialmente responsáveis pelo cuidados familiares e afazeres domésticos. Isso faz com que algumas busquem empregos de carga horária menor e, logo, salários mais baixos”, diz.

E, por fim, há a discriminação no mercado de trabalho, muitas vezes estimulada pela própria lei trabalhista. Barbara explica que, diante da possibilidade de a mulher engravidar e precisar ficar seis meses afastada do trabalho, ela acaba sendo preterida de cargos de confiança e mais altos. “Tanto na esfera pública quanto na privada, esses cargos ainda são de homens na maioria”, afirma a coordenadora da pesquisa.

Segundo ela, para mudar esse quadro, seria preciso uma ajuda do estado com a oferta de creches e cuidados com o idoso, que poderiam liberar as mulheres para o mercado de trabalho, além da mudança na ideia de que os afazeres da casa são obrigação da mulher. Outro ponto é a mudança na própria lei trabalhista. “Há países que já adotam o mesmo tempo de licença para homens e mulheres que tiveram filhos.”

Cida Alves

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