Câncer de mama é mais agressivo no Norte e no Nordeste

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(O Estado de S. Paulo, 19/10/2014) Embora registrem menor número de casos de câncer de mama, as Regiões Norte e Nordeste são as que têm a maior incidência de tumores mais agressivos, revela estudo inédito divulgado pela Sociedade Brasileira de Mastologia, por ocasião do Dia Internacional Contra o Câncer de Mama, celebrado neste domingo, 19.

Leia mais: The Scar Project: brasileiras vítimas do câncer de mama expõem suas cicatrizes em prol da auto-estima (Brasil Post, 16/10/2014)

Histórico familiar leva sombra do câncer de mama mais cedo às mulheres (NE10 Notícias, 11/10/2014)

Durante dois anos, os pesquisadores analisaram as características dos tumores de mama de 5.687 mulheres em todas as regiões do País. Eles foram divididos em cinco tipos, de acordo com o grau de agressividade, sendo o luminal A o menos agressivo e com maiores chances de cura e o triplo negativo o mais agressivo e com menos possibilidades de tratamento.

O estudo mostrou que no Sul e Sudeste a incidência do tumor triplo negativo é de aproximadamente 14%, enquanto no Norte o índice sobe para 20,3% e no Nordeste e Centro-Oeste, vai para 17,4%. Já os tumores do tipo luminal A representam 30,8% dos casos relatados na Região Sul e 28,8% no Sudeste. A frequência desse tipo de câncer cai para 24,1% no Nordeste, 25,3% no Norte e 25,9% no Centro-Oeste.

Segundo Filomena Carvalho, professora associada do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP e uma das autoras do estudo, as diferenças nas incidências dos diversos tipos de tumores, de acordo com a região do Brasil, mostram que o aparecimento de determinado câncer tem a interferência de questões raciais e ambientais. “Outros estudos internacionais já mostraram que mulheres afrodescendentes tendem a apresentar tumores de mama mais agressivos. No Norte e Nordeste, a taxa de população negra é maior. As condições climáticas, como o calor, também podem ser um fator que influencia nas mutações genéticas”, diz ela, que integra a SBM e liderou o estudo ao lado do pesquisador Carlos Bacchi, diretor do laboratório Bacchi, de Botucatu.

Moradora de Salvador, a farmacêutica Isabele Maiara de Oliveira e Silva, de 34 anos, descobriu o câncer de mama há pouco mais de um mês. Por causa da agressividade da doença, ela foi submetida à cirurgia de retirada do tumor e da mama 20 dias depois. Embora ainda esteja aguardando os resultados da biopsia, a principal hipótese é de que ela tenha o tumor do tipo triplo negativo.

“Eu fazia ultrassom da mama todos os anos. Só não fazia mamografia porque, pela idade, ainda não tinha indicação. De um ano para o outro, esse tumor surgiu e, quando descobri, já tinha dois centímetros. Ele crescia muito rápido”, conta ela, que agora terá de passar por quimioterapia e radioterapia.

A analista de sistemas Denise Guedes Marques Amadeu, de 49 anos, de São Paulo, passou, há cinco anos, por processo similar ao de Isabele. “Tive de fazer a cirurgia, químio e radio. A sorte foi que descobri o tumor no começo, e o tratamento foi iniciado rapidamente”, conta ela. Denise teve um tumor luminal A, o que tem as maiores chances de cura. “É bom as pessoas saberem que o diagnóstico de câncer de mama não é uma sentença de morte. E mesmo o trauma da retirada da mama pode ser minimizado com a cirurgia de reconstrução”, diz.

Prevenção. Para Filomena Carvalho, o estudo das diferenças geográficas dos tumores é importante para o estabelecimento de políticas públicas de prevenção e diagnóstico mais eficazes para cada contexto. “Embora a gente não saiba com certeza as causas dessas diferenças, elas devem nortear toda a estratégia de prevenção. No caso de regiões com maior incidência de tumores mais agressivos, o diagnóstico precoce é ainda mais importante”, defende.

Fabiana Cambricoli

Acesse o PDF: Câncer de mama é mais agressivo no Norte e no Nordeste (O Estado de S. Paulo, 19/10/2014)

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