“Coronavírus pode acabar com minha oportunidade de ser mãe: mulheres sofrem com suspensão de tratamento de fertilidade

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Desde março, as clínicas de reprodução assistida no Brasil estão com seus trabalhos suspensos, deixando ansiosos as mulheres e casais passando pelo processo, que não é barato.

(Época, 04/05/2020 – acesse no site de origem)

A pandemia do coronavírus parece ter congelado o tempo e a vida de milhares de pessoas ao redor do mundo. Para algumas delas, contudo, o tempo é o que tinham de mais precioso.

“Cada mês que eu espero, tenho menos chances de ter um filho”, diz Giovana*, uma mulher de São Paulo que tenta engravidar há quatro anos e que, desde o ano passado, recorre a um processo de fertilização in vitro.

“Quando soube que a pandemia suspenderia meu processo de reprodução assistida, tive certeza que ali tinha acabado minha oportunidade de engravidar. Eu não estava morta por um coronavírus, mas de certa forma me mataram. Mataram meu sonho de ser mãe.”

A administradora Adriana Carlos, 37 anos, tenta engravidar há dois anos e meio. Como ela e o noivo não conseguiram de forma natural, no final do ano passado procuraram uma clínica, conta ela, que mora no interior de São Paulo. Descobriu que tinha baixa reserva ovariana, além de dois miomas, e decidiu começar um processo de fertilização in vitro no fim de janeiro. A tentativa, no entanto, não foi bem-sucedida, e ela iria tentar mais uma vez no mês seguinte.

“O maior problema é que eu acabei de fazer 37 anos e já tenho reserva ovariana baixa. Não dá para saber se isso vai se manter até o final do ano ou não. Quanto mais o tempo passa, pior fica, vai ficando mais difícil. Pode ser que quando eu retome o tratamento, minha reserva ovariana esteja muito abaixo do que estava no começo do ano”, lamenta.

Desde março, as clínicas de reprodução assistida no Brasil estão com seus trabalhos suspensos, deixando ansiosos as mulheres e casais passando pelo processo, que não é barato. Um tratamento pode custar entre R$ 15 mil e R$ 30 mil.

Ansiedade e solidão

A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que a infertilidade afeta 15% dos casais em idade fértil no mundo inteiro. Isso inclui problemas de subfertilidade, em que, no caso da mulher, apesar da ovulação ocorrer, a concepção não acontece por questões hormonais ou problemas físicos no aparelho reprodutivo. Segundo a organização, a infertilidade pode levar a “vergonha, estigma, ansiedade, depressão, sentimentos de baixa autoestima e culpa”.

É também um sofrimento solitário. Casais ou mulheres que tentam engravidar e depois passam por tratamentos de reprodução assistida não costumam contar para outras pessoas, como no caso de Giovana. Seu nome foi modificado justamente porque ela não quer que amigos descubram seu caso por meio da reportagem.

Agora, Giovana e outras mulheres estão sofrendo como o restante da população com a pandemia, mas vivem uma camada secreta de sofrimento sem poder compartilhar com outras pessoas.

Em 2019, 43 mil mulheres passaram por ciclos de fertilização in vitro no Brasil. Para 2020, a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) esperava 50 mil processos. “Estamos muito preocupados. Como em 2016, tivemos redução de ciclos por causa da zika, com esse movimento de alerta da pandemia e todo mundo tendo de adiar ciclos, achamos que deve reduzir muito”, diz Hitomi Nakagawa, especialista em ginecologia e obstetrícia e presidente da SBRA.

Há 183 clínicas de reprodução assistida cadastradas com a Anvisa no Brasil. Em março, a SBRA recomendou que a maioria dos procedimentos de reprodução assistida fosse suspensa. Recentemente, atualizou a orientação para incluir exceções para casos individuais, “sob juízo do profissional”, e evitando ainda as transferências embrionárias, uma etapa final da fertilização in vitro.

O processo passa pela estimulação ovariana com hormônios, depois pela captação e fecundação dos óvulos in vitro e, por fim, pela transferência embrionária, levando os embriões formados ao corpo da futura gestante. Em 2019, quase 72 mil embriões foram transferidos no Brasil.

“Nunca vou ter filhos”

Com transferências suspensas, fóruns e grupos de Facebook que reúnem mulheres tentando uma gravidez por meio da fertilização in vitro estão repletos de mensagens com relatos desesperados. “Meu médico cancelou a minha [transferência de embrião]… medo da minha reserva ovariana baixar mais ainda e eu não conseguir engravidar com meus próprios óvulos… ai, gente, tô angustiada”, diz uma das dezenas de mensagens no fórum BabyCenter, portal de informações sobre gestação e bebês.

Há relatos principalmente de mulheres preocupadas por causa da idade.

Nakagawa diz que, depois dos 30 anos, a reserva de óvulos da mulher “vai se consumindo” e que, depois dos 35, “começa a decair muito significativamente”. Por isso, é preciso ter uma atenção especial para as mulheres que procuram os serviços de reprodução assistida depois dos 36 ou 37 anos.

É o caso de Giovana, que é engenheira civil em São Paulo e tem 36 anos. Tenta engravidar há quatro e, há dois, descobriu que tem problemas nas duas trompas. Um espermograma do marido também acusou problemas que poderiam ser sanados, entretanto, com medicamento. O casal já passou junto por dois processos de reprodução assistida — e gastou R$ 31 mil com isso.

“É um desgaste emocional e financeiro muito grande”, relata ela, citando todos os remédios manipulados e injeções que tomou antes de descobrir que os processos não tinham dado resultados. O casal partiu então para uma terceira tentativa.

O plano era esperar e tentar mais uma vez no ciclo seguinte, no fim de março. “Quando eu menstruei, avisei meu médico, mas ele me disse que não poderíamos fazer mais por conta do coronavírus. Pensei: ‘Pronto, ferrou. Já tenho reserva ovariana baixa, agora vai zerar de vez e eu nunca vou ter filhos. Foi um desespero’.”

Ela fala das vezes em que é cobrada por amigos e familiares a ter filhos, sem que saibam que é o que ela mais queria. Ou de quando as pessoas comentam do seu ganho de peso, sem saber que é por causa da quantidade de hormônio que teve de tomar.

“É um sentimento muito ruim. Eu tenho casa, trabalho, condição de ter uma família e oferecer coisas que eu não tive e não consigo engravidar. Quanto mais o tempo passa, pior eu me sinto. Estou numa corrida contra o tempo”, diz.

Adriana Carlos, do interior de São Paulo, conta sentir uma mistura de sensação de perda, pressão e incerteza. “Fiquei esperando muitas situações ideais para chegar num momento de ter um filho. Inevitavelmente passa pela minha cabeça que eu não vou poder ter”, diz ela, que já gastou R$ 23 mil com o processo e calcula que gastará mais R$ 20 mil. “Os médicos falam: ‘Cada mês, cada ano que passa, a qualidade dos óvulos diminui’. O tempo do corpo não espera.”

Já são oito anos de tentativa no caso de Fernanda Fiuza, 37, de Belo Horizonte (MG), que tem uma disfunção na hipófise que a impede de engravidar. Nesse período, ela e o marido fizeram um processo de fertilização in vitro que não deu certo. Foi em 2018 e, naquela época, gastaram R$ 15 mil. Em novembro do ano passado, resolveram tentar de novo, desembolsando mais R$ 15 mil. Iam começar em janeiro, mas por questões de trabalho e viagem, o marido pediu para que esperassem até março.

O processo nem pôde começar. “O mundo da ‘tentante’ [como são chamadas as mulheres que tentam engravidar] é todo em volta do filho. Quando a gente descobre que não vai conseguir ter, é como se acabassem com um sonho. Como eu tenho 37 anos, para mim é pior ainda. Já tenho reserva baixa. Será que quando voltar tudo, vou conseguir?”

Gravidez e coronavírus

Outra preocupação recorrente entre as mulheres é a própria gravidez. Se conseguirem, finalmente, engravidar, correrão algum risco por causa do coronavírus?

Segundo Nakagawa, a presidente da SBRA, a entidade recomendou evitar tratamentos de rotina “por precaução e porque a gente não tem dados de gravidez inicial”. “A gente tem vários traumas de alguns anos atrás do que aconteceu com o zika. Não sabemos se na fase inicial das gestantes de covid-19 vai haver diferença”, afirma, destacando que não há estudos até agora apontando perigos.

Sua orientação é que os pacientes mantenham contato com os médicos para receberem orientações. “Há serviços que, realmente, de acordo com a condição da mulher, será preciso fazer, com todos os cuidados de afastamento social, máscara, e horários de atendimento distantes”, diz, quando questionada sobre mulheres que estão na faixa limítrofe de reservas de óvulos. “Já estamos pensando em protocolos para voltar devagar.”

Por Juliana Gragnani

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