Em 10 anos, mais de 7,5 milhões de abortos no Brasil

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(O Globo, 22/09/2014) Quase um mês depois de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de 27 anos, ter desaparecido após se dirigir a uma clínica de aborto em Campo Grande, a Polícia Civil começa a investigar um caso semelhante: grávida de cinco meses, Elizângela Barbosa, de 32, foi encontrada morta em Niterói após avisar à família que ia fazer uma cirurgia para interromper a gestação.

A carteira de identidade de Elizângela Barbosa, de 32 anos: grávida de cinco meses, ela foi encontrada morta na Estrada da Ititioca, em Niterói (Foto: Thiago Freitas/Agência O Globo)

O corpo de Elizângela foi achado na noite de domingo na Estrada da Ititioca, no bairro de mesmo nome. Parentes disseram nesta segunda-feira a investigadores da Divisão de Homicídios da Polícia Civil que ela saiu de casa no sábado de manhã para fazer um aborto. Moradora do Engenho Pequeno, em São Gonçalo, Elizângela era mãe de três crianças.

— O maior desejo dela era conquistar a independência financeira para se dedicar apenas à educação dos filhos. Havia oportunidades de trabalho, mas Elizângela sabia que não seria contratada por estar grávida. Eu fui contra o aborto, argumentei que dava para sustentar mais uma criança. Mas ela estava decidida a fazer a cirurgia — afirmou o viúvo, o pintor industrial Anderson Santos da Silva, de 27 anos.

ENCONTRO COM DESCONHECIDO

De acordo com Anderson, Elizângela saiu de casa por volta das 8h de sábado com R$ 2.800 em espécie para realizar o aborto numa clínica clandestina no bairro do Sapê. Acompanhado pelos três filhos, ele levou a mulher até um ponto de encontro marcado com um homem desconhecido, que a levaria até o local da cirurgia.

— Quando retornamos para casa, um dos nossos filhos perguntou: “será que mamãe vai voltar?” — disse Anderson, emocionado.

Segundo ele, duas horas depois, Elizângela telefonou e lhe disse que precisava de mais R$ 700 para fazer o aborto. Depois dessa ligação, os dois passariam a manter contato por meio de mensagens de texto de celular.

— Na primeira, ela disse que retornaria para casa no mesmo dia. À noite, avisou que voltaria no domingo de manhã, mas garantiu que estava tudo bem. Às 17h50m de ontem (domingo), ela ligou e disse que estava terminando o último procedimento. Duas horas depois, mandou mais uma mensagem e me pediu para telefonar em 40 minutos. Depois disso, não consegui mais falar com ela — relatou Anderson.

TELEFONEMA DE HOSPITAL

No fim da noite de domingo, um dos irmãos de Elizângela recebeu um telefonema do Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói. Foi informado de que ela havia sido deixada morta na unidade de saúde, no Fonseca.

— Reconheci o corpo, que apresentava sangramento nas partes genitais. Tudo que ela queria era voltar a trabalhar, por isso decidiu fazer o aborto. Agora, teremos que chorar essa tragédia— disse Cosme Barbosa, irmão de Elizângela, acrescentando que ela foi levada ao hospital pelo motorista de um carro branco. — Ele contou à polícia que traficantes de drogas o obrigaram a deixá-la no Hospital Azevedo Lima.

OBJETO DEIXADO NO CORPO

De acordo com investigadores, havia um tubo plástico dentro do corpo de Elizângela. Segundo o delegado Adilson Palácio, responsável pela apuração do caso, tudo indica que o objeto foi usado na clínica de aborto.

— Provavelmente, ela teve alguma complicação durante o procedimento e não resistiu. O tubo pode ter provocado uma hemorragia na vítima — disse Palácio.

Uma policial examina o carro no qual Elizângela foi levada ao hospital (Foto: Thiago Freitas/Agência O Globo)

O delegado da Divisão de Homicídios afirmou que, por enquanto, há pelo menos três investigados no caso: o motorista que levou Elizângela até o local onde seria realizado o aborto, o homem que a encontrou na Estrada da Ititioca e a pessoa responsável pela cirurgia ilegal.

— Sabemos que o aborto foi feito em São Gonçalo, mas ainda não temos o local exato do centro cirúrgico clandestino — comentou o delegado, acrescentando que já ouviu depoimentos de parentes de Elizângela e do homem que a levou ao hospital. — Ele contou que foi parado por homens armados numa área da Estrada da Ititioca cercada de favelas. Agora, vamos atrás do motorista que a conduziu à clínica clandestina. Já temos algumas pistas.

Jandira Magdalena dos Santos Cruz, desaparecida em Campo Grande após seguir para uma clínica de aborto (Foto: Reprodução/Internet)

POLÍCIA FAZ EXAME DE DNA

Assim como Elizângela, a auxiliar administrativa Jandira Magdalena dos Santos Cruz havia marcado um ponto de encontro — no caso, o terminal rodoviário de Campo Grande — para ser levada a uma clínica de aborto na Zona Oeste, no último dia 26. Investigadores prenderam quatro pessoas acusadas de participação no crime, incluindo a técnica de enfermagem Rosemere Aparecida Ferreira, que seria uma das chefes de uma quadrilha especializada em montar centros cirúrgicos clandestinos em vários pontos do estado. A polícia faz um exame de DNA para saber se é de Jandira um corpo encontrado em Guaratiba.

EM 10 ANOS, MAIS DE 7,5 MILHÕES DE ABORTOS

As mortes de mulheres durante cirurgias em clínicas clandestinas de aborto exigem um grande debate público sobre o tema, afirmam especialistas. Estudos recentes chamam a atenção para a urgência do problema. As estimativas são que, de 2004 a 2013, entre 7,5 milhões e 9,3 milhões de mulheres interromperam a gestação. Os números constam da pesquisa “Magnitude do abortamento induzido por faixa etária e grandes regiões’’, dos professores Mario Giani Monteiro, do Instituto de Medicina Social da Uerj, e Leila Adesse, da ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde.

De acordo com o levantamento, somente no ano passado, foram 205.855 internações decorrentes de abortos no país, sendo que 154.391 por interrupção induzida. Um quadro que revela apenas uma ponta de iceberg. O estudo aponta para uma realidade ainda mais dramática: o número de abortos induzidos é quatro ou cinco vezes maior do que o de internações. Com isso, é possível estimar que o total de abortos induzidos em 2013 variou de 685.334 a 856.668. No entanto, segundo dados do Ministério da Saúde, foram apenas 1.523 casos de abortos legais (por estupro, ameaças à saúde materna e anencefalia fetal) no período.

Quinto maior causador de mortes de mulheres no Brasil, o aborto tem um custo financeiro tão alto quanto o emocional. No ano passado, foram 205.855 internações decorrentes de abortos no país — sendo 51.464 espontâneos e 154.391 induzidos (ilegais e legais). Levando em consideração que o valor médio da diária de uma internação no SUS é de R$ 413 e que as hospitalizadas passaram apenas um dia sob cuidados médicos, o governo gastou R$ 63,8 milhões por conta de abortos induzidos. Também em 2013, foram 190.282 curetagens (método de retirada de placenta ou de endométrio do corpo), a maioria de quem quis interromper a gravidez. Isso teria custado um total de R$ 78,2 milhões, já que, pela tabela do SUS, cada intervenção sai, em média, por R$ 411. O gasto total é de R$ 142 milhões.

Bernardo Costa

Acesse o PDF: Em 10 anos, mais de 7,5 milhões de abortos no Brasil (O Globo, 22/09/2014)

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