“É preciso falar de gênero nas escolas”, diz cientista social Sylvia Cavasin

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Especializada em saúde, educação, gênero, diversidade sexual e masculinidades, cientista social identifica forças conservadoras, falta de investimentos em políticas pró-igualdade e perseguição a professoras e professores como principais obstáculos para educação que garanta os direitos humanos das mulheres

Com 28 de ativismo na ONG Ecos, a cientista social Sylvia Cavasin já viveu muitas histórias em torno da temática educação e gênero no Brasil. A instituição é uma das participantes do projeto Gênero e Educação: fortalecendo uma agenda para as políticas educacionais, que tem por objeto fortalecer a agenda da igualdade de gênero nas políticas educacionais.

(ONU Mulheres, 08/04/2017 – acesse no site de origem)

“É preciso falar de gênero nas escolas”, diz cientista social Sylvia Cavasin/Nessa entrevista para a ONU Mulheres Brasil, ela recupera parte do boom da articulação entre educação e saúde, para a prevenção do HIV/aids, nos anos 1980, por meio de projetos de educação sexual nas escolas e com grupos vulneráveis, até a recente ocupação das escolas públicas por estudantes secundaristas.

“É preciso falar de gênero nas escolas. A abordagem ainda está em cima do indivíduo, de cada professora e professor. Ainda não é uma política da escola. Em geral, as famílias desconhecem o que é gênero e caem na desinformação, que tem criado uma espécie de terrorismo e de perseguição a professoras e professores que colocam essa temática na escola”, avalia a especialista.

Sylvia também é coordenadora de projetos da ONG Ecos Comunicação e Sexualidade e da Rede de Gênero, Educação e Sexualidade e uma das autoras do livro Gênero e Educação, da Ação Educativa. Para ela, a igualdade de gênero concretiza os propósitos de uma sociedade inclusiva por meio da abordagem do tema em sala de aula, abrindo os horizontes de cada aluna e aluno para uma vida com igualdade entre mulheres e homens.

Corpos e sexualidades – Há três décadas, as escolas se tornaram espaços importantes para o debate e a reflexão sobre temas sociais, entre eles a prevenção ao HIV/aids. “Naquele tempo, era possível conversar sobre a prevenção à aids. As famílias gostavam, porque a gente falava o que elas não falavam. Havia receptividade de alunos e de professores. A gente trabalhou tranquila durante muitos anos até chegar esse momento que traz perdas para a educação com a ação de conservadores [contrários ao tema]”, afirma.

Sylvia elenca algumas iniciativas importantes para as políticas públicas na área de educação e gênero, tais como o programa Gênero e Diversidade na Escola, Escola sem Homofobia, Mulher e Ciência. “Mas são políticas públicas que não entraram pela porta da frente. Entraram pelos fundos”, aponta em alusão aos esforços concentrados por órgãos como as Secretarias de Políticas para as Mulheres, Direitos Humanos e Igualdade Racial e com pouca capilaridade em estados e municípios.

Apesar da hesitação diante das incertezas políticas acerca da educação com perspectiva de gênero, Sylvia considera que “gênero e raça estão constituídos” a ponto de marcarem um “caminho sem volta”. “O que pode haver são pedras no caminho. Temos histórico de governo de sucesso e histórico de ação também consolidada”, completa.

Juventude em defesa da educação – De acordo com a cientista social Sylvia Cavasin, outra força para superar as tensões contrárias à educação com perspectiva de gênero vem da própria juventude. “Há anos, a gente vinha trabalhando com tranquilidade até a investida contra gênero e sexualidade. Mas vimos também a mobilização em torno das escolas pós-Plano Nacional de Educação [em 2014]. Essa foi uma grande surpresa: ver a juventude com a visão diferente da educação ortodoxa e antiga. Vejo a juventude interessada e discutindo. Os altos espaços institucionais têm de se abrir e ouvi-los. Essa é uma surpresa boa”, completa Sylvia.

Diante das investidas e das desinformações contrárias à educação com perspectiva de gênero, Sylvia lembra que os direitos das mulheres e a eliminação da violência contra as mulheres estão vinculados aos direitos humanos como conceitos fundantes para a transformação das condições de desigualdades e de discriminações.

#EscolaSemMachismo – Um mundo com igualdade de direitos e de oportunidades para mulheres e homens nas suas diversidades de gênero, raça, etnia e classe social, em atenção ao lema de “não deixar ninguém para trás”. Este é o propósito da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, adotada, em 2015, pela Assembleia Geral da ONU por consenso dos Estados-Membros. Correspondendo ao 5º de 17 objetivos globais, alcançar a igualdade de gênero é ainda um desafio devido às barreiras históricas, culturais e políticas, com a perpetuação de valores de comportamentos machistas contrárias à validação dos direitos humanos das mulheres em todo o mundo.

Na volta às aulas, a ONU Mulheres Brasil fez uma série de entrevistas com especialistas em gênero e educação, para aferir as condições da articulação entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável n. 5 (Igualdade de Gênero) e n. 4 (Educação com Qualidade) no País.

Nas redes sociais, o tema foi abordado pela ação digital Volta às Aulas Sem Machismo, por meio da iniciativa O Valente não É Violento em apoio à campanha a ONU “UNA-SE pelo fim da violência contra as mulheres”. Os conteúdos são: currículo para escolas de ensino médio, seis planos de aula e cartões virtuais sobre como tornar o espaço escolar mais receptivo para as questões de igualdade de gênero e empoderamento de meninas e de mulheres.

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