Uma em cada 5 crianças brasileiras sobrevive sob a marca da fome, da violência e do trabalho infantil

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Mais de 9 milhões de brasileiros de zero a 14 anos vivem em lares com renda per capita mensal de até 250 reais

(Carta Capital | 30/10/2021 / Por Rodrigo Martins e Ana Flávia Gussen)

A miséria caminha de mãos dadas com a insegurança alimentar. Não chega a surpreender, portanto, que uma em cada três crianças brasileiras sofre de anemia, como atesta um estudo feito pela Universidade Federal de São Carlos. A carne bovina, uma das principais fontes de proteína da população, sumiu do prato dos brasileiros depois de acumular alta de 34% nos últimos 12 meses, mostra o IPCA, indicador de inflação oficial medido pelo IBGE. Atualmente, a cesta básica consome 65% do salário mínimo, acrescenta o Dieese. No entanto, 18,8 milhões de crianças com até 14 anos vivem em lares com renda per capita inferior a meio salário mínimo, mostra a Pnad de 2019. Isso equivale a 45,5% do total de brasileiros nessa faixa etária.

Mais de 9 milhões de brasileiros de zero a 14 anos vivem em lares com renda per capita mensal de até 250 reais

Para salvar os filhos pequenos da fome, Ana Cláudia Silva tomou a difícil decisão de confiar a guarda deles ao ex-companheiro, atualmente empregado. “Não estava conseguindo alimentá-los”, desabafa. Moradora da comunidade do Trilho, em Fortaleza, ela costumava caminhar até a vizinhança abastada para coletar alimentos descartados por restaurantes e supermercados. Trata-se do bairro Cocó, reduto da classe média cearense, que ficou nacionalmente famoso após um vídeo gravado por um motorista de aplicativo viralizar nas redes sociais. As cenas mostram o desespero de pessoas famintas revirando os sacos coletados por um caminhão de lixo de um supermercado. Uma dolorosa cena que se tornou frequente nos últimos meses, segundo o relato de funcionário do estabelecimento à mídia local.

Quando conversou com CartaCapital, Ana Cláudia estava na casa da vizinha Antônia Eunice Monteiro, de 74 anos, cuja história se assemelha à da amiga em muitos aspectos. Há cerca de 20 anos, ela também precisou entregar os filhos para familiares por não ter condições de sustentá-los. Uma semana antes, enquanto coletava restos de comida dos moradores de Cocó, a idosa sofreu um infarto e, agora, não sabe como vai se virar. Com os 150 reais que recebe do programa Bolsa Família, sem reajuste há três anos, ela só consegue pagar as contas de luz e gás. “Quando fico sem nada, peço ajuda aos vizinhos. Aí eles me dão 20 reais ou eu lavo uma roupa. O problema é que, agora, não tenho mais saúde nem para catar comida no lixo.”

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