Número de mulheres em albergues de São Paulo aumenta mais de 50% em cinco anos

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(R7, 19/10/2014) Nos últimos cinco anos houve um aumento de quase 50% no número de atendimentos a mulheres em centros de acolhida da prefeitura, os antigos albergues, se levado em consideração o primeiro semestre de cada ano. O levantamento foi obtido por meio da lei de acesso à informação pelo R7.

O albergue está localizado na região central da cidade (Foto: Daia Oliver/ R7)

O último Censo da População em Situação de Rua realizado na capital paulista, em 2011, pela Prefeitura de São Paulo em parceria com a FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), revela que 14.478 pessoas não têm onde morar, sendo 6.765 nas ruas e 7.713 em centros de acolhida. Do número total de pessoas em situação de rua, 55% se concentram na região central da cidade.

O Centro de Acolhida Especial Casa Brigadeiro, localizado na avenida Brigadeiro Luis Antônio tem atendimento 24 horas. O local é exclusivo para mulheres de até 60 anos, com ou sem filhos. De acordo com a gerente do local, Juliana Morgan, são 140 vagas, sendo 50 para crianças.

— Atendemos mulheres em qualquer situação, seja viciada em drogas ou álcool ou que sofria violência doméstica ou mesmo as que romperam vínculo com as famílias. O local é dividido por andares. Os 5º e 6º andares são das mulheres sem filhos. O 4º andar é a área de convivência, com sala de TV e brinquedoteca. Já os 1º e 3º andares são destinados para mulheres com filhos.

O centro trabalha com a capacidade total de vagas. Além dos 140 lugares, nos meses de frio (entre maio e outubro), mais 12 vagas do 7º andar são destinadas para outras moradoras de ruas, informou Juliana.

— Geralmente são as mesmas pessoas de todo ano. São pessoas que ficam nas ruas e vendem algumas coisas, vão a outros lugares, como litoral do Estado, e nos meses de frio, voltam para cá.

As mulheres são encaminhadas pelo Creas (Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua). São aceitas crianças de 0 a 17 anos e meio, no caso dos meninos. Já as meninas, podem continuar quando completam 18. O prazo para ficar no centro é de um ano e seis meses, mas pode ser prorrogado.

Juliana explica que quando a mulher chega ao centro, ela recebe apoio psicológico e assistência social. Em seguida, é feito um trabalho de acordo com a situação de cada pessoa — como resolver falta de documentos, problemas de saúde etc. Depois de um tempo no albergue, a maioria consegue sair e melhorar de vida. Elas também recebem seguro-aluguel da prefeitura por 30 meses até se restabelecer.

— O nosso trabalho busca autonomia das mulheres. Algumas chegam aqui e nem conseguem sair na rua.

Maria Aparecida Prado, 50 anos, mora há cinco meses no Casa Brigadeiro e não vê quando poderá sair. Ela havia sido transferida de outro albergue localizado no Belém, na zona leste, depois de ficar desempregada. Sem conseguir pagar o aluguel do quarto em morava na região da Luz, procurou o Creas da avenida Tiradentes e pediu ajuda.

Maria Prado não sabe quando terá condições de deixar o albergue (Foto: Daia Oliver/ R7)

Maria não tem parentes vivos e nem filhos. O quarto onde dorme tem dois banheiros e é dividido entre quatro mulheres. A limpeza dos cômodos é por conta delas, mas ela não se incomoda porque gosta muito do local, principalmente da comida.

— Aqui tem café, almoço, lanche e janta. Tudo é muito bem preparado. Hoje teve filé de peixe frito, com salada de repolho e laranja, além de suco.

Albergue misto

Localizado na rua São Domingos, na Bela Vista, o Centro de Acolhida Lygia Jardim atende até 100 pessoas, sendo 60 homens e 40 mulheres encaminhados pelo Creas. Crianças de até 12 anos só são aceitas quando acompanhadas do pai ou da mãe, mas a incidência é baixa, segundo Ana Beatriz, que trabalha na diretoria do centro. O sistema de atendimento é de 16h, ou seja, os albergados precisam chegar ao local até às 20h30 e sair na manhã seguinte.

O tempo de permanência máximo é de seis meses, mas o prazo pode se estender dependendo da situação de cada um, como explica Ana Beatriz. Cerca de 10% dos albergados procuram ou têm emprego, mas grande parte não consegue reconstruir sua vida.

— A maioria tem problemas psiquiátricos como esquizofrenia, além de dependência química.

Além dos albergados fixos, o centro tem ainda dez vagas apenas para pernoite. Essas pessoas também são encaminhadas pelo Creas. Ao chegarem, os moradores de rua recebem produtos de higiene, fronha e lençol. Eles também jantam e tomam café da manhã.

No local há ainda 80 vagas para alunos dos cursos profissionalizantes. O núcleo de capacitação do centro oferece cursos de cuidador de idosos, ajudante de padaria, ajudante de cabeleireiro, eletricista e pintor de parede. Os cursos são realizados de três em três meses.

Ana Beatriz ressalta que a convivência entre homens e mulheres do centro é harmoniosa. Geralmente as poucas brigas que ocorrem são causadas por uso de bebidas alcoólicas ou de entorpecentes. Caso o comportamento agressivo persista, o albergado é transferido para outra instituição.

O Centro de Acolhida Lygia Jardim atende homens e mulheres (Foto: Daia Oliver/ R7)

Mesmo com as restrições de horários, as determinações são seguidas pelos albergados. Maria*, de 44 anos, está há mais de um mês no centro e, apesar de não gostar do local por causa das regras, prefere se submeter a elas a ter que dormir na rua.

Depois de conhecer um homem que lhe apresentou às drogas e à bebida, ela não conseguiu mais pagar o aluguel da casa em que vivia há mais de 20 anos em Itaquera, na zona leste da capital, e precisou entregar o imóvel. Apesar de ter uma filha em São Paulo, Maria preferiu procurar um albergue. Ela visita a filha e os três netos sempre que pode e tem planos de arranjar um emprego formal e alugar um quarto.

Enquanto isso não acontece, ela faz programas para conseguir algum dinheiro, pois não tem documentos nem experiência profissional, como explica Ana Beatriz.

— Não tem estudos nem documentos, mas quer estudar e fazer curso de cuidadora de idosos. Quando conseguir realizar seus sonhos, Maria pretende voltar para Jequié, no interior da Bahia, onde nasceu, com toda sua família.

Mais vagas

De acordo com a SMADS (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social), atualmente a rede socioassistencial conta com cerca de 1.300 vagas para mulheres. Dois novos serviços para o acolhimento de mulheres (Ermelino Matarazzo e Santo Amaro) estão em fase final de implantação.

A pasta afirma que recentemente foi criado um Serviço de Acolhimento Familiar na Casa Verde, que contempla vagas para mulheres acompanhadas ou não de seus companheiros, com 150 vagas e, até o final do mês, serão criadas mais 50 vagas na região da Penha.

*A pedido da entrevistada, seu nome completo não será divulgado

Dinalva Fernandes

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