Em iniciativa inédita no Brasil, pessoas trans lançam Frente Ampla Suprapartidária e Trans de Esquerda

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Foi lançada, nesta terça-feira (30/1), uma Frente Ampla Suprapartidária e Trans de Esquerda. O evento foi realizado na CAARJ e contou com um debate com “Ser trans na política”, parte da programação do Dia da Visibilidade Trans, comemorado em 29 de janeiro.

Participaram as pré-candidatas Professora Jaqueline de Jesus (deputada estadual – PV) e Indianare Siqueira (deputada federal – PSOL). Também estiveram presentes as lideranças políticas Bárbara Aires (PSOL) e Giowana Cambrone (REDE).

Durante o lançamento da Frente, elas assinaram um documento de compromisso de ajuda mútua, solidariedade e sororidade. “Nós entendemos que, para além das diferenças partidárias ou de nuances ideológicas, como pessoas trans, temos o imperativo ético de lutarmos de forma conjunta e associada, dentro de uma disputa acirrada e hegemonizada por machistas, oligarcas e conservadores. Sem esse espírito de unidade, seremos mais uma vez derrotadas pelas forças do retrocesso que se encontram alojadas em diversos partidos políticos”, diz trecho do documento.

Nas eleições de 2016, Indianare Siqueira conquistou a vaga de quarta vereadora suplente do PSOL Carioca com 6.166 votos, uma das poucas pessoas trans do processo eleitoral municipal. Para 2018, a Frente pretende ampliar o número de candidaturas trans.

“Nosso intuito também é combater o esfacelamento da esquerda, mostrando que união ainda é possível. Enquanto transvestigêneros, queremos mostrar que estamos juntes e nós não disputaremos entre nós. Queremos levar o máximo de pessoas trans para as instâncias estadual e federal”, afirmou Indianare, destacando que entre as suas propostas para sua pré-candidatura está o combate às reformas trabalhista e previdenciária.

A professora Jaqueline de Jesus, pré-candidata à deputada estadual (PV-RJ) explicou que a criação dessa Frente é resultado da discussão de mulheres trans e travestis que têm participado ativamente das políticas públicas, sociais e partidárias. “Construímos, desde o ano passado, essa ideia coletivamente, que se consolidou agora nesse lançamento. Que sejamos representadas por nós mesmas, para além da ideia de que pessoas cis podem nos representar apenas. É um movimento de cidadania, demonstrando que podemos ocupar esse espaço, falando sobre nós e sobre o mundo, representando também toda a sociedade e promovendo o direito de todos e todas”, disse Jaqueline que irá disputar pela primeira vez uma cadeira na Alerj.

Dentre os objetivos da Frente estão: a defesa da causa das pessoas trans; o enfrentamento à transfobia e à LGBTfobia em geral; a garantia de a visibilidade de pessoas trans nos debates políticos; a luta por espaços institucionais dentro da atual democracia para que as vozes e demandas de travestis e transexuais sejam ouvidas, respeitadas e efetivadas pela sociedade.

Esta é a primeira vez que uma iniciativa de unidade entre pessoas trans se consolida Brasil. “Para além de partido, as vivências trans são muito parecidas, como a dificuldade de empregabilidade, o não reconhecimento da pessoa humana, vistas como fetiche, objeto. Temos perspectivas de candidatas pelo PSOL, REDE e PV e esta é a primeira vez de um acordo nesse sentido e até o momento não temos conhecimento desse tipo de iniciativa no Brasil”, destacou Bárbara Aires, que é liderança trans e assessora parlamentar com intenções político-eleitorais.

Giowana Cambrone, advogada, professora universitária e primeira mulher transexual a integrar a Executiva Nacional de um partido no país, acredita que a união estabelecida é uma estratégia importante para a participação democrática no processo eleitoral de uma minoria tão estigmatizada e vulnerabilizada. “Trata-se de um momento que, para além das questões trans, pessoas trans se colocam a serviço do coletivo para discutir políticas públicas, processo legislativo de forma universalizante – para todos os cidadãos”, concluiu.

Por Camila Marins, jornalista.

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