Em rotina de assédio e preconceito, candidatas recebem ameaças e nudes

1522
0
Compartilhar:
image_pdfPDF

Mulheres de diferentes siglas, locais e idades relatam tratamento sexista nas redes e nas ruas

Manuela D’Ávila (PC do B-RS), 37, nem se preocupa mais em responder certo tipo de comentário em redes sociais. Como dialogar quando seu interlocutor diz que “o que queria mesmo Manu era foder vc gostoso sua vagabunda comunista [sic]”? Ou “nervosa logo cedo, parece que o marido não tem dado conta”?

(Folha de S.Paulo, 03/09/2018 – acesse no site de origem)

Certamente lhe faltam palavras ao conferir na tela de seu celular o conselho para ir “chupar um canavial de rola”.

Com Carla Zambelli (PSL-SP), 38, é o mesmo, só que com sinais trocados. Ser uma mulher de direita basta para colecionar ameaças de morte. “Depois morre e não sabe porque [sic]”, escreveu um seguidor desgostoso de sua ideologia política. Outro dia mesmo, a candidata à Câmara fazia campanha e, ao passar por uma loja de tatuagem, ouviu um “ei, vem cá, gostosinha”.

Entregou ao galanteador um panfleto com sua foto e a de seu presidenciável. “Quando ele viu o número do Bolsonaro, mandou enfiar o santinho naquele lugar. ‘Sai ou vou dar um tiro em você, sua vagabunda'”, relata o que escutou.

A rotina de assédio contra candidatas não tem filtro ideológico. Atinge mulheres à esquerda e à direita nesta temporada eleitoral, com 8.892 candidaturas femininas (31%) entre as 28,5 mil chapas inscritas para disputar cargos no Legislativo e no Executivo.

Lia Lopes (PSB-SP), 30, vê um triplo desafio à frente: “Ser mulher, jovem e negra”. “Por ser solteira, às vezes precisava ir com aliança [em atos de rua], e mesmo assim os homens são descarados”, conta a aspirante a deputada.

O problema é que dar um passa-fora no engraçadinho –uma liderança que vá apresentá-la em certo distrito eleitoral, por exemplo– pode dar a impressão de “que você está sendo dura, o que faz você perder votos”. E isso nenhuma candidata de primeira viagem, caso dela, deseja.

Contra mãos bobas e abraços que duram mais do que deveriam, ela contratou um guarda-costas. Já as investidas virtuais chegam pelo WhatsApp da campanha, uma linha direta com o eleitor. Por ali, um homem perguntou se era casada. “Vamos manter um diálogo de respeito mútuo, pode ser?”, Lia sugeriu. Ele devolveu com nudes.

Também nas redes sociais de Natalie Unterstell, 34, “é nude o tempo inteiro”. Ela tenta ser deputada pelo Podemos paranaense, a sigla do presidenciável Alvaro Dias. Bolsista do RenovaBR, grupo que financia a formação de quadros inéditos no Congresso, Natalie esbarrou com um problema arcaico na política brasileira.

O que não falta é cacique partidário insinuando que ela deveria abaixar a bola e tentar um cargo menor, diz Natalie, mestre por Harvard. É comum “mulher ser tratada como café com leite”. E piora.

“Acho que tem uma coisa muito mais macro e horrorosa e machista pra caramba”, que é “a história do acesso aos recursos”. A priori, as legendas precisam passar 30% do fundo eleitoral para campanhas femininas. Mas não está claro se essa cota pode irrigar campanhas em que elas sejam vices ou suplentes. E a verba não necessariamente chega a novatas como Natalie.

“Recebi o aviso de que me dariam R$ 2.000. ‘Essa é a média que a gente tá ajudando as candidatas mulheres.’ Hello, né? Imagina, com R$ 2.000 você não faz nada”, afirma.

Quando Carina Vitral (PC do B-SP), 30, postou em sua página no Facebook um texto sobre a disparidade salarial entre homens e mulheres, um seguidor comentou: “Chega desse mimimi! Atriz pornô feminina ganha mais que ator pornô na hora do filme!”. Outro emendou: “Gostosa”.

A sexualização da figura feminina é arma comum para atacar mulheres na política. Quando Carina, que presidiu a União Nacional dos Estudantes de 2015 a 2017, concorreu a prefeita de Santos, seu Facebook virou um arsenal na mão de rivais. “Pegaram uma foto minha de biquíni na cachoeira, ficavam dizendo ‘olha a candidata gostosinha’.”

Aposta do DEM-RJ para a Câmara, Sara Winter, 26, lamenta: “Muitas vezes a gente dá duro e ouve comentários como ‘essa deve ter dado pra alguém'”. Com ela então… “Olham pra mim, toda tatuada, usava tênis, calca rasgada, meio rock’n’roll…” Conta que teve de se adaptar: adotou terninho, coque e salto alto.

Ex-líder do Femen Brasil (grupo que adere ao topless em protestos por causas progressistas), hoje ela se declara “superantifeminista, mas tem que saber que é um pouquinho mais difícil pra gente”. Ela acha que seu passado a condena. “Muitos acham que, por eu ter ficado pelada antes, possa repetir de novo”, diz.

Veteranas também lidam com a malícia de colegas homens. Vice de Ciro Gomes, Kátia Abreu (PDT), 56, diz que “poucos se atreveriam” a se meter a besta com ela. “Tenho fama de brava.” Nada que tenha impedido o senador José Serra de chegar “numa roda em que não tinha sido chamado” e soltar à recém-casada, em 2015: “Dizem por aí que você é muito namoradeira”.

Sua reação: jogar vinho na cara do tucano. Não foi mais uma pílula diária de machismo, mas “um poço” todo, diz.

Comentário na página de Manuela Dávila (PC do B) no Twitter – Reprodução
Comentário na página de Carina Vitral (PC do B) no Facebook – Reprodução

“O que mais me impacta, de uma forma geral, é que os homens têm certa dificuldade em ouvir”, diz a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP), 50, que tenta uma vaga no Senado. “Isso acaba obrigando nós, mulheres, a termos de empostar a voz para sermos ouvidas. Sobretudo em situações de crise. Mas acredito que as mulheres estão transformando os políticos, palavra masculina, a fazer uma nova política, palavra feminina.”

Palavras importam, diz Lúcia França, 56, esposa do governador Márcio França (PSB), candidato à reeleição em São Paulo. “Primeira-dama”, por exemplo, ela rejeita.

“Não me coloco abaixo do Márcio. Inclusive, prefiro mais ser chamada de professora Lúcia do que de dona Lúcia”, conta a diretora de sua própria escola, em Praia Grande (SP).

Daí a implicância com “primeira-dama”, expressão que sugere uma mulher bela, recatada e do lar. “Me incomoda um pouquinho por acharem que sou bibelô. Não tenho esse papel na vida.”

Mesmo quando acha que está sendo cortês, o homem pode tropeçar no machismo nosso de todo dia, diz Manuela D’Ávila, provável vice da chapa presidencial petista.

“Às vezes escuto um elogio que é fundamentado em um conjunto de preconceitos. É comum ouvir: ‘Nossa, você me surpreendeu por saber falar sobre tal assunto’. Sempre respondo: você achava que eu era a parlamentar mais votada do RS há quatro eleições por causa de meus olhos azuis? Eu não tenho os olhos azuis.”

Por Anna Virginia Balloussier

Compartilhar: