Mulheres no poder, por Léo Gerchmann

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(Jornal de Santa Catarina, 22/03/2014) A cena que se deu no última dia 11 não passou despercebida por quem acompanha a história da América Latina. A socialista Michelle Bachelet, uma pediatra, tomou posse na presidência do Chile e recebeu a faixa da senadora Isabel Allende, também socialista e filha do presidente deposto Salvador Allende. Em 11 de setembro de 1973, pouco mais de 40 anos atrás, Allende se matara no Palacio de la Moneda, acuado pelos militares que, liderados por Augusto Pinochet, imporiam ao país uma das mais cruentas ditaduras latino-americanas. Importante que se diga, a própria Bachelet é filha do general Alberto Bachelet, cuja fidelidade a Allende o levou a ser preso na ditadura, sendo torturado e sofrendo um infarto fulminante em 12 de março de 1974, exatamente 40 anos atrás. Disso se depreendem conclusões:

1) Duas mulheres de acurada visão social ocupam os principais cargos num país onde o conservadorismo e a truculência tiveram espaço e ainda hoje contam com defensores.

2) O mundo, aparentemente, tornou-se mais feminino. Bachelet tem como colegas latino-americanas a brasileira Dilma Rousseff, a argentina Cristina Kirchner e a costarriquenha Laura Chinchilla, sem falar nas caribenhas Portia Simpson (Jamaica) e Kamla Persad-Bissessar (Trinidad e Tobago).

– A imagem histórica de duas mulheres ocupando simultaneamente os dois cargos mais importantes do Estado chileno percorrerá o mundo – vangloria-se a filha de Allende, que não é a romancista Isabel Allende, sua prima e autora de A Casa dos Espíritos e Paula.

Exceção

As mulheres observaram a cena e reconheceram o simbolismo nela contido. Mas relativizaram.

– É importante, na história que tanto tolheu as mulheres. Mas devemos trabalhar em colaboração com os homens – diz Analúcia Danilevicz Pereira, professora de Relações Internacionais da ESPM-RS.

Realmente, a amostra da atividade de presidente não representa o todo. De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) das Nações Unidas, as juízas, ministras ou parlamentares ocupam 26% dos cargos na região e 11% dos municípios são administrados por mulheres. Tal é a situação adversa que a secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, incluiu, entre os Objetivos do Milênio, estabelecer “um modelo de desenvolvimento baseado na igualdade entre homens e mulheres e na erradicação de toda forma de discriminação”. Vai além a Cepal. Relata que o desemprego na região é de 7,8% entre as mulheres e de 5,9% entre os homens.

A cientista política Deisy Ventura, da Universidade de São Paulo (USP), pondera:

– Falar de uma visão feminina do exercício do poder implicaria o erro de atribuir automaticamente às mulheres que fazem política as qualidades e os defeitos típicos dos papéis sociais que nos foram destinados ao longo da história – alerta Deisy Ventura. – A suposta sensibilidade é um estereótipo que cai por terra diante de perfis como os de Margaret Thatcher (ex-premiê britânica), Angela Merkel (chanceler alemã) ou Helle Thorning-Schmidt (premier dinamarquesa). Parece um elogio mas, em geral, é um rótulo que funciona contra a mulher, associado à fragilidade. Há outros rótulos ainda mais degradantes, como o pretenso charme ou “jeitinho” de resolver problemas, reforçando a ideia de que a mulher não é capaz, ou a ela não deve ser permitido jogar o mesmo jogo do homem – diz ela. – O que me parece mais importante na ascensão de Dilma, Cristina e Bachelet é a perspectiva de que a carreira política, no mais alto plano, seja incorporada ao horizonte de possibilidades e sonhos das mulheres.

Deisy também critica o “baixíssimo número de mulheres” em postos de liderança no espaço público.

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