29/12/2010 – ‘Teto de vidro’ restringe ascensão de mulheres (Estadão)

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(O Estado de S. Paulo) A presidente eleita Dilma Rousseff, a primeira mulher a governar o Brasil, assumirá o comando de uma máquina administrativa majoritariamente masculina e que impõe um “teto de vidro” para a ascensão profissional das servidoras públicas. Quanto maior o salário e a responsabilidade do cargo, menor é a proporção de ocupantes do sexo feminino.

A metáfora do “teto de vidro” é adotada por especialistas em mercado do trabalho e feministas para descrever a barreira invisível – mais cultural que institucional – que mantém as mulheres em posição de desigualdade tanto no setor público quanto no privado.

Considerando todos os 578 mil cargos do governo federal, as mulheres ocupam 45% dos empregos, apesar de serem 51% da população brasileira. Em toda a Esplanada dos Ministérios, apenas quatro pastas têm mais funcionárias que funcionários.

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O predomínio masculino fica ainda mais evidente quando se observa a distribuição dos 21,6 mil cargos de direção e assessoramento superior, os chamados DAS), em que está a elite do funcionalismo público. As mulheres são 46% dos ocupantes dos cargos DAS-1, com menor remuneração e poder de decisão, mas apenas 23% dos postos DAS-6, no topo da pirâmide salarial.

“No mercado de trabalho, as mulheres vão até um certo patamar, mas acabam relegadas a um segundo plano quando se trata de cargos mais importantes”, analisa Sônia Malheiros Miguel, secretária de Articulação Institucional da Secretaria de Políticas para as Mulheres – órgão vinculado à Presidência da República.

A pesquisadora do Ipea Maria Aparecida Abreu observa que o predomínio masculino é maior ou menor conforme a área do governo. “Há uma série de convenções sobre papéis masculinos e femininos que se reproduzem na estrutura mais alta de cada ministério”, explica a especialista em questões de gênero. Assim, em órgãos da área social, relacionados aos cuidados com os outros, a presença feminina é mais acentuada. “No Ministério do Desenvolvimento Social, por exemplo, as mulheres são maioria nos cargos de chefia”, observa a pesquisadora. “Já no Ministério da Fazenda, de perfil mais técnico, a proporção é muito pequena.”

Para Maria Aparecida, uma das hipóteses para se explicar o predomínio masculino nos postos de chefia é o fator disponibilidade. “Os cargos DAS-5 e DAS-6 demandam dedicação quase exclusiva ao trabalho, com horário e jornada imprevisíveis. Isso faz com que um ministro pense duas vezes antes de nomear uma mulher. Existe a percepção de que ela ainda terá de cuidar da casa e de filhos.”

Sônia Malheiros vê outra razão: “Para as mulheres ocuparem esses espaços de poder e decisão, homens terão de sair. E aí existe uma resistência muito grande”, afirma (leia a seguir trechos de entrevista concedida por Sônia Malheiros).

”Cotas aceleram processos para atingir paridade”

“De onde vêm as resistências?
Para as mulheres ocuparem esses espaços de poder e decisão, homens terão de sair. A resistência para largar lugares de poder é muito evidente. Quem está no poder não quer sair. Em todas as áreas da vida brasileira isso se coloca – no Executivo, no Legislativo, nas empresas. Nas esferas mais baixas de gestão ou direção há mais equilíbrio, e, à medida que vai aumentando o poder, as mulheres vão diminuindo.

Há avanços?
Avançamos muito na questão educacional. As mulheres são maioria nas universidades e são mais instruídas. No mercado de trabalho, estamos par a par com os homens, ainda que tenhamos problemas na questão salarial. A ocupação dos espaços de poder é a grande barreira que tem de ser vencida pelas mulheres no século 21. As mulheres já demonstraram sua capacidade intelectual e de força de trabalho. O que explica a barreira na ocupação dos espaços de poder é a introjeção quase atávica dessa visão conservadora de que o lugar da mulher não é na vida pública.

O estabelecimento de cotas por gênero seria uma solução ou isso problematizaria ainda mais a questão?
O que entendemos como correta é a noção de paridade na ocupação de espaços de poder de decisão. Sou pessoalmente favorável à política de cotas. Ela acelera processos. Mesmo quando há resistências, o clamor e o debate que ela traz para a sociedade é positivo, porque isso coloca em pauta um assunto que normalmente é ignorado. A incorporação das mulheres de uma maneira plena à vida social é irreversível no Brasil. Podemos ver que a sociedade se organiza nesse sentido. Mas essa incorporação pode ser feita de uma maneira mais lenta ou pode ser acelerada com políticas públicas.”

Acesse essas matérias na íntegra:
‘Teto de vidro’ restringe ascensão de mulheres na máquina que Dilma herdará (O Estado de S. Paulo – 29/12/2010)
Estudo aponta alta disparidade de gêneros na política (O Estado de S. Paulo – 29/12/2010)
”Cotas aceleram processos para atingir paridade”, entrevista com Sônia Malheiros (O Estado de S. Paulo – 29/12/2010)

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