Pelo direito de ser Presidenta, por Ana Laura Becker de Aguiar

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(Carta Maior, 22/10/2014) Infelizmente nos últimos dias vimos a presidenta Dilma Rousseff ser repreendida por ser uma mulher no espaço de poder que não atende aos padrões estereotipados e essencializados de mulher. A presidenta foi criticada por não adotar uma postura materna, por ser durona demais, por não ser magra o suficiente, como se espera de qualquer mulher que venha a ocupar um espaço público e de visibilidade. Teve até quem sugerisse que Dilma estava mais para “presidento” que para presidenta.

Leia mais: ‘O Brasil deixou seu compromisso com os direitos das mulheres’, diz Françoise Girard (O Globo, 22/10/2014)

É muito decepcionante que uma parte da sociedade ainda reproduza um discurso essencialista, reforçando preconceitos e ignorâncias. É essencialista considerar determinadas características como “naturais” ou “da essência” do sexo masculino ou feminino, estancando a possibilidade de uma pessoa expressar sua personalidade de forma múltipla, complexa e livre. É reproduzir preconceitos exigir que toda mulher presidenta seja “amável” e “doce”, enquanto todo homem presidente tem que ser “duro” e “firme” para ser competente.

A reivindicação de se incluir uma perspectiva de gênero na política (e nas políticas públicas) é totalmente distinta e até mesmo contrária a de termos ministérios cor-de-rosa e mulheres- mães, dóceis e carinhosas no poder. Queremos sim, mais mulheres nos espaços de poder, mas não necessariamente uma mãe, heterossexual e ultra feminizada, como nas novelas (que geralmente retratam as mulheres como fúteis e desinteressadas em política). Queremos pessoas preocupadas com a diversidade, equidade e interseccionalidades, não importa em qual caixinha queiram colocá-las. Ainda precisamos reforçar a perspectiva de gênero nas políticas e ter mais mulheres nos espaços de poder: mulheres negras, brancas, indígenas, jovens, com deficiência, travestis, lésbicas, entre tantas outras, com mais ou menos testosterona (sim, nós temos testosterona!). Não porque serão mais carinhosas e compreensivas, mas porque representam a diversidade da população brasileira e suas múltiplas experiências.

A maioria das teorias feministas que conheço rejeitam essencialismos, especialmente o mais clássico de todos que é identificar todas as mulheres como carinhosas, empáticas e mães. Sabemos que as identidades são muito mais complexas e mutáveis. Sinceramente, cansamos de ser retratadas como “mães” desde que nascemos e ganhamos uma boneca. Queremos ver reconhecidos os nossos outros papéis, especialmente quando conquistamos um espaço de poder historicamente masculinizado como é a Presidência da República. Eu, particularmente, acho ótimo que Dilma não atenda aos padrões estereotipados de mulher- mãe ou mulher-objeto e lamento quando forçam uma imagem dela na cozinha fritando ovo. Acho isso um retrocesso porque reforça a ideia de que mesmo quando uma mulher ocupa um espaço de poder, seu ambiente natural, adequado e de conforto, continua sendo a cozinha. Cada mulher deve ser livre para escolher se seu lugar é na política, na sala de aula, no laboratório, no cinema, no campo de futebol, ou onde quer que ela escolha, inclusive na cozinha. Cada pessoa deve ter autonomia para expressar sua personalidade livre de preconceitos e discriminações.

Por outro lado, entendo a reivindicação de se evitar posturas combativas ou agressivas e concordo que qualquer pessoa em um espaço de poder, seja ela, pai, mãe ou sem filhos, deve agir com cordialidade e respeito. Inclusive, o movimento feminista historicamente luta contra os assédios e violências cometidos no ambiente de trabalho. Entendemos que o assédio moral, muitas vezes manifestado por meio de piadinhas e comentários que se dizem inofensivos por quem os reproduz, é uma forma “socialmente aceita” de perpetuar exclusões e tratamento discriminatório. Quantas vezes nós mulheres nos indignamos e nos revoltamos com injustiças e fomos rotuladas de histéricas, loucas ou acusadas de estarmos desequilibradas pela tensão pré-menstrual (TPM)? Chamar a Dilma de “presidento” e demandar dela uma postura “materna”, “feminina” ou “amável” é reproduzir mais um dos múltiplos preconceitos enfrentados pelas mulheres nos espaços públicos apenas por serem mulheres.

Governar com amor e cuidado é estabelecer como prioridade de governo a erradicação da extrema pobreza e retirar 22 milhões de pessoas dessa situação (sendo 54% delas, mulheres), é reduzir a desigualdade no país, aumentar o número de mulheres nas chefias do Poder Executivo, é aprovar cotas para negros em concursos públicos, é defender o combate à homofobia na Assembleia Geral das Nações Unidas e trabalhar para a aprovação da resolução contra a violência e discriminação contra a população LGBT no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Acredito que a maioria da população não votou em Dilma Rousseff pelo fato dela ser mulher, mas pelo projeto político que ela representa. Ao ser eleita, Dilma quebrou paradigmas e estereótipos e sendo uma mulher em um espaço historicamente ocupado por homens, continua “surpreendendo” muitos e muitas.

Em 2011, quando foi a primeira mulher a abrir uma sessão da Assembleia Geral da ONU,
Dilma falou em nome de mais da metade dos seres humanos do Planeta. Falou em nome das mulheres anônimas, que passam fome, e terminou o seu discurso com as seguintes frases: “Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje. Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade”. Isso é ser Presidenta!

Ana Laura Becker de Aguiar: Mestre em gênero pela London School of Economics and Political Science (LSE) e mestre em Direito Internacional e Direitos Humanos pela Universidade das Nações Unidas para a Paz (UPeace).

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