Vem aí o candidato a prefeito genérico: ele é branco, homem, tem nível universitário e será empresário, advogado, comerciante ou agricultor

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Se na sua cidade houver um ou mais candidatos a prefeito com os atributos descritos no título deste post, não será surpresa.

(Yahoo, 24/08/2016 – acesse no site de origem)

Dos 16.300 candidatos a prefeito Brasil afora nada menos do que 88% são homens, 65% são brancos, 50% tem o ensino superior completo e três em cada dez são empresários, comerciantes, advogados ou agricultores, segundo dados disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O perfil dos candidatos ao cargo principal em disputa em 2016 destoa bastante do perfil do eleitorado médio. Este, por contraste, é formado majoritariamente por mulheres (52%), por negros (56%, a soma de pretos e pardos segundo definição do censo) e com relativa baixa instrução (apenas 6,6% tem nível universitário). O que sairá desta pororoca tão brasileira?

Parece, até, que nossos candidatos a prefeito vieram de um canto do planeta e os eleitores, de outro. Deste encontro ao longo das próximas semanas de campanha eleitoral sairá o mapa político do Brasil que navega século XXI adentro. Dará liga?

A distância que marca o perfil do candidato médio a prefeito do seu eleitorado não é certamente uma questão nova, e para tanto basta ver o perfil elitizado do nosso Congresso Nacional. Trata-se, antes, de um grau a mais de separação entre representantes e representados em um país que, ao menos desde as manifestações de junho de 2013, colocou esta fratura como um incômodo. Será que as eleições de 2016 contribuirão para estreitar o fosso?

Acredito que as eleições municipais este ano serão importantes para redefinir politicamente o país e não apenas como medição de forças para 2018. Serão eleições municipais que encontrarão um eleitorado com raiva e cético em relação à política. Um eleitorado que associa política quase que exclusivamente à corrupção. Que deixou de acreditar no sistema político tal e qual este é assentado, percebido pela população como um sistema que funciona apenas em benefício próprio. A campanha de 2016 servirá como termômetro de longo prazo para se adivinhar a longevidade e as potencialidades de um sistema que se esgotou. Quem sabe não surjam das urnas as respostas para os nossos intrincados impasses nacionais? Afinal, não existe sociedade sem política, sendo esta apenas uma fantasia de quem aposta na ignorância alheia.

É cedo para afirmar qualquer coisa sobre eleições que mal começaram. Que mal atraíram, ainda, e como sempre acontece neste estágio anterior à propaganda do horário eleitoral, a atenção do eleitor. Que aos poucos começa a ver nos noticiários da TV as caras e rostos daqueles que irão lhe pedir em breve seu tempo, sua confiança, sua esperança e tudo o mais que compõe o jogo das campanhas no Brasil. Este é o momento em que, aos olhos da população, os políticos descem de suas naves e se aproximam – “depois desaparecem” como se costuma dizer.

A despeito das disparidades e contradições, esta é a política que temos. Caberá ao eleitor redefini-la em benefício próprio. Quem sabe no futuro não teremos  representantes que se pareçam mais com seus representados?

Rogério Jordão

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