Vitória eleitoral feminina não significa dignidade no tratamento

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(Brasil de Fato, 03/10/2014) As mulheres que conseguem furar o bloqueio imposto pelos patrocinadores de campanha, enfrentam o desafio de ocupar um espaço que tem privilegiado a presença de homens, geralmente brancos e com maior poder aquisitivo. O relato é feito pela deputada federal Janete Pietá (PT) que vive situações de discriminação por ser mulher e assumir a sua negritude.

“Eu no próprio Congresso já sofri muita discriminação por ser negra. Logo no primeiro ano, em janeiro de 2007, uma ascensorista falou: ‘Não, a senhora não pode entrar nesse elevador porque aqui é só deputados’. Ela nem perguntou se eu era. A discriminação é grande, e também por eu usar essas trancinhas as pessoas me perguntam: ‘você é deputada?’” .

Nestas eleições, segundo relatório do Inesc, a proporção de mulheres brancas e negras que se candidatam é semelhante: 16,5% e 14,2%, respectivamente.

No entanto, o documento afirma que “ao que tudo indica, na hora do voto a dupla discriminação opera – a de gênero e raça/cor – uma vez que contam-se nos dedos as parlamentares mulheres negras presentes hoje no Parlamento.”

A publicação ainda enfatiza que no caso das mulheres indígenas, a situação é mais grave, pois o Congresso Nacional não conta com nenhuma representante desse grupo da população.

A deputada Janete considera que enquanto não houver pluralidade de representação, a democracia será incompleta. Para mudar essa realidade, ela também defende a reforma do sistema político e a mudança da concepção machista que ainda persiste na sociedade.

“Nós precisamos mudar a mentalidade de que mulher não pensa, de que mulher é incapaz, de que mulher é um ser de segunda categoria porque isso também influencia. Então, mudar essa concepção machista. Lugar de mulher é na política e não na cozinha.”

Três mulheres no páreo

A presença de representantes dos grupos mais oprimidos no Congresso Nacional não significa necessariamente a garantia de avanços. Se as pautas específicas das mulheres estão ausentes nas campanhas eleitorais, certamente não estarão presentes nas ações governamentais. No entanto, a assessora política do Inesc Carmela Zigoni salienta a importância de ocupar esses espaços.

“É obvio que a gente sabe que não necessariamente essas pessoas vão entrar lá com essas agendas específicas, mas se ver no espaço de poder é importante.”

Beatriz Lourenço, integrante do Levante Popular da Juventude, acredita que as candidaturas fiéis às necessidades do povo e às demandas dos movimentos sociais ainda são possíveis.

“O candidato não é aquela figura que tem que estar distante da gente, que a gente tem que cultuar. O nosso candidato é o nosso camarada, o nosso companheiro.”

Neste ano, a disputa das eleições para a Presidência da República conta com três candidatas mulheres. Se as projeções se confirmarem, no segundo turno teremos um embate entre a atual presidenta Dilma Rousseff (PT) e a candidata Marina Silva (PSB). Luciana Genro (Psol) tem 1% das intenções de votos, embora tenha um programa que reúne as principais bandeiras da esquerda brasileira.

Apesar de ser recente a participação feminina na política – pois somente em 1946 o voto foi ampliado a todas as mulheres e se tornou obrigatório – algumas delas tem quebrado paradigmas.

Entre elas está Benedita da Silva que em 1982 tornou-se a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores da cidade do Rio de Janeiro e, mais tarde, do Senado Federal. Como vice-governadora do estado carioca, assumiu em 2002 a chefia do Executivo, com a renúncia do então governador.

No ano de 1988, Luiza Erundina foi eleita prefeita da maior cidade da América Latina, São Paulo, sendo a primeira mulher a assumir o cargo na capital paulista. No comando do país, Dilma Rousseff se tornou a primeira mulher eleita presidenta em 121 anos de República. Em ambos os casos as candidatas foram lançadas pelo PT.

Daniele Silveira.

Acesse no site de origem: Vitória eleitoral feminina não significa dignidade no tratamento (Brasil de Fato, 03/10/2014)

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