Mulheres CEOs são fascinantes, que o diga Marissa Mayer, por Lucy Kellaway

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(Valor Econômico, 08/08/2016) Em 1985, ano em que me formei jornalista, fui convidada a entrar para um grupo de colegas do sexo feminino que se reunia regularmente para discutir como era ruim ser mulher no mercado de trabalho. Fui uma vez e nunca mais voltei. Fiquei irritada com as reclamações e não pude deixar de perceber que as pessoas que estavam tirando mais daquilo eram as que eram menos boas em seus trabalhos. Se você não é excelente naquilo que faz, pensei, não deveria colocar a culpa em seu sexo.

Em 30 anos, progredi um pouco em meus pontos de vista. Quer as pessoas sejam boas em suas ocupações, quer sofram com os preconceitos machistas, são questões diferentes. Onde há machismo, é importante fazer barulho ­ embora isso seja chato para a pessoa que reclama e para a pessoa que está ouvido. Se nada for dito, nada muda.

Ao que parece, os leitores do “Financial Times” não progrediram muito. Na semana passada, Marissa Mayer queixou­se ao “FT” que a imprensa pega no seu pé pelo fato de ela ser mulher ­ e os leitores do “FT” responderam como fiz aqueles anos todos atrás. Um deles escreveu: “Você é incompetente ­ é simples assim, Mayer. Pare de tentar se esconder atrás dessa coisa sem sentido que é a vitimização pelo ‘gênero’ sexual”.

Duas centenas de outros leitores fizeram comentários parecidos. Ela fez um trabalho ruim como CEO do Yahoo, o machismo não teve nada a ver com aquilo.

A veemência dos leitores me fez suspeitar de algo. Marissa Mayer pode ter feito um trabalho fraco. Mas eles estão mesmo certos de que não houve machismo na denúncia? E como alguém mede isso?

Marissa Mayer reclamou da maneira como a imprensa é obcecada com as roupas das mulheres, citando Hillary Clinton e seus terninhos. Isso é verdade, mas as diferenças de gênero em relação ao vestuário estão diminuindo ­ recentemente, o “FT” publicou um artigo inteiro sobre a mochila de Boris Johnson. De qualquer forma, não sei se isso é grande coisa. Estou interessada no que as mulheres (e homens) vestem. Contanto que os terninhos não sejam uma alternativa às políticas, não vejo mal nenhum neles.

Em todo caso, Marissa Mayer não tem o direito de protestar contra a intromissão da imprensa em seu guarda­roupa, uma vez que teve uma foto sua publicada pela revista “Vogue” há dois anos, deitada de cabeça para baixo em um móvel de jardim pouco confortável, com uma roupa azul agarrada à pele e sandália “gladiador”, segurando um iPad que refletia uma imagem dela mesma.

Se eu fosse uma CEO, não teria tirado uma foto como aquela nem em um milhão de anos, principalmente porque, de cabeça para baixo e vestida daquele jeito, a imagem não seria muito boa. Por outro lado, Marissa Mayer ficou muito bem e fez um favor ao mundo ao provar que você pode ser bonita, loira, adorar roupas e comandar uma grande companhia no mundo da tecnologia da informação, dominado pelos homens.

Do mesmo modo, as pessoas vêm alardeando machismo em incontáveis artigos sobre ela enquanto mãe. Desde a época em que ela foi nomeada esperando bebê, e nós a vimos grávida duas vezes, a criticamos por ter tirado uma licença maternidade muito curta, nos maravilhamos com a enfermaria que ela montou em casa, com suas babás e a vimos olhar com ternura, no escritório, para fotografias das lindas bebês.

Por outro lado, ninguém escreve sobre os filhos de David Filo e Jerry Yang, os fundadores do Yahoo ­ suas páginas na Wikipedia nem mesmo revelam que eles os têm. Isso parece um preconceito machista, mas mais uma vez é compreensível. Não temos muitas mulheres ocupando o cargo de CEO e ainda por cima com filhos. Assim, fico grata por Marissa Mayer ter me mostrado como ela faz.

As únicas coisas ruins são as opiniões sobre se ela é uma boa mãe ou não. Tal julgamento não se aplica mais apenas às mulheres. Mark Zuckerberg postou quase o mesmo número de fotografias de seu filho na internet quanto Marissa Mayer ­ só que ele é considerado um pai maravilhoso por ter sido visto levando os filhos para tomar vacina, enquanto ela é tida como uma mãe ruim porque trabalha demais.

E há um viés tendencioso ainda maior ­ o grande volume de artigos. No ano passado, 4.200 artigos foram publicanos em inglês sobre ela, mais de quatro vezes o número de artigos sobre seu colega da AOL, Tim Armstrong (A AOL também foi comprada pela Verizon no ano passado.) Isso é especialmente admirável porque ele tentou com muito afinco ser digno de notícia via uma série de gafes.

Nós simplesmente estamos mais interessados em mulheres CEOs e continuaremos assim enquanto não houver um número maior delas. Isso não é uma vantagem ­ a pressão é grande o suficiente mesmo sem alguém publicando cada passo que você dá. Isso seria suficiente para se tornar uma Marissa Mayer: gastar US$ 500.000 em dinheiro da companhia com seguranças particulares ­ e gerar mais um artigo desfavorável.

Lucy Kellaway é colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreiras 

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