A floresta queima, as mulheres queimam: ecocídio e feminicídio possuem a mesma natureza, por Rita de Cássia Fraga Machado

16 de setembro, 2019

Há mais de dois anos uma professora, na cidade de Tefé, no Amazonas, foi queimada viva. Não se surpreendam, o feminicídio foi cometido pelo seu ex-marido que até hoje não foi condenado. Deste então, observo como esses crimes de colocar fogo em mulheres virou corriqueiro em casos de violência contra mulheres. Aqui não vou me deter a listar esses crimes, minha intenção é refletir como que parece normal ver a floresta queimar sem qualquer incomodação profunda.

(Amazonia Real, 16/09/2019 – acesse no site de origem)

A professora, assim como a floresta, os rios, os lagos e o ar sofrem genocídios e parece não acontecer nada. Aliás, acontece, a flexibilização nas leis que deveriam proteger esses desastres, por que sim, são desastres, são genocídios. Essa foi a definição da procuradora da República Thais Santi em relação aos crimes de Altamira, no Pará.

A floresta queima, as mulheres queimam perifericamente. Os criminosos que colocam fogo somem diante das tragédias que provocam, afinal quem se interessa por esses territórios: mulheres, índios, povos tradicionais. Sim, são esses que se interessam em manter a vida, a vida humana, e esses povos, incluindo as mulheres, estão nas periferias das grandes cidades.

Nossos corpos são tratados como periferia e, portanto, violentados, maltratados e hostilizados como a periferia, pois se imagina que tudo de ruim existe por lá. Imaginação estúpida e ignóbil.  Em recente artigo Eliane Brum chamou a atenção para isso, para o periférico dos territórios devastados. “Essa é a angústia de quem luta pelo meio ambiente nesse centro do mundo que é tratado como periferia” e depois a jornalista completa “E, em seguida, esquecida”. Lígia, Mariana, Brumadinho, Altamira, toda periferia, todos explorados e massificados até a morte.

A permanência do patriarcado como estruturante das relações sociais de gênero permite que o corpo das mulheres, historicamente, pertença aos homens e ao Estado. Em sociedades patriarcais como a nossa, a autonomia sobre nossos corpos ainda é uma luta central dos movimentos feministas. Aqui se agrega a luta ecológica, lutar pelas liberdades dos nossos corpos está condicionado, nas mulheres da floresta, à luta pela liberdade da natureza. Não me entendam mal, pois o que estou propondo como reflexão não é nenhuma ideia essencialista entre mulher e natureza, não é. A proposição é para que possamos pensar como enfrentar questões como essas e que estão atuais e emergentes ao pensamento-ético brasileiro.

A antropóloga Rita Segato*, ao questionar o que é o corpo da mulher, se pergunta: “Quem o declara nesse lugar? Quem assim o titula? São seus pares, os outros homens que o intitulam no “clube”. Eles possuem uma estrutura de clube, de confraria, de irmandade, de máfia. Enfim, essa é a estrutura da masculidade, e segue […] é sobre o corpo feminino que ele vai mostrar, exibir que é portador de potência. Há uma afinidade direta do corpo feminino com a visão que temos de território” (Segato, 2010, p. 52). Há uma relação direta entre o corpo da mulher, a natureza e o patriarcado e é por intermédio da exploração e do uso da força cruel que ele, o homem, mostra a sua conquista. Nesse sentido explorar, valores de uma sociedade capitalista e patriarcal, é a condição naturalizante dessa relação.

Segato assim como outras teóricas nos ajudam a pensar (questionar) e o agir no presente. Afinal, o que está acontecendo com a vida, com a nossa vida, a vida das mulheres? Precisamos mesmo comer tanto agrotóxico, matar um rio inteiro e toda a biodiversidade que existe na floresta, é preciso queimar a floresta? Qual a necessidade humana de queimar mulheres? São tempos de “paz”? Digam-me, há necessidade de tanta crueldade e terror?

…às mulheres, aos rios, ao ar, a nossa casa comum.

 

Por Rita de Cássia Fraga Machado, professora de Filosofia na Universidade do Estado do Amazonas no Campus Tefé (CEST/UEA). É autora e organizadora de livros como Trabalho e Educação: para ir além (2015) pela editora da UEA; organiza e escreve na a coletânea Estudos Feministas: Mulheres e Educação (2016; 2019) pela editora Liberts; e seu ultimo livro é o resultado da sua pesquisa de pós-doutorado intitulado Participação: interfases do Sul e do Norte (2019). E-mail: [email protected].

 

*SEGATO, Rita Laura. Crimes de gênero em tempos de “paz” e de guerra. In: Tânia Mara Campos de Almeida. et. al (Org.). Gênero e Feminismos: convergências interdisciplinares. Brasília-DF: Ex. Libris, 2010. p. 50-62.

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