29 de agosto, Dia da Visibilidade Lésbica, por Carla Gisele Batista

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À lembrança de Lurdinha Rodrigues

(Folha-PE, 29/08/2019 – acesse no site de origem)

Ontem, 28 de agosto, Ana Carla da Silva Lemos, trouxe a público o seu estudo “Movimentos de Lésbicas de Pernambuco: uma etnografia feminista a partir do ativismo lésbico”. Aprovado pela banca de mestrado, no Programa de Pós Graduação em Antropologia da UFPE, o trabalho é uma importante e original contribuição para resgatar a organização do movimento lésbico em Pernambuco, no Brasil, na América Latina. Inspirada pelo que considero uma conquista a ser comemorada por todos os movimentos sociais, e remetendo à minha formação em História, pensei na coluna desta semana.

Em 2011 fiz uma longa entrevista** com Maria de Lourdes Alves Rodrigues. Mais conhecida como Lurdinha Rodrigues, ela foi uma queridíssima e valiosa companheira de militância que nos deixou precocemente em 2015, quando atuava como Coordenadora Geral de Diversidade da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. MULHERES EM MOVIMENTO neste 29 de agosto, data referencia do mês dedicado à visibilidade lésbica, quer homenagear e resgatar, a partir de Lurdinha – que fez e transformou a História – lembranças recentes da trajetória do movimento de lésbicas, acreditando que a leitura do passado pode sempre nos fortalecer, se olharmos pra ele de forma atenta e generosa.

Com a palavra, Lurdinha Rodrigues. Presente!

“(…) tenho 51 anos… trabalho atualmente (2011) no Instituto Patrícia Galvão e a minha militância política tem se dado na Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) e espaços

diversos da política, mas sempre representando a LBL, como, por exemplo, no Conselho Nacional de Saúde, na Frente Paulista pelo Direito à Comunicação e por Liberdade de Expressão. Já atuei nas Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro representando a LBL… também participei da construção da Frente contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, representando a LBL, enfim… “.

“(…) eu comecei na atividade política no Movimento secundarista, em plena ditadura militar… Eu entrei em contato com a política por intermédio de pessoas que tinham a militância no movimento secundarista, isso em Jundiaí. Quando eu fui para São Paulo, voltei para São Paulo, eu entrei em um partido político, tinha 17 anos e conheci algumas companheiras feministas como a Amelinha Teles que fazia matérias para o Jornal Brasil Mulher e me entrevistou na época, porque quando eu voltei para São Paulo eu mudei totalmente a minha vida. Estava me preparando para prestar vestibular, eu queria fazer psicologia e eu abandonei tudo isso quando me pediram para ir para o Movimento Operário. Eu fui para uma fábrica têxtil, eu peguei sinusite, fui para o sindicato (risos) dos têxteis e desse lugar de operária eu construí a minha militância muito próxima do movimento feminista porque o feminismo estava se reorganizando”.

“Teve o ano internacional da mulher em 1975 e em 1978 teve o Congresso da Mulher Paulista que eu participei representando o sindicato dos têxteis e tive contato com muitas feministas. Mas a que teve uma importância na minha formação foi a Amelinha Teles. E a gente começou a discutir a criação de uma entidade de mulheres mais emancipacionista, porque na época nós éramos ligadas ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Eu fui expulsa em 1987 do PCdoB exatamente pela questão da ética, dos ideais feministas, enfim… que tiveram muitos enfrentamentos. Fomos expulsas juntas aliás, eu a Amelinha e a Terezinha, as três “inhas” (risos)”.

“Então em 1981 nós fundamos a União de Mulheres de São Paulo e eu fui me aproximando cada vez mais da discussão das mulheres. Eu ainda não tinha me descoberto lésbica, apesar de… enfim, de perceber algumas diferenças, mas em 1980, na década de 1980 a questão da sexualidade não era tão visível, tão discutida como hoje. Eu acho que o movimento feminista teve um papel muito importante no debate público sobre a questão da sexualidade, sobre a questão da orientação sexual, na construção de muitos agrupamentos de lésbicas”.

“(…) A criação da Liga Brasileira de Lésbicas se deu em 2003. A Liga foi fundada em janeiro de 2003 no Fórum Social Mundial, mas a estruturação, a organização da LBL aconteceu mesmo em junho de 2003 durante o 5º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE) que aconteceu em São Paulo. Eu estava na organização e acabei me aproximando dessa discussão e estou nela até hoje. Então, a partir de 2003 as lésbicas tiveram um espaço nacional de articulação com uma diretriz feminista diferente de boa parte dos espaços anteriores. Acho que vale um parêntesis: as lésbicas em sua maioria sempre estiveram organizadas mais no âmbito do Movimento LGBT e era já antiga essa reivindicação, essa pauta de construção de uma articulação nacional das lésbicas. Então a Liga vem para suprir esse desejo, essa necessidade das lésbicas terem uma articulação nacional”.

“E em 2004 nós tivemos o Primeiro Encontro Nacional da LBL que definiu princípios e bandeiras. (…) A Liga, desde a sua criação tem uma identidade que vem se consolidando cada vez mais que é: participa da Liga quem de fato está a fim de mudar o mundo não só para conquistar a livre orientação sexual, mas um mundo sem machismo, sem racismo, sem exploração do capital, enfim… então esses são alguns dos princípios que foram deliberados do Primeiro Encontro Nacional da Liga Brasileira de Lésbicas que aconteceu em novembro de 2004 em São Paulo, um ano e pouquinho depois da criação da LBL. E essa carta de princípios que foi deliberada no Primeiro Encontro da LBL, ela é a condição para fazer parte da Liga, então a gente tem também um processo de formação permanente, né… formação política, formação feminista

para que as companheiras que participam ou que queiram participar venham também nessa perspectiva de mudança da sociedade para uma sociedade onde as mulheres heterossexuais, homossexuais, bissexuais sejam tratadas com igualdade de direitos, na lei e na prática”.

“(Nesse encontro) nós decidimos participar das Conferências de políticas para as mulheres desde as conferências municipais, as Conferências estaduais e fomos numa delegação nacional da LBL para a Primeira Conferência Nacional de Política para as Mulheres (2004). O que aconteceu é que lá nós fizemos várias reuniões das lésbicas para discutir nossa pauta específica para a Conferência e atuamos junto com as feministas, com as delegadas feministas, na defesa de várias propostas”.

“A atuação das lésbicas na Iª Conferência já foi uma atuação bastante significativa, saindo nos Anais da Conferência, com fotos, a gente fazendo reunião, enfim… foi muito, muito significativa a nossa presença lá. (…) Nós tivemos em 2006 uma conquista importante que foi a inclusão da cadeira para o segmento de lésbicas dentro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), que apesar de ter sido criado em 1985, as lésbicas nunca tinham tido um assento enquanto lésbicas no CNDM. Nós tivemos, aliás, duas conquistas em 2006: o assento no CNDM e o assento no Conselho Nacional de Saúde para o segmento LGBT, que foi ocupado por uma lésbica da LBL”.

“Então nós chegamos na Conferência em 2007 (2ª CNPM) muito mais organizadas, muito mais visíveis (…) a gente conquistou a inclusão de um eixo no IIº Plano Nacional de Políticas para as Mulheres que é o eixo 9, que é o combate ao racismo, à lesbofobia e ao machismo.

(Em 2011) Então assim, tem que avaliar por um lado há um avanço do fundamentalismo e uma onda de intolerância que não é no Brasil, é no planeta. Haja

visto as últimas notícias em vários países,… asiáticos, enfim… Uma onda de fundamentalismo muito forte! As primeiras prejudicadas com isso são as mulheres, né!?! “.

Para finalizar, ofereço a você a música Vambora, com a Adriana Calcanhoto: 

** Editada, sem retirar declarações dos contextos. A entrevista era muito mais larga e tratava de outros temas.

Por Carla Gisele Batista

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