Pessoas trans contestam designação social de gênero cada vez mais cedo

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(Público, 22/02/2016) Há precisamente dez anos, o corpo de Gisberta foi encontrado no fundo de um fosso, num prédio inacabado do Porto. Desde então, mudou o movimento LGBT, a cobertura nos media e, por arrasto, os políticos e as políticas. Gisberta tornou-se um símbolo.

O nevoeiro mental dissipou-se ao ver um transexual num reality­ show da TVI. “O que ele disse fez sentido na minha cabeça. Procurei o contacto na Internet. Escrevi-­lhe. Contei-­lhe a minha história. Disse-­lhe que me sinto um homem num corpo de uma mulher. Não consigo andar na rua sem casacos a tapar o peito. O peito é o mais complicado. Nota-­se, não é? Tinha de usar ligaduras para o comprimir. ”

Leia mais: A brasileira que virou símbolo LGBT e cujo assassinato levou a novas leis em Portugal (BBC Brasil, 23/02/2016)

Tinha 18 anos. Conversaram no Facebook, no Skype, na pastelaria favorita de Afonso Dinis Esteves, no centro de Barcelos. Lourenço Ódin Cunha, o ex­-concorrente da “Casa dos Segredos”, é dali perto, de Famalicão. Ajudou-o a perceber-se. E a ser percebido pela mãe. “Os pais é sempre aquela confusão. O quê? Porquê? O Lourenço falou com ela.”

Falara primeiro com uma amiga mais velha. “Ela recomendou-me que desse tempo ao tempo e que falasse com os meus pais quando estivesse preparado. Deixei passar um ano e tal. É aquele medo, não é? Quando a pessoa diz: olha, sou.” Vasculhara a Internet em busca de exemplos e deparara-­se com relatos de rejeição. “Os pais expulsavam de casa. Há muita gente assim.” Quando falou com a mãe, “ela não sabia muito bem o que era isto”, “pensava que era uma fase”.  Ainda acontece chamar-lhe pelo nome de rapariga, mas esforça-se por compreendê-lo e até foi com ele à primeira consulta de sexologia clínica no Hospital Magalhães Lemos, no Porto.

São cada vez mais jovens as pessoas que aparecem na consulta de sexologia clínica, assegura a psiquiatra Zélia Figueiredo. “Antes tinham 20 e tal, 30, 40 anos. Agora, perto de 20, 20, 20 e pouco.”  Alguns vêm com a mãe e/ou o pai, ainda atordoados com a ideia de terem um filho ou uma filha com disforia de gênero. É um sinal de que a sociedade mudou desde que, há dez anos, o corpo de Gisberta foi encontrado no fosso de um prédio inacabado, no Campo 24 de Agosto.

Há um antes e um depois de se saber que Gisberta foi agredida vários dias com palavras, pés, paus e pedras por pelo menos 14 rapazes e que três deles acabaram por a atirar para aquela espécie de cratera com águas paradas. Para lá do choque, 22 de Fevereiro de 2006 pôs a nu o preconceito e a ignorância do país em matéria de identidade de gênero, analisa o ativista Sérgio Vitorino, das Panteras Rosa. Orientação sexual e identidade de gênero confundiam-se quase sempre. Poucos pareciam distinguir transformistas, travestis e transexuais. As pessoas transgênero ficavam à parte mesmo no ativismo LGBT (Lésbico, Bissexual, Gay, Transgênero).

O ponto de viragem

Esvaíra-se o brilho da transexual de traços delicados e cabelos volumosos que saíra do Brasil, andara por França e se instalara no Porto, onde vendera sexo, servira à mesa e fizera shows transformada em Marilyn Monroe e outras divas. Acumulava formas de exclusão. Imigrante em situação irregular, trabalhadora do sexo, toxicodependente e sem-­abrigo, tinha sida, tuberculose, pneumonia, anorexia. Estivera internada no Hospital Joaquim Urbano, no Porto. Fora enviada para a comunidade terapêutica Lugar da Manhã, em Setúbal. Fugira. Nenhuma amiga lhe dera guarida. Por altura do Natal, montara uma tenda naquele prédio. Viu-a entrar um rapaz que a conhecera ainda pequeno, quando a mãe fazia limpezas numa pensão de “sobe-­e­-desce” e Gisberta se prostituía na Rua Gonçalo Cristóvão. Estava esquelética, maltrapilha, cabelo curto. O miúdo passou a visitá-­la à hora do almoço com os dois colegas mais próximos. Conversavam. Davam-lhe restos de cigarros. Levavam-lhe comida. Chegaram a cozinhar para ela. Na escola, gabaram-­se de conhecer “um travesti”, que fizera “operações à cara” e “até tinha mamas”. Vieram outros rapazes, muitos internados nas Oficinas de São José. Começaram a gozá-la. A 15 de Fevereiro, lembraram-­se de lhe bater.

Primeiro, os media noticiaram a morte de um sem-abrigo. Depois, começaram a usar a palavra “travesti”, expressão da polícia e de amigas dela que se prostituíam na cidade. Por fim, transexual ou transgênero. Pouco a pouco, diversos jornais deixaram de lhe chamar Gisberto, em linha com o seu nome no registo, que continuava a ser Gisberto Salce Júnior, e começam a chamar-­lhe Gis ou Gisberta.

Era um caso extremo. A discriminação era comum mas nunca se soubera de nada assim. O que se via em Portugal até então “era a ausência total de noção e de questionamento sobre identidade de gênero”, diz Jó Bernardo, que presidia à AT ­- Associação para o Estudo e Defesa do Direito à Identidade de Gênero. “Era uma questão a que [a sociedade] era completamente alheia e para a qual não tinha qualquer sensibilidade. Isto é como as casas assaltadas. Depois de arrombada, trancas à porta.”

A AT era a primeira associação trans. Antes, existia apenas um grupo dentro da Ilga­-Portugal. “Havia pouquíssimo ativismo trans”, recorda Sérgio Vitorino. Quando se põe a pensar nas pessoas, sobram-­lhe dedos nas mãos para conta-­las e não encontra vivalma “abaixo dos 40 anos”. Acha que a morte de Gisberta “mudou tudo”: o movimento LGBT, a cobertura nos media e, por arrasto, os políticos e as políticas.

Fazendo um balanço, Nuno Pinto, investigador do ISCTE­-Instituto Universitário de Lisboa e dirigente da Ilga-­Portugal, realça a lei aprovada em 2011. A mudança de nome e gênero nos documentos ainda exige diagnóstico médico, mas dispensa a esterilização e qualquer tratamento hormonal ou cirurgia.“As pessoas estavam mais excluídas de diferentes áreas da vida. Precisamos de ter um nome condizente com a identidade para arrendar uma casa, abrir uma conta num banco, arranjar um emprego.”

“Antes, muitas pessoas viviam escondidas numa pele que não era a sua, por vezes sem perceber que eram transexuais, a pensar que eram homossexuais. As pessoas fugiam de casa. Muitas prostituíam-se para sobreviver”, Lara Andrade (Foto: Marco Duarte)

Outros passos foram dados para integrar a população transgênero. Em 2012 o Código Penal passou a prever um agravamento e em 2015 o Código do Trabalho proibiu a discriminação em função da identidade de gênero. Agora, o Bloco de Esquerda vai propor uma revisão da lei da identidade de gênero que retire a necessidade de diagnóstico médico, até porque a disforia de gênero saiu da lista internacional de doenças mentais em 2012, adianta o deputado José Soeiro.

Nem só as leis mudaram. O assunto teve mais espaço de reportagem e documentário e entrou no mundo dos talk shows e reality­ shows. “Há mais visibilidade, uma linguagem que permite dar nome à experiência, modelos positivos”, aponta Nuno Pinto, afiançado serem cada vez mais jovens as pessoas que pedem ajuda na Ilga-Portugal. Nos modelos positivos inclui ativistas, mas também “celebridades”. “É importante que haja alguém a dar a cara”, torna Zélia Figueiredo. “O Lourenço esteve pouco tempo na Casa dos Segredos, mas foi a esses programas da tarde e levou os pais dele. Tive logo meia dúzia a dizer que vieram [à consulta] por causa dele e que só tiveram coragem para falar com os pais depois de o terem ouvido.”

“Antes, muitas pessoas viviam escondidas numa pele que não era a sua, sem dizer, por vezes sem perceber que eram transexuais, a pensar que eram homossexuais. As pessoas [antes de assumir um gênero distinto] fugiam de casa”, diz a mesma especialista, presidente da Jano – Associação de Apoio a Pessoas com Disforia de Gênero. “Muitas [mulheres transgênero] prostituíam-­se para sobreviver. Conheço uma novita que ainda fez isso. Aos 18 anos, fugiu. A madrasta fez de conta que não percebeu. O pai também fez de conta. Ele ainda está em negação. Diz que tem um filho psicopata que decidiu chatear-­lhe a cabeça.” Mas isso já é menos comum. “Há cada vez mais famílias que funcionam como fonte de suporte, embora ainda haja muitos casos de violência, de agressão – na família, na escola, no trabalho, no espaço público”, corrobora  Nuno Pinto. Que o diga Alice Cunha, do Lóbula – colectivo de intervenção cultural e política de linha trans*, queer & feminista: “É menos frequente haver expulsão, o que não quer dizer que não há pressão, dor. Muitos pais não compreendem o que o filho está a passar, dizem que é uma fase.” E “é dramático ter a identidade questionada por toda a gente a toda a hora – em casa, no café, na escola ou no trabalho”.

Mais rapazes do que raparigas

São mais os rapazes do que as raparigas a dar o passo, uma originalidade portuguesa no contexto europeu. No ano passado, das 70 pessoas que mudaram de gênero no registo civil 42 eram rapazes. “No ano em que mudou a lei, isso inverteu-­se”, conta a médica. Há psiquiatras que acham que já quase ninguém sente necessidade de se esconder, mas Zélia Figueiredo pensa que não. “Algumas transexuais, que viveram sempre como homens, têm vergonha. É muito difícil assumir a condição e fazer a transição, sobretudo de homem para mulher”, prossegue.

Lara Andrade sofreu bullying a partir do 5º ano. “Já havia alunos muito mais velhos do que eu. Já sabiam ofender. Chamavam-­me bicha, gay, paneleiro, mariquinhas. Nunca fui de enfrentar a situação. Se calhar, por isso pegavam comigo cada vez mais. Passavam-­me à frente na cantina, empurravam-me, fechavam-­me a porta na cara.”

“É preciso muita coragem”, comenta Zélia Figueiredo. “Muitos ficam fóbicos. Fecham­-se. Conheço um rapaz que teve uma fobia tão grande que não saia de casa, não estudava, nem trabalhava. Foi tratar a fobia e conseguiu dizer que é transexual. Muitas vezes somos a primeira pessoa a ouvir a história. Aqui podem falar a verdade.”

Lara percebeu-se no mundo da noite, como aconteceu a muitas outras mulheres transgênero. Experimentou fazer um show no Pride Bar, no Porto. “Os meus amigos acabavam o show, iam ao camarim, desmaquilhavam-se, mudavam de roupa, iam embora. Eu, não. Só quando ia dormir despia a personagem. Passava a semana toda ansiosa para chegar àquele dia.” A mãe estranhava, mas pensava que aquilo era um comportamento típico na população  gay. Quando Lara lhe disse que queria mudar de sexo, ficou aturdida, mas aceitou.

Começou a transição aos 19 anos. “Estava no secundário. Para alguns professores era complicado tratarem-me por Lara. Para as professoras não. Elas faziam um esforço. Se chamavam pelo nome antigo retificavam logo.” Só mudou o nome e o gênero nos documentos em Outubro de 2015. Em Abril deste ano começa o tratamento hormonal.

“Nem todas as pessoas transgênero são transexuais”, que anseiam por tratamento hormonal e cirurgias, enfatiza Alice Cunha. O gênero é fluído, mostram pessoas como ela, que mistura características tidas como femininas com características tidas como masculinas. O conceito é que não é, provam-lhe quase todos os dias os olhares de gozo e as bocas maldosas que alguns lhe dirigem. “Eu não ataco, mas as pessoas defendem-se, porque se sentem atacadas por alguém que lhes mostra que o mundo não é como elas pensam.” Parece­-lhe fundamental lutar pela autodeterminação das pessoas trans, pelo fim da patologização, mas também pela mudança de mentalidade – “com informação, com sensibilização”.

Sérgio Vitorino aplaude jovens como Alice Cunha, que também faz parte das Panteras Rosa, ou Júlia Pereira, da API- Ação para a Identidade de Gênero, uma nova organização que declarou 2016 o ano Gisberta e lançou uma campanha com diversas iniciativas, incluindo debates, cartazes, e uma exposição no Maus Hábitos, no Porto. “Há muita malta trans ainda muito nova, mas já consciente das suas questões, que quer falar por si própria”, diz. “Nada pode substituir o que estão a fazer, que é criarem os seus grupos. Têm feito um trabalho excelente, inclusive de mudança de mentalidade de pessoas trans. Hoje em dia, com a Internet, isto alterou­-se tudo. Eles e elas conseguem contactar-­se mesmo que vivam numa aldeia do interior.” É menos provável que alguém fique isolado a pensar que é a única pessoa a sentir que nasceu com um corpo errado. Ainda há pouco, num evento trans, ficou maravilhado ao ver uma pessoa de 16 anos.

“Vão aparecer cada vez mais cedo”, acredita Zélia Figueiredo, pensando nos caminhos que a Internet abre, mas também na televisão por cabo, que traz programas com miúdos trans já a viver no seu gênero. Ocorre-lhe um rapaz, agora com 16 anos, que tentou morrer. “Consegui que lhe fizessem uma mastectomia e lhe dessem uma pílula para suprimir o período. Tudo alivia.” O sofrimento pode ser excessivo. E por isso, em seu entender, é importante fazer um trabalho de informação/sensibilização, desde logo no sistema nacional de saúde e no sistema educativo. Esteve na escola de Afonso Dinis a explicar o que é disforia de gênero e qual a melhor forma de ajudar quem a tem. Admirou-se por só ver na sessão a diretora de turma e os professores daquele aluno. “As pessoas não sabem bem o que é, não conhecem, não lhes interessa.”

Ana Cristina Pereira

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