Nem confusa, nem promíscua: por que a bissexualidade ainda é apagada?

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Dia da Visibilidade Bissexual acende o alerta para a falta de inclusão e estereótipos dentro e fora do movimento LGBTI+

(CartaCapital, 23/09/2019 – acesse no site de origem)

Não é “às vezes hétero, às vezes homossexual”. A letra ‘B’ na sigla do movimento LGBTI+ sempre esteve ali, mas, ao falar de inclusão, os relatos dão conta de um apagamento preocupante. Se a bissexualidade consiste em atração por homens e mulheres (cis ou transsexuais), ainda há quem diga que quem se identifica com a letra são, na verdade, pessoas ‘confusas’. Nesta segunda-feira 23, com a comemoração do Dia Visibilidade Bissexual, a ideia é quebrar justamente este estereótipo: os bissexuais não estão em cima do muro.

É o que defende Ericah Azeviche, assessora parlamentar e militante, ao relembrar que percebeu-se bissexual ao longo do desenvolvimento de sua sexualidade ainda enquanto jovem, mas com pretensões sociais específicas em cima de seus relacionamentos e de seus afetos.

“Por muito tempo, as experiências sociais me fizeram temer quem eu era, principalmente na adolescência. Ser livre era um transtorno por causa de abusos de outras pessoas que me tratavam como indecisa, fria e promíscua”, relata.

Crescendo em uma cidade pequena do interior de São Paulo, Ericah diz que conseguiu encontrar acolhimento em grupos de jovens LGBT+, mas que “sátiras, piadas e comentários” a empurravam para as bordas fora e dentro do próprio movimento. “Era cheio de estigmas, como se não soubéssemos amar, ou que temos um afeto confuso e dissimulado”.

Para Ricardo Sales, pesquisador da área de gênero e inclusão pela Universidade de São Paulo (USP), o estigma da ‘confusão’ vem junto à ideia de que a bissexualidade é uma passagem para que a pessoa perceba-se homossexual. “Esse preconceito leva as pessoas a terem uma dificuldade muito grande de se assumir”, comenta Sales.

Os relatos da trajetória de Ericah encontram eco em alguns estudos sobre a invisibilidade bissexual. Ainda são poucos se comparados aos relatórios sobre homofobia.

De acordo com levantamento de 2012 realizado por estudiosos britânicos acerca da bissexualidade, pessoas bissexuais são estigmatizadas por esteriótipos negativos que, na maioria das vezes, tocam em relação ao caráter pessoal.

“Promíscuos, espalhadores de doenças, incapazes de serem monogâmicos ou ameaças aos relacionamentos e às famílias” foram alguns dos xingamentos apontados pelos pesquisadores, e que acontecem tanto dentro como fora do movimento LGBTI+. O estudo também analisou que, de todos os grupos, as pessoas bissexuais possuíam as maiores taxas de problemas mentais, incluindo índices de depressão e ansiedade.

Nos Estados Unidos, a Pesquisa Nacional da Violência Sexual e dos Parceiros Íntimos, realizada em 2010, apontou que metade das mulheres bissexuais entrevistadas já tinham passado por estupros ao menos uma vez na vida – cerca de 1,5 milhão, de acordo com os dados da época. Para mulheres lésbicas, a taxa é de 1 a cada 8, e, para heterossexuais, 1 a cada 6. Em relação aos homens bissexuais, os abusos prevalentes estavam relacionados à coerção de algum ato sexual indesejado.

Além disso, tanto para homens e mulheres bissexuais, a taxa de ‘stalking’ – ou seja, uma investigação invasiva da vida de um terceiro, geralmente pressupondo um envolvimento amoroso – era maior do que nos outros grupos. Os estigmas de ‘alguém não confiável’ se reafirmam.

Ricardo Sales vê que ainda há uma ausência de narrativas em relação a pessoas bissexuais: a falta de exemplos de personagens e histórias na mídia é um sinal de que é necessário falar sobre o tema. “Ainda não teve nenhum momento para pautar esse assunto de forma natural”, analisa o pesquisador.

Para todo esse cenário, Ericah não vê um apenas apagamento, mas um “atropelamento” da bissexualidade como possibilidade de amor. “Ao estar com homens, havia o abraço da sociedade. Ao estar com mulheres havia um mistério, um esconderijo.”, conta. Para ela, o respeito deve ser imperativo não apenas para relacionamentos com pessoas bissexuais, mas como uma pressuposição de liberdade dos corpos – pauta unitária para o movimento LGBTI+.

“É importante visibilizar a existência da liberdade dos corpos. O amor não deve ser mensurado, balizado ou validado por outra pessoa ou grupos. Amar é liberdade, uma liberdade que atravessa o respeito”, analisa.

Por Giovanna Galvani

 

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