22/11/2013 – Violência sexual contra domésticas é folclore no Brasil, afirma pesquisadora

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(Blog Território de Maíra / Carta Capital) “Fazer amor de madrugada / Em cima da cama, embaixo da escada / Amor com jeito de virada / Primeiro a patroa, depois a empregada”.

Quem foi adolescente no Brasil nos anos 1980 e 1990 dificilmente escapou de ouvir essa singela adaptação da música “Pintura Íntima”, do Kid Abelha. Há uns 15 anos, eu me lembro de uma verdadeira multidão cantando empolgadamente esses versinhos na pista de atletismo do Ibirapuera, em um dos shows da banda.

A letra me veio à cabeça ao ouvir, nessa semana, uma palestra da antropóloga ítalo-brasileira Valeria Ribeiro Corrossacz. Ela falava, na Universidade Paris 7, sobre as relações entre homens brancos e empregadas domésticas e o quanto a violência sexual nessas situações é absolutamente naturalizada, banalizada na nossa sociedade.
Eu não consegui mais parar de me questionar porque e como tantas pessoas se sentiam à vontade para entoar essas frases, ainda mais pulando felizes.

“Todo mundo sabe que existe, todo mundo ouviu pelo menos uma vez uma história”, afirmou Corrossacz. “Ter a iniciação sexual com a empregada é reconhecido como um hábito no Brasil. Há até uma expressão, TED – Terror das Empregadas Domésticas”. Autora do livro O corpo da nação (Ed. da UFRJ, 2009), ela leciona na Università di Modena e realizou uma pesquisa sobre o tema com homens brancos, de 43 a 61 anos, moradores do Rio de Janeiro.

Segundo Corrossacz, todos falaram sobre a questão sem nenhum problema. “Isso já é um dado sobre o qual refletir, o fato de que isso é uma coisa que pode ser conversada. Eu acho que isso é específico da situação das empregadas domésticas porque esses homens não chegariam para mim, contando dessa forma que eles abusaram de uma menina. Não é algo que você converse tão facilmente com uma mulher que você não conhece. Isso para mim demonstra que esse tipo de abuso é considerado normal”, resume.

E questiona: “Como vamos estudar isso? Isso faz parte do folclore. Eu lembro que, quando ouvia essas histórias, elas eram contadas como um folclore, não como uma violência”.

Entrevistada pelo blog, a pesquisadora comenta os relatos de abuso que encontrou, assim como a divisão do trabalho doméstico e o lugar de privilégio ocupado pelos homens.

CartaCapital: A sua pesquisa é bastante inovadora. Há outros estudos no Brasil?
Corrossacz: Têm pesquisas no Brasil sobre masculinidade, mas elas se interessam mais’por situações chamadas de “marginais”: homens de classes populares, experiência de homossexualidade etc. Sobre isso tem uma literatura de alto nível. Mas sobre os homens que incorporam a condição mais de “normalidade”, de poder, de hegemonia, não há muita coisa. E é difícil reconstruir a situação da violência contra as empregadas domésticas porque é muito comum e muito naturalizada. Todo mundo sabe que existe, todo mundo ouviu pelo menos uma vez uma história, mas é um objeto difícil de captar.

CartaCapital: Como você tomou conhecimento desse assunto?
Corrossacz: Era uma coisa que eu já sabia enquanto mulher, branca, de classe média brasileira. Na minha família eu ouvi várias vezes comentários sobre esse tipo de abuso, de moléstia. Era uma coisa que eu tinha na minha cabeça. Os primeiros entrevistados começaram a falar sobre o tema e eu vi que era uma coisa sobre a qual é possível conversar. Eles conversavam muito citando o [Gilberto] Freyre, Casa-Grande & Senzala, e isso me impressionava. Eu própria comecei a citar algumas palavras, ideias do Freyre. Cada vez que encontrava outro homem, perguntava sobre a empregada doméstica. Todos falavam sem nenhum problema comigo. Isso já é um dado sobre o qual refletir, o fato de que isso é uma coisa que pode ser conversada. Eu acho que isso é específico da situação das empregadas domésticas porque esses homens não chegariam para mim, contando dessa forma que eles abusaram de uma menina. Não é algo que você converse tão facilmente com uma mulher que você não conhece. Isso para mim demonstra que esse tipo de abuso é considerado normal.

CartaCapital: Qual era a postura deles ao falar disso? Havia algum tipo de constrangimento?
Corrossacz: A postura deles era “eu sei hoje que é uma coisa horrível, critico isso, acho que meus filhos não estão fazendo”. Mas a gente nunca sabe porque tem um nível da comunicação que é a brincadeira. A brincadeira é muito potente, nela você reproduz todas as formas de dominação.

CartaCapital: Como foi ouvir tudo isso?
Corrosacz: Foi terrível. De um lado, eu queria que eles falassem. De outro, eu queria reagir, com o meu ponto de vista, como mulher, feminista. Eu tentei um equilíbrio. Eu fazia muitas perguntas: como elas reagiam, o que eles achavam que elas pensavam. Eu não deixei de me posicionar, mas sempre de uma maneira a deixar à vontade a pessoa que estava falando.

CartaCapital: A referência deles ao Freyre nos remete à escravidão.
Corrossacz: As empregadoras e as empregadas usam essa moldura que ainda serve para dar um sentido à essa questão. Provavelmente tem ali uma continuidade. Agora precisamos ver que sentido tem em falar em uma forma de escravidão. Ali há uma resistência às mudanças. Evocar um passado que acabou significa também não querer ver que as pessoas estão mudando, que as mulheres negras ou de classe popular que fazem esse trabalho tem uma postura diferente, que lutam. É uma maneira de dizer que está tudo parado. Pelo menos eu acho que isso é a posição desses homens. É dizer “eu estou nesse lugar, esse lugar foi construído assim”. Como se eles não tivessem nenhuma responsabilidade. É uma maneira de se desculpar e não ver que você está reproduzindo uma relação de dominação hoje, onde a sociedade brasileira não tem mais escravidão e há muita mudança, é uma sociedade muito elástica.

Do ponto de vista dos homens, a lógica é que não há uma preocupação com o trabalho doméstico. É isso que eu questiono. É verdade que tem uma relação que tem que ser analisada e entendida que é o que é a mulher de classe popular está fazendo dentro de uma casa em que uma mulher de classe média está trabalhando fora. Há realmente uma relação de dependência: aquela pessoa é parte de sua família, mas é inferior. Ela não vai tomar banho no mesmo chuveiro, não vai usar a mesma privada. Mas não podemos esquecer de perguntar porque todo esse trabalho está sendo feito. Quem vai usar tudo isso? O homem, que volta para casa e tem comida, a cama está feita, a roupa lavada, passada, o filho foi e voltou da escola. Você não vai reproduzir sua capacidade de trabalhar no escritório, enquanto homem, se você não tem tudo isso. É para quem todo esse trabalho? É para o homem, que, geralmente, não o faz e nem se preocupa. Pesquisas demonstram que no Brasil, como em muitos outros países do mundo, a quantidade de tempo que a mulher passa pensando, organizando a vida doméstica é três, quatro ou até cinco vezes maior que os maridos.

CartaCapital: A saída para essa situação seria a ressignificação do trabalho doméstico?
Corrossacz: Eu acho que sim. Primeiro, tem uma ressignificação que é valorizar mais. O salário tem que ser bom. Aquela empregada doméstica está fazendo um trabalho que é muito importante ali dentro. Em segundo lugar, eu acho a organização do trabalho tem que ser repensada. Nós hoje, sobretudo nos países aqui da Europa, sabemos que a gente tem possibilidade de viver muito tempo. A qualidade da vida melhorou, mas ficando mais velhos temos mais problemas de saúde. Então esse trabalho doméstico, de cuidado, tem que ser repensado como algo que o Estado tem que exercer, se responsabilizar, como por exemplo com creches, colégios etc. E temos que trabalhar menos para cuidar mais dessa outra esfera, que é na qual a gente reproduz o trabalho fora de casa. O ser humano, para reproduzir o seu próprio trabalho, que seja numa usina, numa loja, num escritório, seja dando aula, precisa de uma série de cuidados. Isso é uma coisa que tem que ser considerada. E isso não é um trabalho específico das mulheres. As mulheres não têm, por natureza, uma capacidade, uma dádiva, que só elas podem fazer esse trabalho. Isso tem que ser repensado. É uma mudança muito grande, precisa de muito tempo, muito trabalho, muita conversa.

CartaCapital: Isso passa por uma regularização do trabalho em geral, não? Por exemplo, que seja amplamente aceito as pessoas saírem do trabalho para buscar as crianças na escola.
Corrossacz: É impossível, para o homem, imaginar que ele vai sair antes do trabalho para fazer comprar ou preparar o jantar para o filho porque essas tarefas são as mais chatas. O pai pode querer ficar com o filho, mas para brincar. Os estudos dizem que mesmo quando há um compartilhamento das tarefas domésticas, as mulheres continuam fazendo as mais repetitivas, cansativas e menos interessantes. É uma mudança que obviamente não pode ser pensada apenas dentro da família. O espaço doméstico não é privado. Ali dentro são reproduzidas relações de gênero, que são relações de poder. Um filho é para toda a sociedade, não é só meu e seu.

CartaCapital: Essa situação é uma relação de “continuum”, como teoriza Paola Tabet?
Corrossacz: Exatamente. Paola Tabet é uma antropóloga italiana que viveu na França e seu trabalho faz parte do feminismo materialista francês. A reflexão dela é que não há uma divisão de categorias de mulheres, mas sim uma experiência que é um continuum. E o trabalho doméstico, assim como tudo que tem a ver com a reprodução da vida humana, é um trabalho que as mulheres fazem, mesmo com diferenciação de classe, de origem social, de idade. É uma responsabilidade só das mulheres.
E dentro do casamento, o trabalho doméstico é associado também ao serviço sexual. O casamento é um lugar onde a sexualidade é um direito. É muito difícil provar uma violência dentro do casamento porque ideia, ainda hoje muito forte, é de que ali há um consenso, por escrito, sobre o acesso à sexualidade da mulher. Assim, o fato de você fazer um trabalho doméstico significaria que você também está disponível sexualmente. Isso é naturalizado na figura da mulher, é como se as duas coisas fossem relacionadas.

O que sabemos, por meio de várias pesquisas, é que a sexualidade da mulher foi construída sempre numa linha de troca. Não é uma sexualidade construída de uma forma livre. A primeira forma de troca era exatamente o casamento.

Hoje há estudos sobre como isso acontece entre os jovens, como é você convidar para um almoço, um jantar, os significados de um presente. Há uma ideia que, ainda hoje, a sexualidade da mulher pode ser trocada por status ou dinheiro. Isso é um aspecto que tem que ser considerado quando pensamos no trabalho doméstico. Por isso não podemos pegar só a trabalhadora doméstica. Temos que ver como aquele pedaço encaixa na vida de um casal heterossexual onde há uma outra mulher.

A reflexão de toda uma parte do feminismo é essa: na construção da mulher há uma naturalidade no trabalho reprodutivo, quer dizer, fazer filho, cuidar de filho, no trabalho doméstico, na sexualidade. Está tudo interligado.

CartaCapital: Você define as mulheres como classe no seu trabalho?
Corrossacz: Sim, eu defino as mulheres como classe. Eu acho que podemos justamente falar de classe porque os homens como um todo estão se apropriando do trabalho das mulheres, do corpo das mulheres. E as mulheres fazem um trabalho que não é reconhecido como tal, é encaixado na naturalidade. Eu fico grávida, tenho filho, e isso é maravilhoso, eu sei cuidar dele quando ele chora como se tudo isso fosse genético. Não, elas aprenderam isso. Meu interesse em pesquisar os homens é entender qual o posicionamento deles no sexismo, o posicionamento deles dentro do racismo. A gente não pode continuar lutando contra o racismo sem deixar de falar dos privilégios. E isso foi a grande vantagem do debate sobre as cotas. Alguém dizendo “e eu, que não posso estudar numa universidade melhor, o que eu faço?”. Eu acho que foi importante não só os estudantes terem entrado via cotas, mas terem começado um debate sobre os privilégios dos brancos.

Esse debate sobre interseccionalidade esquece um pouco esse aspecto. Eu, que sou mulher de classe média branca que tenho uma mulher dentro de casa fazendo um trabalho doméstico, eu não posso esquecer que eu e ela somos mulheres só porque existe uma relação com homens. Senão, a categoria mulher não teria nenhum significado.

CartaCapital: Quantos homens você entrevistou?
Corrossacz: Eu entrevistei 21 homens, de 43 a 61 anos, de classe média alta, no Rio de Janeiro. Mas, na verdade, minha pesquisa não era sobre esse assunto. Eu comecei a trabalhar sobre a experiência de branquitude entre homens de classe média e classe média alta. Obviamente uma das dimensões da experiência de branquitude é a questão do gênero, o fato de ser um homem branco. Eu queria pesquisar qual era a experiência desses homens com o racismo. Essa foi a primeira dificuldade que eu encontrei porque os homens não falam sobre isso.

CartaCapital: Eles não refletem sobre isso?
Corrossacz: A única coisa que eles conseguem dizer é que eles têm um privilégio do ponto de vista de classe. Mas essa classe nunca é problematizada do ponto de vista da cor. Parece que eles têm um privilégio que é associado só ao fato de pertencerem a uma classe alta. Só que há um aspecto que não pode ser desconsiderado que é, além de ser classe média, eles são brancos. E, no Brasil, dizer “classe média” é fazer uma associação mental com branco. Há estudos sobre a discriminação sofrida por negros de classe média. Mesmo tendo um certo nível e um status, eles continuam vivendo a discriminação. E daí eu percebi, no começo, que algum deles falam sobre a experiência com as empregadas domésticas.

CartaCapital: Os homens que você entrevistou mencionavam a cor das empregadas?
Corrossacz: Não, às vezes eles nem lembravam da cor. Eles concordavam que empregadas domésticas eram majoritariamente negras ou morenas, mulatas, nordestina. Enfim, a percepção da cor não é considerada um elemento importante. Eu acho que essa pouca atenção à cor naquela relação implica uma não consideração da própria cor do homem. Esse homem não está acostumado a ver que ele tem um privilégio porque ele é branco. Ele acha isso normal. Os homens que eu entrevistei não conseguiam me explicar o que é ser considerado branco no Brasil. Enquanto que se você conversar com um negro no Brasil, ele sabe muito bem, ele vai dizer.

Uma coisa que era muito comum que meus entrevistados me contavam era que a mãe escolhia empregadas que ela considerava feia exatamente para evitar o risco do filho pegar a empregada. Ou o marido. Mas em todos os depoimentos, o fato de ela ser feia era totalmente irrelevante. Não é importante. Ali é a mulher como objeto sexual inferior. Dois 21 entrevistados, 8 tiveram esse tipo de experiência. Todos durante a adolescência e agora dizem não fazer mais. Como vamos estudar isso? Isso faz parte do folclore. Eu lembro que, quando ouvia essas histórias, elas eram contadas como um folclore, não como uma violência.

CartaCapital: A sexualidade dos jovens está mudando. Hoje podemos supor que a primeira relação é com a namorada adolescente?
Corrossacz: Essa é a explicação que os entrevistados me deram, mas eu acho que ela é não satisfatória. O que eles dizem é que, na época em que eram adolescentes, as meninas da idade deles e do mesmo grupo social tinham uma certa resistência a ter relação sexual porque isso não era admitido. É verdade, isso mudou com a assim chamada revolução sexual. Mas eu acho que naquela experiência com a empregada não havia só o fato de ter que “desabafar” um desejo sexual que não dava para segurar. Eu acho que ali era uma relação de dominação. Isso acabou? Não. É menos comum entre adolescentes porque a sociedade brasileira mudou. Não só porque as meninas de classe média estão tendo relacionamento sexual cedo. Aliás, a gente deveria pesquisar em que contexto elas estão tendo esses relacionamentos sexuais. Como essa sexualidade está sendo vivida? Elas estão respondendo sempre a uma necessidade, um desejo que é masculino? Ou naquela sexualidade há uma reciprocidade onde cada um está colocando seus próprios desejos? Eu não sei. Para mim, o fato de uma menina de classe média de 15 anos transar não significa que ela está liberada. Eu acho que hoje isso está acontecendo entre adolescentes porque a sociedade brasileira mudou, há um processo de transformação. Há uma ideia de que existe racismo, classismo. Isso acontecia ainda na ditadura. É uma mudança muito grande que o Brasil passou.

Muitos também tiveram relacionamentos na adolescência com prostitutas. Se incluirmos isso na conta, são 16 dos 21 entrevistados. O pai levava, o tio, pagavam, os primos iam junto. Mas transar com prostituta já é associado a outro imaginário sexual.

CartaCapital: Há um fortalecimento da organização das empregadas?
Corrossacz: Sim, o sindicato das empregadas também está muito forte.

CartaCapital: Podemos dizer que a realidade das empregadas domésticas mudou? A maioria não dorme mais no serviço, não é?
Corrossacz: Com a última PEC no Brasil eu acho que finalmente as trabalhadoras domésticas têm a mesma dignidade que todos os outros trabalhadores. A gente tem que pensar que quem vai ganhar com isso não vai ser hoje, nem daqui um ano. Vai ser daqui a muito tempo. No Rio de Janeiro é muito difícil encontrar uma trabalhadora doméstica nova que queira dormir na casa da pessoa. O que acontece é que geralmente são mulheres que têm uma certa idade, que tem mais de 40 anos, e já tiveram essa experiência. As mais novas, pelo que eu pude perceber conversando com as sindicalistas, pensam que vão fazer isso durante uma época da vida enquanto estão correndo atrás de cursinho, de serem auxiliar de enfermagem, de trabalhar em loja, enfim, estão construindo o futuro. Todas as pesquisas sobre trabalhadoras domésticas dizem a mesma coisa: é um trabalho que as mulheres não querem fazer. As mulheres não valorizam esse trabalho, elas sabem muito bem quais são os custos dele. Não querem que as suas filhas sejam domésticas. No passado, havia muito essa correlação avó-mãe-filha porque era a percepção de que era a única possibilidade que a mulher de classe popular tinha. E essa mulher – vale lembrar – faz duas vezes o mesmo trabalho: na casa dela e fora de casa. Mas isso está mudando.

Acesse o PDF: Violência sexual contra domésticas é folclore no Brasil, afirma pesquisadora (Blog Território de Maíra / Carta Capital)

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