O Brasil, 5º lugar em matança, é muito hostil com as mulheres, por Patrícia Zaidan

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(M de Mulher, 10/11/2015) A carnificina de negras é pior, cresceu 54%. Os homens exterminam suas companheiras pelos velhos motivos. As medidas adotadas no país ainda não conseguiram conter a truculência. É o que vemos no Mapa da Violência contra a Mulher-2015

Todo novembro, a tristeza e a indignação me invadem. Começa o período do ano – que termina dia 10 de dezembro – em que pipocam estudos, estatísticas e análises sobre o extermínio de mulheres. São divulgadas notícias de castigos extremos que os homens ainda impõem, decepando as orelhas das parceiras, os dedos, queimando corpos, furando olhos… Como no Brasil-colônia. E fala-se mais de feminicídio. Praticado por um sujeito convicto de ser o proprietário da máquina de fazer pão e filhos ou pelo ciumento que não admite a decisão da mulher de trocá-lo. O macho brasileiro mata 48 vezes mais que o do Reino Unido. Ocupamos o quinto lugar em assassinatos bárbaros, perdendo só para a Rússia, Guatemala, Colômbia e El Salvador, o campeão. Eu me lembro de ter noticiado, em CLAUDIA, o sétimo lugar no ranking macabro, e não faz muito tempo. Pioramos? O que aconteceu? À primeira olhada regredimos no enfrentamento do problema. Saiu nesta segunda (9/11) o Mapa da Violência Contra a Mulher, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, que revela a comparação do Brasil com 83 países e traz muitos dados que permitem enxergar a vida real para além dos números.

FORÇA BRUTA – Aqui são 13 mortas por dia. É no universo doméstico que ocorrem 55,3% dos assassinatos, 50,3% cometidos por familiares, 33,2% dos algozes são o marido, namorado ou ex. Na mira principal, as mulheres entre 18 e 30 anos. Os homens liquidam usando a força física (estrangulando, socando, chutando), com facas, facões e objetos perfurantes. Usam pouco as armas de fogo, já que o acesso a elas é mais raro. Essa descoberta deveria obrigar os deputados e senadores a refletirem sobre a flexibilização do Estatuto do Desarmamento que tramita no Congresso. Se eles derem ao cidadão o direito de comprar revólveres e portar armas de fogo, a carnificina se elevará bem mais.

CADÁVERES – No Mapa do professor Jacobo, as capitais Vitória, Maceió e Fortaleza contam 10 cadáveres a cada 100 mil mulheres. Alexânia, em Goiás, registra o dobro: 20 corpos em 100 mil. Outras, tão pequenas como ela, têm índices bem menores. Minha conclusão aqui: não há lógica, a matança se repete nas cidades grandes, regiões rurais ou municípios menores. Tanto faz. Só em 2013 foram 4.762 mortas. É como se tivessem sido exterminadas todas as meninas e adultas de 12 cidades brasileiras, como Borás (SP) e Serra da Saudade (MG) com população feminina em torno de 5 mil.

NEGRAS – A situação se agrava na casa das negras do paísinteiro. Por não termos sido capazes de conter o ódio contra elas e pela deplorável política de segurança pública que joga contra o cidadão da periferia, as pretas e pardas confiam pouco no Estado. Não contam com a delegacia, não são bem atendidas no IML, onde fazem o exame de corpo de delito, não encontram o juiz para obter as medidas protetivas que afastariam os agressores de casa. Por tudo isso, o assassinato de negras subiu 54% entre 2003 e 2013. O Mapa demonstra que no Amapá, na Paraíba, em Pernambuco e no Distrito Federal os índices passam de 300%. Já a mortandade de brancas diminuiu em quase 10%. O Brasil é racista ou não? A resposta permite notar que, como branca, não tenho nada a comemorar.

IMPUNIDADE – No outro lado, os criminosos: eles se folgam numa espécie de remanso. Aqui, a elucidação de todos os tipos de crime, segundo a Associação Brasileira de Criminalística, varia entre 5% e 8%. Nos Estados Unidos a solução dos casos é de 65% e no Reino Unido 90%. O Ministério da Justiça ainda não tem o número de condenados nessa modalidade vil, o crime de gênero ou feminicídio, que passou a ser tratado como hediondo, com penas mais severas em março deste ano. “Cada país tem o número de feminicídios que decide politicamente ter, assim como o número de condenações por essa agressão”, diz o Mapa de Jacobo.  A baixa eficiência na produção de justiça no país é a responsável por um mundo de inquéritos abertos e não finalizados desde a o início da Lei Maria da Penha, em setembro 2006. De uma população prisional que era de 607.731 pessoas, em 2013, estima-se que 7.912 estejam privadas de liberdade por violência doméstica. Parece pouco, não?

AS MÃES TAMBÉM SURRAM – Um dado me chamou a atenção: dos agressores de crianças, 42,2% são as mães. Meninos e meninas apanham em casa, pra valer. Os dados foram colhidos no Ministério da Saúde e se referem a crianças de 1 a 11 anos que chegam machucadas aos hospitais. Ora, a gênese da violência passa por aí também: a mulher começa a moldar uma relação de truculência. Daí para frente, centenas de exemplos do homem dominador, explorador e violador se encarregam de completar o caráter do macho.  Para as meninas, fica a ideia da submissão como forma de devotar amor ao homem. E se ele bate é porque gosta e cuida. Precisamos, urgentemente, rever o nosso papel de educadora.

AUTORIZAÇÃO PARA MATAR – A esfarrapada desculpa que se ouve da construção civil às universidades de elite está considerada no Mapa da Violência, que dá a ela o novo nome de “lógica justificadora”. O homem estupra, esfola e chacina porque tem certeza de que sua mulher é transgressora no papel doméstico, não faz o que a cultura espera dela. Leia-se: não estava em casa esperando por ele, deixou a louça suja, saiu com amigas, trabalha até tarde, ganha salário maior que o do marido. Logo, ele está autorizado a bater para corrigir. Também no estudo, a observação sobre a culpa. Os machos brasileiros dizem que é a mulher quem provoca a agressão. Ela o tira do sério, se veste como puta, revida, trai etc.

Nestes dias, a melhor análise que vi sobre o velho problema da violência foi feita por Marisa Sanematsu, uma das coordenadoras do Instituto Patrícia Galvão. Ela comentava um estudo sobre castigo medieval, modalidade em voga no Brasil-2015, em que o homem arranca pedaços. “Não é um castigo específico ao que ela fez, mas ao que não fez. Não se submeteu, não obedeceu”, declarou Marisa. “O homem que domina não suporta ser contrariado”.  A explicação dessa mulher lúcida traduz muito bem o que o Mapa da Violência descobriu.

Patrícia Zaidan

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