O papel da mídia na superação da cultura de violência contra as mulheres

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(Luciana Araújo/Agência Patrícia Galvão, 22/05/2015) O terceiro painel do Seminário Internacional Cultura da Violência contra as Mulheres trouxe ao debate o impacto dos meios de comunicação na cultura da violência sexista. “Os veículos tentam sempre nos representar de forma diminuída. E, de outro lado, diretores de propaganda, publicitários e anunciantes têm uma postura dogmática, como muitos religiosos”, afirmou Jacira Melo. A diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão e moderadora do debate se referia à reação dos meios de comunicação tradicional e do mercado publicitário às críticas de desrespeito aos direitos humanos e das mulheres, apontadas sempre como falta de senso de humor, de entendimento de que se trata de uma brincadeira’, ou então como ‘censura’.

Guilherme Canela, assessor de comunicação e informação para o Mercosul e Chile da Unesco, deixou como principais mensagens que a democracia só avança com dissensos, que é preciso mais liberdade de expressão e não menos, e que não é função do jornalismo fazer ativismo, mas garantir voz a todos os atores enfocados na notícia.

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Antes do início do painel, Roz Hardie, diretora executiva da ONG Object, que atua no Reino Unido realizando campanhas contra o sexismo na mídia, apresentou em sua palestra exemplos – desde a década de 1970 até a semana passada – na publicidade e em publicações pornográficas, que reiteram a objetificação e a permissividade de violações a mulheres.

“A liberdade de expressão é um direito dos seres humanos, mas temos que falar que há coisas que ultrapassam limites e trazem reflexos da escravidão, da colonização. Isso faz mal a todos nós”, disse Roz.

Apesar do cenário mostrado por Hardie ser desanimador, ela fez questão de reiterar que “o poder popular funciona e é importante não desanimar”. E para sustentar esta afirmação também apresentou exemplos de ações do movimento feminista naquele país que forçaram a retirada do ar, em horas, de campanhas que geraram indignação. Como um anúncio publicado em diversos veículos durante o julgamento do ex-atleta paralímpico sul-africano Oscar Pistorius, condenado pelo assassinato da namorada, a modelo Reeva Steenkamp, em 2013. A campanha aludia ao prêmio cinematográfico numa paródia ao nome do atleta e chamava os habitantes do país a apostar no resultado do julgamento.

Enfrentar o machismo na web exige punição e mudanças educacionais

A internet traz muitas possibilidades, mas também muitos desafios no que diz respeito aos direitos humanos, especialmente para mulheres, negros e outros segmentos socialmente oprimidos por sua condição enquanto grupo populacional. Para debater essas questões, a antropóloga e pesquisadora de marcadores sociais da diferença na Universidade de São Paulo Beatriz Accioly falou sobre cyberbullying e pornografia de vingança.

A divulgação de imagens e vídeos íntimos no ambiente virtual com o objetivo de humilhar e constranger mulheres evidencia a construção social e cultural da categoria gênero. Essa prática faz com que a quebra das normas hegemônicas de sexualidade, “que aprisionam a mulher em ideais de recato, privacidade e falta de direito ao prazer”, resulte em punição às mulheres. Em diversos países e também no Brasil tal atitude tem levado as vítimas ao suicídio, especialmente as mais jovens.

Beatriz ressaltou que “além de leis e regulamentação, precisamos de uma educação de gênero que não defina um destino inescapável, mas que considere a diversidade e a pluralidade e transforme diferenças em respeito, e não em violência”.

Durante o seminário foi apresentada a campanha “Humaniza Redes” (assista)

 

Violência sexista na mídia: o exemplo do ‘The Post and Courier’

Fátima Pacheco Jordão, socióloga e especialista em análise de mídia e pesquisas de opinião, apresentou a série de reportagens “Till death do us part” (“Até que a morte nos separe”), publicada pelo jornal The Post and Courier (Carolina do Sul, EUA) em agosto de 2014 e que recebeu o prêmio Pulitzer este ano ao tratar dos feminicídios decorrentes da violência doméstica e da omissão do Estado.

Confira aqui a íntegra da série em PDF

“A série de reportagens é um exemplo de como deveria ser tratado esse tema, retirando-o das páginas policiais e trazendo para os cadernos nobres. O fato de um pequeno jornal ganhar um Pulitzer com este tema traz à tona a importância, a magnitude da violência contra a mulher na nossa sociedade. E no Brasil, à exceção de algumas poucas iniciativas em TV, não temos isso, especialmente na mídia impressa”, ressaltou Fátima. Recentemente o Portal Terra fez um material infográfico sobre o tema da violência contra a mulher no mundo, mas reportagens mais densas são um material pouco comum na mídia nacional.

O Brasil é o sétimo país do mundo em assassinatos de mulheres. Mais de 70% das agressões a mulheres ocorrem dentro de casa.

Inicialmente a palestra sobre o case vencedor do principal prêmio jornalístico em nível internacional seria apresentada pelo editor de projetos especiais do The Post and Courier, Glenn Smith. Impossibilitada sua vinda por problemas com o tempo de emissão do visto de entrada no Brasil, o jornalista enviou um vídeo em que conta um pouco sobre o percurso da reportagem.

O projeto foi iniciado em 2013, quando pela terceira vez a Carolina do Sul foi apontada o Estado mais letal para mulheres, após constar há mais de dez anos da lista. Glenn relatou que entre os principais aspectos que contribuem para esta realidade estão as penas leves para mais de 60% dos agressores, o arquivamento de diversas tentativas de mudanças na legislação por falta de encaminhamento no Legislativo estadual e a influência da cultura social machista e de dogmas religiosos que culpabilizam as mulheres pela violência sofrida.

A “recompensa” pelo trabalho, além do prêmio, foi mencionada por Glenn. “Procuradores, políticos, legisladores e juízes começaram a se reunir para debater como mudar essa realidade. Estão sendo discutidas medidas como retirada do porte de arma para envolvidos em casos de violência doméstica, aumento de penas e a importância de mudanças nas perspectivas educacionais”.

Assista o vídeo coma mensagem de Glenn (em inglês)

O assessor da Unesco Guilherme Canela lembrou que um dos problemas que dificulta esse tipo de abordagem sobre a violência de gênero no Brasil é que “o enquadramento sobre violência contra mulheres e crianças é altamente individualizado, mesmo que o mais politicamente correto possível. O segredo de um pequeno jornal como este ganhar um Pulitzer é associar a discussão dos crimes às políticas públicas. Por isso temos que ir além de exigir uma cobertura politicamente correta, precisamos mudar o enquadramento do jornalismo”.

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