Professoras trans buscam quebrar tabu na América do Sul

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Ante onda conservadora na região, docentes ganham visibilidade e mudam tratamento em escolas

(Folha de S.Paulo, 04/11/2018 – acesse no site de origem)

BOGOTÁ , BUENOS AIRES e SÃO PAULO

Leona Freitas é uma mulher transgênero. Professora da educação infantil numa creche municipal em Congonhas, ela leva sua vida em torno da mãe, do companheiro e de uns tantos amigos.

A cidade mineira onde Leona trabalha é famosa pelas festas religiosas que atraem católicos de todo o país. Com mais de 20 igrejas e escolas cristãs, espelha a América do Sul religiosa e conservadora.

Embora o subcontinente ainda seja predominantemente católico, a Igreja viu a hegemonia encolher com o rápido avanço evangélico, como mostrou uma pesquisa de 2014 do Centro de Pesquisa Pew segundo a qual 1 em cada 5 brasileiros se diz ex-católico. Com ele, veio a condenação mais firme da homossexualidade e da transexualidade.

Católica, a educadora diz que a Igreja lhe deu as costas. “Desde que assumi a transexualidade, não pude comungar. Fico no fundo da missa.”

Única docente trans na cidade, Leona diz que está conquistando espaço na escola e ensinando aos colegas que há mais possibilidades do que o binômio homem e mulher.

“Hoje, já se referem a mim como mulher, mas ainda não conseguem me chamar pelo meu nome social. Lá, sou a ‘Tia’ Albert ou a Albert”, diz. “Mas herdei a capacidade de superação da minha mãe. Eu me vejo abrindo portas a futuras gerações de professoras trans, e isso é o que importa.”

Na América do Sul, a representatividade de mulheres trans na educação é pequena, mas vem ganhando espaço apesar do recrudescimento do conservadorismo. No senso comum, o professor é visto como autoridade. “Ninguém espera que uma pessoa trans possa ser docente”, diz a colombiana Alanis Bello, socióloga e professora travesti da Universidade Pedagógica Nacional, em Bogotá. “Parece haver uma incompatibilidade entre esses dois imaginários.”

“Ser docente trans é difícil. São poucas as que se arriscam, e quando o fazem, os estereótipos sociais te dizem ‘não, você é uma prostituta, não se meta com meu filho’.”

Na Colômbia, são raras as educadoras transgênero. Em julho, a mídia anunciou Solypsi Navia como a primeira professora trans de escola pública, uma conquista em um país onde as mulheres trans são fadadas à indústria do sexo.

Por muito tempo isoladas, essas mulheres estão se fortalecendo movidas pela internet. No Brasil, uma pesquisa online feita em 2017 pelo Instituto Brasileiro Trans de Educação apontou 90 profissionais transgênero atuando no país.

“Acreditamos que o número chegue a mais de 150. Muitos e muitas ainda temem se identificar com medo de retaliações no ambiente escolar”, afirma Sayonara Nogueira, vice-presidente da organização.

Professora travesti do curso de Comunicação Social da Universidade Nacional de La Plata, Claudia Vásquez Haro temia ser discriminada quando ingressou como aluna na instituição em 2005, sete anos antes de a Argentina aprovar a Lei de Identidade de Gênero.

“Sou uma sobrevivente do ambiente escolar. Houve um momento em que disse a mim mesma: ou eu me empodero ou não consigo caminhar com meu projeto de vida.”

A educadora lembra que no início gastava a voz para explicar quem era, pois seus documentos não haviam sido retificados. “Um dia cansei e anunciei em aula: ‘Meu nome é Claudia. Sou uma mulher que não se reduz à genitália’”, ri. “Todo mundo ficou estático, mas aplaudiu. Foi quando as coisas começaram a mudar.” Mudaram tanto que a faculdade criou o Departamento de Diversidade Sexual e lhe deu a chefia.

Aprovada em concurso público estadual em São Paulo, Fernanda Ribeiro conta que rompe a discriminação de cara. “Todo ano, no primeiro dia de aula, digo que sou travesti. Assim, evito fofoca e me abro para esclarecer dúvidas.”

Ela diz que ensina aos seus alunos que diversidade faz parte da sociedade brasileira. “Falo que se fôssemos todos iguais seríamos robôs.”

Pelos corredores do colégio mais antigo de Ribeirão Preto, os estudantes alunos cochicham a respeito de Fernanda. Mas para os meninos e meninas dessa escola, ela já não é a professora travesti. É só a docente “meio brava, mas legal”.

Apesar das barreiras quebradas, educadoras trans no Brasil temem retrocesso.

“A situação na universidade está tensa”, diz Ana Paula Luz, professora voluntária do projeto Transpassando, em Fortaleza, e aluna da Universidade Estadual do Ceará, aludindo ao discurso antidiversidade do presidente eleito Jair Bolsonaro e seus seguidores.

“Tive minha casa pichada, fui ameaçada de morte duas vezes e ando com estilete no bolso para me defender.”

Sayonara Nogueira se vê nos anos 90. “Dobrei a dose de ansiolíticos porque me sinto voltando à época em que apanhava na rua por ser quem sou.”

Por Vanessa de Sá e Toni Pires

A reportagem foi financiada pelo European Journalism Centre (EJC)

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