Charleston ainda carrega as marcas da escravidão

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(Folha de S. Paulo, 19/05/2015) A dez quadras da igreja metodista episcopal Emanuel, local da chacina que culminou com a morte de nove fiéis negros, fica o antigo Mercado de Escravos de Charleston, o principal do país na primeira metade do século 19.

Chamada até hoje de “Mãe Emanuel” pelos moradores de Charleston, a igreja foi a primeira criada para e por negros no Sul escravocrata americano, em 1816.

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Como os cultos nas demais igrejas eram segregados, líderes negros quiseram uma igreja só deles. Poucos anos depois, as autoridades locais começaram a proibir igrejas para afroamericanos –elas reuniam abolicionistas e líderes de revoltas de escravos.

Uma década depois de sua criação, vários de seus líderes já tinham sido presos ou mortos, e suas cerimônias tinham que ser secretas. No terreno onde a atual igreja foi erguida, em 1891, havia um cemitério de escravos mortos durante rebeliões.

Por décadas já no século 20, linchamentos e atentados contra seus líderes se repetiram. O grupo terrorista pró-supremacia branca Ku Klux Klan era forte no Estado. Atentados em igrejas para negros se tornaram comuns. O filme “Selma” (2014) mostra um dos mais conhecidos, que matou um grupo de meninas em Birmingham, Alabama.

O reverendo Martin Luther King Jr., prêmio Nobel e líder da luta contra a segregação racial, discursou na Mãe Emanuel em 1963. O presidente Obama conhecia o líder da congregação, o reverendo Clementa Pinckney, morto na chacina.

MERCADO ESCRAVO

Entre 1670 e 1808, o porto de Charleston recebeu estimados 40% de todos os escravos trazidos da África.

Com a proibição do tráfico internacional de escravos em 1808, a cidade criou um leilão de escravos nascidos nos EUA –em sua maioria, foragidos e capturados das fazendas do Sul, comércio bem descrito no filme “12 anos de Escravidão” (2013).

O local dos leilões, onde só se deixou de vender “escravos saudáveis e jovens”, como eram anunciados em jornais da época, em 1863, virou o museu Old Slave Mart.

A Carolina do Sul, junto com Alabama e Mississippi, esteve entre os Estados com as leis mais segregacionistas do Sul americano. A Constituição estadual de 1865, logo após a abolição da escravatura, negava o direito a voto dos negros e proibia o casamento interracial. Em 1895, nova lei proibia o casamento de brancos com pessoas com “até 1/8 de sangue negro”.

Licenças profissionais para sapateiros, comerciantes, mecânicos ou artesãos custavam US$ 100, quantia inacessível para os ex-escravos.

Restaurantes, circos, teatros, ônibus, trens e escolas eram segregados ou tinham entradas diferenciadas para negros e brancos. Várias dessas leis vigoraram até 1963.

Nas últimas décadas, Charleston virou um pólo turístico. A cidade é muito visitada por ter sido poupada durante a Guerra Civil americana. É um raro cenário digno de “E o Vento Levou” (1939) que foi preservado. A Atlanta original do romance de Scarlett O’Hara foi destruída.

Com apenas 120 mil habitantes, Charleston recebe 5 milhões de turistas por ano –é a 13ª cidade mais visitada do país. É considerada “o melhor destino turístico do país” em sucessivas pesquisas da revista “Conde Nast Traveler”, a mais prestigiosa publicação de turismo do país, graças ao mix de sol, areia, centro histórico e gastronomia.

Raul Juste Lores

Acesse o PDF: Charleston ainda carrega as marcas da escravidão (Folha de S. Paulo, 19/06/2015)

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