Especialistas analisam os obstáculos da representação negra nas artes

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(Correio Braziliense, 12/08/2014) O cineasta Joel Zito Araújo mostra a luta dos afro-brasileiros por igualdade racial em “Raça”

A filmografia de Joel Zito Araújo é marcada pelo debate sobre as questões raciais. Em 2000, ele lançou o emblemático A negação do Brasil, documentário em que analisava a trajetória dos personagens negros nas telenovelas brasileiras. Nove anos depois, em Cinderelas, lobos e um príncipe encantado, ele discutiu temas polêmicos como turismo sexual, racismo e pedofilia. No trabalho mais recente, Raça, mostrou a luta dos afro-brasileiros por igualdade racial.

Leia também: Ausência de artistas afrodescendentes permeia toda cultura brasileira (Correio Braziliense, 13/08/2014)

Segundo Joel, a dificuldade em tematizar a questão do negro está no racismo estruturante da sociedade brasileira. “Falar sobre a situação do negro em nossa sociedade é tocar em uma situação tabu”, diz o cineasta.Sobre a pouca presença no cinema, apontada na pesquisa A cara do cinema nacional, o mineiro volta a citar o racismo e expõe a estética do branqueamento como responsáveis pela escassa representação. “É por esta razão que se naturalizou a ideia que o branco é a melhor representação da raça humana e está no topo da escala da beleza. Os negros significam os outros, e ainda pior, a subalternidade, a feiura, o pobre indesejado”.

Em 50 anos de carreira, a atriz Zezé Motta protagonizou vários filmes e novelas, inclusive Xica da Silva e A próxima vítima. Ao saber do resultado da pesquisa, ela confessou ter ficado triste. “As coisas estão avançando, pois já temos protagonistas negros como Lázaro Ramos, Taís Araújo e Isabel Fillardis, e eu mesmo já fiz novelas estando no núcleo principal, independentemente de ser negra, faço um discurso otimista. Contudo, o estudo confirma que ainda falta muito para fazer justiça com o negro no Brasil”, opina Zezé.

A artista, fundadora e presidente de honra do Centro de Documentação do Artista Negro (Cidan), ainda destaca que é preciso ter mais autores, produtores e diretores negros, e recorda os nomes de Milton Gonçalves, Luiz Antonio Pilar, Maurício Gonçalves e Antonio Pitanga — excelentes profissionais cujo o potencial é mal aproveitado. “Temos catalogados no Cidan mais de 500 negros e a gente se pergunta: onde estão esses atores? Fazer arte no Brasil é muito difícil e para o negro mais ainda”.

Mudança

Apesar das barreiras, Joel Zito acredita que a representação negra em papéis de subalternidade está mudando. Ele cita, inclusive, a novela Lado a lado como grande paradigma de mudança ao ter um duplo protagonismo, com um casal branco e outro negro. “Pudemos ver a história de uma cidade, o Rio de Janeiro, sendo contada a partir de dois segmentos populacionais que, de fato, ergueram a cidade, os negros e os brancos”.

Adriana Izel e Maíra de Deus Brito

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