O que Freddie Gray diz sobre exclusão, por Julia Sweig

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(Folha de S.Paulo, 06/05/2015) Parece que a cada poucas semanas a polícia mata um homem negro: em Ferguson, Nova York, South Charleston e agora em Baltimore. Nosso debate nacional oscila rapidamente de brutalidade policial, encarceramento em massa e racismo para desigualdade, pobreza e a qualidade da democracia.

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Na zona oeste de Baltimore, onde vivia Freddie Gray, o desemprego chega a quase 50%, a expectativa média de vida é de apenas 68 anos e a intoxicação por tinta de chumbo é comum.

Algumas semanas antes dos distúrbios, vi Stevie Wonder se apresentar em Baltimore. Sua tristeza nos anos 1970 pelas condições de vida dos negros e sua crítica do abuso e descaso generalizados do Estado era ampliada, mas também contrabalançada tremendamente por sua genialidade musical e a alegria com que ele festejava a resiliência, o prazer, a condição de pai e até o progresso representado pela eleição de Barack Obama à Presidência americana.

Sua dor e sua alegria também eram amplificadas pela resposta de um estádio repleto de fãs majoritariamente afro-americanos, profissionais de classe média que, em sua maioria, cresceram ouvindo sua música e acompanhando os protestos e a polarização da era que o definiu.

Mas a mágoa de Stevie não se limita à questão racial, nem é limitada por ela. Freddie Gray tornou-se um mártir para seus vizinhos, é claro, mas também um mártir cuja morte, e a reação a ela, está obrigando todos nós a refletir e falar em profundidade sobre o passado, presente e futuro coletivo de nosso país.

Diferentemente de Ferguson, a tragédia de Baltimore não é uma história de abuso policial em branco e preto. A história de Baltimore é uma história não apenas de raça, mas de classe social, demografia e geografia.

Partir de um bom começo é importante: as histórias de alguém que criou alguma coisa começando do nada são muito poucas. E o lugar onde vivemos influi sobre nossa capacidade de aproveitar as oportunidades que aparecem. As condições econômicas que nos cercam –quer sejamos brancos, negros ou pardos–, influem ainda mais.

Situada a apenas 40 minutos de carro da capital nacional, Baltimore nos obriga a voltar nossa atenção aos elementos fundamentais da desigualdade. Eis um dado espantoso apresentado por Sarah Anderson, que estuda o pagamento de executivos no Institute for Policy Studies (onde tive meu primeiro emprego em Washington): neste ano, ela relatou que em 2014 “os bônus pagos por Wall Street somaram o dobro da renda de todos os trabalhadores em tempo integral que receberam salário mínimo em 2014”.

Nos Estados Unidos, o salário mínimo federal é de US$ 7,25 por hora. Houve 167,8 mil membros do pool que recebeu bônus de Wall Street; juntos, eles ganharam US$ 28,5 bilhões. E 1,03 milhão de trabalhadores recebeu entre US$ 14 bilhões e US$ 15 bilhões nesse mesmo período.

É bom lembrar também que, na zona oeste de Baltimore e provavelmente também em outros enclaves de exclusão econômica, os empregos que pagam salário mínimo mal cobrem metade da população em idade trabalhadora.

A questão mais ampla é uma com que os brasileiros se defrontam há anos: a desigualdade é prejudicial à democracia. Quando a desigualdade acompanha as divisões raciais, é ainda pior.

Políticos e presidentes, mais recentemente Barack Obama, nos recordam que, embora os avanços continuem dolorosamente lentos, eles são muito reais. Tudo bem. Mas o custo humano também é muito alto.

Julia Sweig – É pesquisadora-sênior na Lyndon B. Johnson School of Public Affairs, da Universidade do Texas, em Austin (EUA). Escreve às quartas-feiras,
a cada duas semanas

Tradução de CLARA ALLAIN

Acesse no site de origem: O que Freddie Gray diz sobre exclusão, por Julia Sweig (Folha de S.Paulo, 06/05/2015)

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