“A violência digital contra a mulher é uma continuidade da violência física”, explica ativista mexicana

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Lulu Barrera, ativista pelos direitos das mulheres na internet, fala sobre o machismo generalizado na rede

(Época, 23/11/2018 – acesse no site de origem)

A internet não é um lugar hospitaleiro para as mulheres. Não é preciso procurar muito para ver incontáveis casos de assédio, ameaças de morte, agressões e machismo em qualquer lugar da rede. De celebridades a usuárias anônimas, das salas de bate-papo aos jogos on-line, a misoginia digital é quase onipresente.

Os números alarmantes da violência contra a mulher no “mundo físico”, de feminicídios, abusos sexuais e privação de direitos parecem se reproduzir na rede. Mas não precisa ser assim.

A mudança desse panorama é um dos objetivos de movimentos como o mexicano Luchadoras, que realizam ações de militância pelo mundo em busca de uma internet igualitária e feminista. Onde as mulheres possam ocupar os mesmos espaços dos homens sem temer retaliações e violências contra si pelo fato de serem de um gênero distinto, onde possam ter suas vozes ouvidas e respeitadas da mesma maneira que a dos homens.

De passagem pelo Rio de Janeiro para o Festival Mulheres do Mundo, Lulu Barrera é parte do Luchadoras e tem uma longa experiência nesse tipo de luta e ativismo digital. Em entrevista, ela falou sobre o panorama da violência digital contra a mulher e as diversas maneiras possíveis de se combater esse lamentável cenário.

Quais são as principais barreiras que as mulheres enfrentam na internet hoje?

Há um primeiro aspecto, relacionado à “brecha digital”, que é a diferença do acesso à internet entre mulheres e homens. Isso é causado por muitos fatores, e não só pelas situações de desigualdade e pobreza em que as mulheres podem estar. Há a diferença de alfabetização entre homens e mulheres, por exemplo. E algo muito importante, chamado de “uso de tempo das mulheres”. Normalmente são elas que têm de cuidar da família, e por isso têm menos tempo disponível do que os homens para as atividades de conhecimento, estudo e realização pessoal. Trata-se de um fenômeno que acontece por toda a América Latina.

A segunda barreira importante tem a ver já com as mulheres estando na rede. Acesso não é só estar conectada, mas também a qualidade de sua participação na web e a quais informações você tem acesso. Você pode se expressar da mesma maneira que os homens? As mulheres que têm um discurso abertamente feminista ou militante da igualdade de gênero estão sendo agredidas na internet. Já vimos isso acontecer com defensoras de direitos humanos, ativistas feministas e mulheres na política. Com mulheres que têm posturas progressistas com relação à interrupção da gravidez — aborto — ou nas causas LGBT. Ou seja, não se usa a internet da mesma maneira. E isso impede que as mulheres tenham um uso pleno e criativo da internet.

E quais são alguns dos comportamentos mais tóxicos contra as mulheres identificados na internet?

Muitos têm a ver com ataques como insultos, ameaças e mensagens discriminatórias. A divulgação de imagens íntimas sem consentimento também é muito difundida. Nós criamos uma tipificação de 13 tipos de agressão contra a mulher na internet, que pode ser acessada em nosso site. Há o controle e manipulação de informação, campanhas de desprestígio e até extorsão. Uma das formas mais graves que percebemos é o aliciamento de mulheres com o fim de exploração sexual nos meios digitais.

Também é muito grave a omissão das autoridades, que têm condição de coibir esses comportamentos e não o fazem. Isso inclui plataformas como Facebook e Google, que não tomam atitudes mesmo depois de denúncias de suas usuárias.

Qual a importância de movimentos como o Luchadoras para enfrentar esse tipo de desigualdade na internet?

É crucial. E quero falar da semelhança com o Brasil. Aqui há um uso muito proativo da internet pelas ativistas feministas. E, em um contexto em que não necessariamente os grandes meios estão falando de violência de gênero e feminismo, as mulheres terem ferramentas para contar suas histórias é essencial. Gera espaço para formação de uma contracorrente de informação com visões mais progressistas e positivas, que permitam que as mulheres não apenas cumpram os papéis sociais esperados.

Iniciativas assim também são importantes na investigação da violência on-line. Ela serve para formular estratégias de respostas e reação. No Brasil isso acontece também com projetos como o Internet Love e o Coding Rights. Essa investigação permite a sensibilização das pessoas, para que elas reconheçam o que realmente acontece no meio digital. Se chama violência e não é normal.

Em seu site, Luchadoras diz que é um projeto que habita o espaço público digital e físico. Quais são as diferenças e semelhanças na militância e conscientização nesses dois campos?

Para nós é muito importante ter em conta que a violência on-line não está desconectada da violência off-line. Tendemos a pensar no mundo real e digital como se fossem realidades desvinculadas uma da outra. Na realidade não é assim. A violência on-line é uma continuidade do que acontece no espaço físico. Ela existe porque há pessoas com corpos e culturas e crenças encarnadas, que pensam que as mulheres têm um lugar secundário no mundo. Aí vão na web criar, compartilhar e replicar essa maneira de pensar.

A web dá a impressão de que tudo está ampliado, mas se trata de um espelho que permite ver em uma dimensão real das coisas. Pode até aparecer mais apavorante, por estar reunido num só lugar, mas é o que vivemos na rua. É muito importante deixar claro que a violência on-line é a mesma da off-line. Um velho sistema em novas plataformas. Também é preciso desmistificar que, por ser nova, a violência on-line ainda não pode ser combatida. Toda a legislação internacional e local sobre direitos humanos e contra a violência das mulheres é perfeitamente aplicável ao que acontece no âmbito digital.

O que seria uma web feminista?

Quando falamos em uma internet feminista, se trata de uma livre de violência e que permita às mulheres ter um espaço criativo, onde elas encontrem informações relevantes para si. Onde elas possam exercer direitos humanos de maneiras mais amplas. Por exemplo, sobre anticoncepcionais, contra tabus sexuais… É um espaço que seria seguro para todas nós.

O que você sugeriria a uma mulher que queira se engajar na internet? Quais os primeiros passos?

Há muito que se pode fazer. O primeiro é conhecer a tecnologia, que hoje é praticamente uma extensão de nosso corpo. Então conhecê-la, aprendê-la e manejá-la é importante. Pode ser com o celular. Por exemplo, se aceitamos suas configurações por default da fábrica, significa que estamos aceitando o mundo por default. E o que ativismo feminista não aceita é o mundo por default. É preciso questioná-lo e mudá-lo.

Um segundo passo pode ser a conversa. Há grande movimentos que incidiram na agenda pública e mudaram percepções culturais através de hashtags. Por exemplo, no Brasil e no México, os #meuprimeiroassedio e #miprimeracoso. Há outros movimentos, em que as mulheres tomam protagonismo da conversa na internet, dando uma volta no discurso vigente e assim mandam uma mensagem poderosa juntas. Essa é uma forma poderosa de militar.

Uma terceira opção é conectar-se. Já há muitíssimas iniciativas feministas no Brasil, e essa foi uma das maiores maravilhas que me trouxeram aqui. Há muitas mulheres que usam blogs e o Instagram para mandar mensagens poderosas. Junte-se às outras. A luta contra o sexismo parte do princípio de que estamos juntas, e que juntas podemos fazer uma mudança muito maior. Isso é maravilhoso e fundamental.

Leia mais: https://epoca.globo.com/a-violencia-digital-contra-mulher-uma-continuidade-da-violencia-fisica-explica-ativista-23256764#ixzz5XynKVYB9
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