Liberdade sexual também é dizer não, por Djamila Ribeiro

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Penso ser problemático cair no extremo de ‘transem muito, jovens’

(Blog UOL, 14/02/2020 – acesse no site de origem)

Em tempos de Damares e “política” de abstinência sexual, vivemos momentos duros. Em vez de se pensar políticas para educação sexual nas escolas, inclusão do estudo de gênero nos planos de ensino, a ministra prega abstinência como saída. Em vez de a ministra pensar políticas para o enfrentamento da violência sexual contra meninas, corrobora com o desmonte orçamentário da Secretaria das Mulheres e, ao mesmo tempo, se ampara em debates rasos, como campanha contra “ideologia de gênero”.

Segundo matéria da Folha de 4 de janeiro, “em nota, a Sociedade Brasileira de Pediatria diz que desconhece programa com foco em abstinência sexual, mas diz que ‘um dos itens essenciais na abordagem da adolescência, preconizado pelo SUS e respaldado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, é o direito do indivíduo de conhecer seu próprio corpo e receber informações e cuidados adequados à saúde reprodutiva”. Logo, o governo deveria seguir essa diretriz em vez de impor uma visão moral a uma questão de política pública.

Por outro lado, penso ser problemático cair no extremo de “transem muito, jovens”. Ter uma boa consciência sobre sexo deveria ser entender o que se quer. Com sexo, vem responsabilidade, tanto de sexo seguro, quanto de entender a parceira e o parceiro como sujeitos. Numa sociedade onde meninos são expostos à pornografia tão cedo, criam-se condicionamentos do prazer. Mulheres são tratadas como instrumentos e não vistas como alguém para se trocar. Somos ensinadas que, para agradar, devemos nos apegar a uma performance subordinada ao prazer masculino. Muitas de nós só vão descobrir do que gostam após muito tempo de autoconhecimento, outras podem até transar muito, mas sem conhecer o gozo. Quantas de nós já tivemos experiências horríveis ao sermos tratadas sem respeito algum ao nosso prazer?

Apesar de muitas mudanças, ainda existem tabus sobre o corpo da mulher, ao passo que os meninos, para serem “sujeitos homens”, são ensinados a se masturbar, consumir mulheres, lógica de consumo que passa por expor corpos nus de mulheres na publicidade, na dramaturgia, nas revistas masculinas, em sites e redes sociais.

Quantas vezes percebemos o quão desnecessário era mostrar o corpo de uma atriz em uma cena, por exemplo? Com isso, não estou em absoluto me colocando contra o nu; estou a refutar uma ideia de um nu condicionado ao consumo masculino.

Ser feminista heterossexual já me trouxe situações inusitadas, como, ao dizer não para um jovem, ele me questionar: “Mas você não é feminista e libertária?”. Ou seja, se eu digo não, estou sendo moralista, em vez de se entender que é um direito.

Não há liberdade que seja condicionada ao prazer absoluto do homem. Ou, quando eu digo que nunca gostei de sexo casual e prefiro ter relações com mais significado, sempre vinha a pergunta: “Por que você não se liberta?”. Ser liberta é ter que transar com várias pessoas? Não julgo quem tem muitos parceiros ou curte essa casualidade. Cada um, cada um. Porém, é um tanto problemático impor um modelo de liberdade ligado ao número de parceiros que se tem.

Mulheres negras são ultrassexualizadas nessa sociedade de herança colonial. É como se tivéssemos que estar disponíveis para sexo. São vários os assédios que sofremos por parte de homens brasileiros desde muito cedo, de gringos sem noção que vem ao Brasil e se sentem autorizados a tocar o nosso corpo ou a despejar impropérios.

Isso sem falar no preterimento, de mulheres negras serem vistas somente para casualidades e não para se ter uma relação mais profunda. O “transar muito” para nós, muitas vezes, é de madrugada, sem carinho, às escondidas, em chats privados. Quando se é uma mulher padrão, se esquece que existem aquelas em celibato forçado pelo preterimento ou por serem vistas como as chatas raivosas, ou ainda, pela escolha de não querer ser a sobra da festa, por não aceitar negociar sua humanidade.

Num país em que os corpos nus das mulheres podem ser mostrados para consumo, mas falar de sexo e masturbação feminina ainda é tabu, seria interessante, em vez do “transem muito, jovens”, buscarmos conhecer melhor nossos corpos e desejos. Ensinar aos jovens que mulheres não estão ali para serem objetos de prazer. Cuidar para que adolescentes não sejam expostos à pornografia sem o mínimo critério e limite, sobretudo, em tempos de redes sociais e de fácil acesso a essa produção.

Poderíamos dizer também: transem muito, se assim quiserem, se isso fizer sentido, mas sejam responsáveis. E essa discussão está longe de ser moralista ou, como muitos gostam de acusar, de “mulheres ressentidas”.

Poder discutir com verdade e sem medo nossa sexualidade é um objetivo a ser alcançado. Numa sociedade em que somos ensinadas a não dizer não, dizê-lo é uma conquista.

Djamila Ribeiro
Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais.

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