A cada duas mulheres atendidas na atenção primária, uma vive ou viveu violência física ou sexual. Mesmo assim, profissionais seguem ignorando ligação entre abusos e sintomas.
Durante quarenta anos, Clara* usou bombinha de broncodilatador. Uma por semana, às vezes três. A asma chegou quando ela ficou grávida da filha aos 16 anos — o mesmo momento em que o marido mudou. Não havia histórico da doença na família, nenhum fator de risco conhecido. Existia só aquele casamento, iniciado quando ela ainda era uma menina – ela tinha 14 e ele, 27 – e em que foi ficando, ao longo de quatro décadas, cada vez mais difícil de respirar.
Quando o marido morreu, em 2024, Clara ficou doente por 13 dias: o corpo “precisou descansar da agitação”, conta. Depois desse período, foi percebendo que a falta de ar não voltava e parou os remédios. Ao conversar com a pneumologista, uma surpresa: “A minha asma simplesmente morreu também”, diz ela, que vai completar 60 anos em abril.
A conexão entre a rotina e a doença nunca foi feita pelos médicos que a atenderam ao longo de décadas. A pneumologista, inclusive, sabia que Clara era vítima de violência doméstica — não porque perguntou, mas porque, depois de muitos anos, ela decidiu contar. Os reumatologistas, neurologistas e ortopedistas que a atenderam mais tarde, quando investigou sua fibromialgia, não souberam de nada. Ela não comentou. Eles não perguntaram.
O Ministério da Saúde, no Guia Prático de Cuidado à Mulher em Situação de Violência, de 2025, reconhece:
“A violência doméstica contra as mulheres está fortemente associada a dores crônicas, problemas de saúde mental e questões relacionadas à saúde sexual e saúde reprodutiva, além da mortalidade por feminicídio.”
Especialistas ouvidas pela reportagem apontam que o sistema de saúde, porém, parece ignorar que violência aparece disfarçada de asma, de dor no corpo, de crise de pânico e de pressão alta.
Mulheres buscam ajuda
Dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher do DataSenado, disponíveis no Mapa Nacional da Violência de Gênero – parceria da Gênero e Número, do Senado Federal e do Instituto Natura –, mostram que 95% das mulheres que declararam ser vítimas de violência em 2025 buscaram algum tipo de ajuda após o episódio.
No entanto, equipamentos públicos não figuram como escolha prioritária. A maioria preferiu recorrer à família (57%), à igreja (53%) e/ou a amigos (52%), do que a instituições como serviço de apoio psicológico (41%), serviços de saúde (34%) e/ou delegacias (32%).
O número sugere que a violência doméstica continua sendo percebida como questão social e moral, com consequências que atingem a vida privada e pública das vítimas. Segundo o levantamento, 69% das mulheres que sofreram violência tiveram suas rotinas diárias afetadas e 68% tiveram o convívio social prejudicado.
Esses dados têm como base um levantamento do DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) que existe desde 2005. A coleta de informações foi utilizada para subsidiar a elaboração da Lei Maria da Penha, sancionada no ano seguinte, e constitui a série mais longa sobre o tema no Brasil.
Os números mostram que discutir saúde em meio à elaboração de um Pacto Nacional contra o Feminicídio é uma oportunidade não só de falar de consequências, ou seja, de projetos e ações voltados para a violência que já escalou, mas de identificar atores capazes de interrompê-la, como médicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais.
“Só porque a minha ferida não dá para ver”
Fernanda*, de 29 anos, passou por dezenas de atendimentos de saúde mental ao longo da vida — psicólogos, psiquiatras, terapeutas — sem que nenhum deles jamais dissesse que o que ela vivia tinha nome: violência doméstica. Seu agressor era o irmão, 12 anos mais velho, que morava na mesma casa e a depreciava sistematicamente desde a adolescência. Nas sessões, ela contava o que acontecia, e os profissionais ouviam, mas não nomeavam.
O impacto no corpo veio cedo. Desde os 15 anos, quando sofreu uma humilhação pública do irmão na véspera de uma votação para o grêmio estudantil da escola, Fernanda convive com a ansiedade e a depressão, essas sim diagnosticadas.
“Nunca ninguém me disse”, conta ela. “Eu acho que só fui entender isso quando contei o que estava acontecendo para uma pessoa e ela falou: ‘Você tem noção de que está vivendo uma violência psicológica?’ Aí a ficha caiu.”
Para a psicóloga Edinilsa Ramos de Souza, que integra o Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde da ENSP-Fiocruz, “nenhum profissional sério da área da psicologia deve nomear nada. É o paciente que “deve dar nome ao que vive ou sente”, explica. Ela admite, contudo, que é bastante comum que “a pessoa não chame de violência as vivências dessa natureza”.
Os números da edição mais recente da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, de 2025, confirmam a afirmação. Quando perguntadas se sofreram violência, apenas 4% das mulheres responderam que sim. Quando situações de violência foram descritas, contudo, 29% disseram já ter passado por alguma delas.
Esse não nomear é, além de um processo individual, um fenômeno que esbarra em questões sociais e históricas da própria medicina. Isso porque o próprio entendimento de que a violência é, também, uma questão de saúde é relativamente novo para a sociedade brasileira e medicina. Chegou ao país no fim dos anos 1980, com a pressão de organismos internacionais como a Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde, conta a psicóloga.
Quando pesquisadores começaram a propor essa nova leitura, ouviram que “violência não é questão de saúde, mas de polícia e de justiça”, lembra Edinilsa. Pensamento que “até hoje existe, não na escola de saúde pública, mas entre os nossos profissionais de saúde.”
Para convencer a classe médica, os pesquisadores, então, começaram a analisar e apresentar indicadores e análises epidemiológicas da época, que já mostravam um crescimento acelerado das mortes por causas externas — categoria que engloba acidentes de transporte, quedas, queimaduras e violências, incluindo lesões autoprovocadas e homicídios.
Então, em 2001, foi homologada a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências (PNRMAV), formulada pelo grupo da Fiocruz, que propõe pensar comportamentos para garantir “ambientes seguros e saudáveis”, monitorar ocorrências de acidente e violência e sistematizar esses dados. Também ampliar e consolidar o “atendimento pré-hospitalar”, além de capacitar profissionais e desenvolver pesquisas.
“É uma política que não tem o financiamento que deveria ter, como o resto do SUS não tem” e que sofreu revezes durante a gestão Bolsonaro, de 2019 até 2022, quando “núcleos de prevenção de acidentes e violências implantados nos municípios foram desmontados”, avalia Edinilsa.
Esse movimento impulsionou, também, a criação do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA), integrado ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), em 2006. Inicialmente, o VIVA focou na vigilância sentinela em serviços de urgência e, em 2011, evoluiu para a notificação contínua de violências domésticas, sexuais e autoprovocadas.
Hoje, ele prevê que profissionais de saúde notifiquem obrigatoriamente casos de violência doméstica, sexual, interpessoal e autoprovocada atendidos, a fim de gerar dados epidemiológicos que orientem políticas públicas, prevenção e acolhimento das vítimas — obrigação que vale para a rede pública e privada.
A notificação é feita através de uma ficha com duas vias: a primeira vai para o Núcleo de Vigilância Epidemiológica municipal, e a segunda é arquivada na unidade de saúde.
Ela contém dados da vítima, do agressor e características da lesão e é sigilosa.
A notificação, contudo, fica a cargo do profissional de saúde, que deve reconhecer essa violência para notificá-la, o que nem sempre acontece.
“A violência só é violência quando tem um olho roxo”
Quando a violência do irmão escalou, Fernanda tentou buscar ajuda numa delegacia, mas a polícia desconsiderou a denúncia. Então, procurou um serviço jurídico da prefeitura, mas a advogada, conta, não soube orientá-la. Foi até uma Unidade Básica de Saúde, mas “saí de lá pior do que entrei”, diz, “só porque a minha ferida não dá para ver.”
Clara, por exemplo, só foi se sentir acolhida quando conheceu o projeto MURA, um ciclo de apoio para mulheres que sofreram violência doméstica e relações abusivas que foi criado em 2018. A trajetória das duas ilustra um padrão: quando as instituições formais falham, as mulheres encontram acolhimento em redes informais ou não encontram em lugar nenhum.
A violência contra mulheres não é um dado distante: o Brasil tem cerca de 104,5 milhões de mulheres, ou 51,5% da população, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE. Se uma parcela enorme delas passa por violência doméstica e grande parte adoece, física, mental e emocionalmente, fica claro que estamos diante de uma questão de saúde pública urgente. Não se trata apenas de crimes ou conflitos familiares: os impactos da violência são sentidos nos corpos, nas rotinas, na vida social e nas gerações seguintes.
Luana*, hoje com 58 anos, só saiu de um relacionamento violento quando foi encorajada pelo psiquiatra da filha. A primeira agressão veio, justamente, durante a gravidez. O marido bebia, usava drogas e a agredia fisicamente. Quando começou o pré-natal, foi ao SUS. A médica sabia da violência — Luana chegou a comentar, aos poucos, o que acontecia em casa, mas nenhuma orientação clara veio dali.
A filha nasceu e também se tornou vítima da violência que atingia a mãe. Foi numa consulta com um psiquiatra da criança que o médico alertou: ou Luana saía de casa, ou o marido a mataria. “Me senti segura”, conta ela. Era como se alguém, finalmente, a enxergasse.
A situação que Luana e a filha viveram está demonstrada nos números do DataSenado: 71% das agressões às mulheres acontecem na presença de outras pessoas. Em 71% desses casos, as testemunhas eram crianças, sendo 79% delas filhos das próprias vítimas. Isso significa que aproximadamente 1,4 milhão de crianças brasileiras testemunharam violência contra suas mães apenas nos últimos 12 meses.
Essas crianças também são pacientes do SUS, passam por consultas de rotina, convivem com pediatras e professores que poderiam identificar sinais de trauma. Assim como as próprias mães que chegam aos consultórios com dores, diagnósticos inconclusivos e histórias que ninguém pergunta.
Luana viveu 15 anos em um relacionamento abusivo. Clara, 46, Fernanda ainda está nele, afinal, o irmão ainda faz visitas à casa da mãe. Elas podem, ao longo desse período, nunca ter precisado acessar uma delegacia. Mas, certamente, buscaram alguma assistência de saúde.
É, justamente, o que o “Guia Prático de Cuidado à Mulher em Situação de Violência“, do Ministério da Saúde, diz: “os profissionais de saúde estão em posição estratégica para identificar casos de violência doméstica, pois as mulheres são as principais usuárias de serviços de saúde, especialmente na Atenção Primária.”
Segundo o documento, a frequência de violência entre usuárias da atenção primária é mais alta do que na população geral — 54,8% para violência física e/ou sexual, e 76% para qualquer tipo de violência. Ou seja: a cada duas mulheres atendidas no serviço, uma vive ou viveu violência física ou sexual de cada quatro, três já viveram algum tipo de violência doméstica.
E, ainda assim, quando o problema não é abordado, o guia descreve o que acontece: “o uso frequente e a assistência pouco resolutiva” do sistema de saúde.
São mulheres que chegam ao serviço com queixas e sintomas, mas recebem respostas e diagnósticos que não contemplam integralmente suas vivências, fazendo com que retornem repetidas vezes e à elas seja atribuído o título de hiperqueixosas.
Sendo que, na realidade, só não encontraram acalento para suas dores. Por isso, “torna-se fundamental e imperativo”, conclui o documento, “que profissionais de saúde, especialmente na porta de entrada preferencial do SUS, a Atenção Primária, saibam lidar com esse problema”.
O documento reconhece que não é necessário que a mulher nomeie sua situação como violência para que o atendimento aconteça — nem que ela a prove. Aos profissionais, cabe ouvir, dar crédito ao relato e fazer perguntas: tanto as diretas, como “já vi problemas como o seu em pessoas que são fisicamente agredidas — isso aconteceu com você?”, ou indiretas, como “você acha que os problemas em casa estão afetando sua saúde?”.
Luana tem dificuldade para falar, sequela do acidente vascular cerebral que teve em 2024 e que, por muito tempo, nem sabia que era AVC. Foi levada ao hospital e diagnosticada erroneamente com LEMP, leucoencefalopatia multifocal progressiva, uma doença neurológica grave, em geral associada à imunossupressão severa.
O diagnóstico correto só veio depois de seis meses, quando a família a levou em um neurologista particular. Em nenhum momento, durante os atendimentos pelos quais passou ao longo de décadas, alguém perguntou de forma sistemática sobre violência. “Parece que a violência só é violência quando tem um olho roxo”, lamenta.
151 obstáculos, 70 soluções
Pesquisadoras do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP mapearam obstáculos e facilitadores no atendimento a mulheres em situação de violência doméstica na atenção primária à saúde no Brasil. Por meio de uma revisão literária, analisaram 39 artigos científicos e encontraram 151 obstáculos e apenas 70 facilitadores, mais que o dobro de barreiras em relação a soluções.
O item mais citado entre os obstáculos, presente em 22 dos 39 estudos, foi a falta de treinamento e capacitação. Em 15 artigos, os próprios profissionais de saúde não reconheciam a violência como uma questão do seu campo.
Outros dez mencionaram o tecnicismo e a medicalização — a tendência de reduzir o sofrimento a patologias, exames e receitas, sem enxergar o que está por trás. Em outros dez, os profissionais achavam que cabia à mulher relatar a violência espontaneamente. Em sete, havia culpabilização direta da paciente. Em cinco, naturalização — o profissional via, mas não reconhecia como violência.
O estudo traz ainda um alerta que contraria a solução mais repetida: treinar não basta. Uma revisão internacional citada pelas pesquisadoras mostrou que capacitações mudam percepções, mas pouco alteram o comportamento real no atendimento, que acaba sendo moldado por estruturas sociais mais profundas.