A mulher no novo cenário político brasileiro, por Lídice Leão

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Em um país de dimensões continentais como o Brasil, com 147 milhões de eleitoras e eleitores, a maioria mulheres – 52,5%, ou 77 milhões – ainda assusta o fato de estados como Amazonas, Goiás, Maranhão e Sergipe não terem eleito nenhuma deputada para a Câmara Federal. No geral, entretanto, a notícia é otimista: em 2014, 51 mulheres foram eleitas. Na eleição de domingo, o número subiu para 77, dos 513 deputados federais.

(Jornal do Brasil, 10/10/2018 – acesse no site de origem)

O percentual de mulheres que concorreram à Câmara dos Deputados subiu em relação ao último pleito e ficou um pouco acima do mínimo de 30% exigido por lei. Foram mais de 2,6 mil candidatas, de acordo com dados da Justiça Eleitoral. Em 2014, 2,3 mil mulheres se candidataram. O aumento poderia ter sido maior. Em quatro anos, muitas bandeiras foram levantadas pelas mulheres, que reivindicaram mais, se reuniram mais e discutiram mais questões como aborto, mercado de trabalho, feminicídio, assédio sexual, violência doméstica, entre outros temas que ainda assombram a vida das mulheres pelo país afora.

Dados enviados a esta articulista pelo colega Jamil Chade, correspondente internacional que já acompanhou eleições em várias partes do mundo, mostram que, comparado ao ranking atualizado da União Parlamentar Internacional, divulgado em setembro deste ano, com 193 países, o Brasil seria apenas o 135º colocado na classificação das câmaras de deputados com as maiores representações femininas. Há quatro anos, a posição era ainda pior: 156.

Ainda de acordo com as informações enviadas pelo colega, depois das eleições de domingo, o Brasil fica na frente de países como Síria, Egito, Serra Leoa, Congo, Índia e Burkina Fasso, em ocupação feminina no legislativo federal. Mas ainda perde para Jordânia, Líbia, Gabão, Arábia Saudita, Turquia e a machista Rússia – para refrescar a memória: em fevereiro de 2017, o presidente Vladimir Putin promulgou a lei que despenalizou a violência doméstica naquele país, quando o agressor não for reincidente e quando a vítima não apresentar lesões visíveis, como hematomas e arranhões. No caso de a vítima “apenas” sentir dor, física ou emocional, o ato violento não é considerado crime.

Mas o assunto deste artigo é a eleição. A menção à violência doméstica foi só um parêntesis para lembrar o quanto a Rússia é machista e, mesmo assim, está na frente do Brasil no número de mulheres no legislativo federal. Sigamos. Ruanda, Cuba e Bolívia têm uma representação feminina acima de 50%. Mulheres brasileiras, miremo-nos no exemplo de cubanas e bolivianas, para ficarmos apenas na América Latina e Caribe, que têm seis dos 13 países que lideram o ranking de representação feminina no mundo. Como os números são crescentes, a estimativa é que o Brasil siga em frente, subindo na lista.

Do outro lado, estão as nações que nem sequer têm mulheres no parlamento: Iêmen, Vanuatu, Papua Nova Guiné e Micronésia. Fazendo a comparação com esses países, o copo brasileiro está meio cheio.

A ideia é continuar enchendo esse copo. Por isso, espaços como este são tão valiosos para que a situação da mulher no Brasil e no mundo seja exposta, debatida, discutida, polemizada, ao extremo, incansavelmente, com pontos positivos e negativos, exemplos bons e denúncias pesadas. O objetivo é que todos os problemas que afligem a mulher enquanto gênero sejam evidenciados e amplificados. Nunca escondidos e varridos para baixo dos tapetes machistas. Desta forma, daqui a quatro anos, o número de candidatas tende a ser maior. O número de eleitas também. E a posição do Brasil no ranking político mundial mostre o engajamento das mulheres em causas que não são apenas delas, mas dos 147 milhões de eleitores e eleitoras.

Lídice Leão é jornalista

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