A criminalização do aborto mata mulheres negras todos os dias, por Talita Rodrigues e Juliana Keila Jeremias

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De acordo com dados do Instituto Anis,15% das mulheres negras e 24% das mulheres indígenas já fizeram um aborto na vida

(Brasil de Fato, 22/10/2019 – acesse no site de origem)

Que corpos o Estado deixa morrer? Que vidas interessam para a sociedade? Marcadas pelo racismo, machismo e desigualdade de classe as mulheres negras brasileiras enfrentam perversas manifestações de violência. Essas violências atingem todas as dimensões da vida: na casa, na rua, na escola, no lazer, no trabalho, no sistema de saúde, na educação e diversas instituições do Estado. É diante desse cenário que a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional-Pernambuco (Fase) lançaram a Campanha “Mulheres Negras Pela Vida!”

Um dos temas abordados se relaciona às violências sofridas por mulheres negras em suas trajetórias reprodutivas. A questão do aborto reflete desigualdades que produzem mais violências e morte para essas mulheres. Assim, falar sobre aborto é muito mais do que se posicionar como contra ou a favor, é reconhecer que trata-se de um fenômeno complexo de saúde e justiça e que sua criminalização mata cotidianamente muitas mulheres negras.

De acordo com dados do Instituto Anis,15% das mulheres negras e 24% das mulheres indígenas já fizeram um aborto na vida, comparadas a 9% de mulheres brancas. O aborto é uma experiência comum na vida reprodutiva das mulheres brasileiras, porém, são as mulheres negras e pobres que estão mais vulneráveis a procedimentos clandestinos e inseguros que colocam em risco suas vidas. O Nordeste é a região com a maior taxa de abortos, denunciando o acesso mais frágil a políticas de prevenção à gravidez não pretendida, a contraceptivos e educação sexual integral.  Mesmo nos casos em que o aborto não é criminalizado no Brasil,  em casos de gravidez decorrente de estupros ou risco de vida para a gestante ou fetos anencéfalos, há dificuldades para que as mulheres realmente acessem esse direito e realizem o procedimento de maneira segura e gratuita pelo SUS.

Nesse sentido, a campanha Mulheres Negras Pela Vida percorrerá todas as regiões do estado denunciando o racismo e outras violências. Além de ressaltar a força e a resistência das mulheres negras que enfrentam o sistema racista lutando pela vida, por saúde, dignidade, respeito e pelo bem viver.

Por Talita Rodrigues e Juliana Keila Jeremias

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