Consensos em trânsito, por Antonia Pellegrino e Manoela Miklos

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É melhor a classe política “jair” pensando sobre igualdade de gênero

(Folha de S.Paulo, 17/09/2018 – acesse no site de origem)

Ser feminista no Brasil de 2018 significa se acostumar com estatísticas trágicas e repeti-las à exaustão na tentativa de mobilizar o país. Um estupro é notificado a cada 11 minutos. Doze mulheres são assassinadas diariamente no país. Cresce o índice de homicídios de mulheres negras. Oitenta e oito por cento das prefeituras são comandadas por prefeitos homens. O Brasil é o país latino-americano com menor representatividade feminina no Legislativo. As feministas brasileiras vivem mergulhadas em números tristes.

Nos habituamos às más notícias. Dados positivos são raros e devem ser saudados. Por isso iniciamos a semana festejando os resultados da pesquisa Ibope/ONU Mulheres divulgada no final da semana passada.

A pesquisa foi divulgada para lançar a plataforma digital Brasil 50-50 da ONU Mulheres, desenhada para incentivar o compromisso público de candidatos e candidatas com os direitos das mulheres. Os resultados são muito interessantes. Três dados nos chamaram a atenção.

O primeiro: 76% das entrevistadas e entrevistados declararam considerar extremamente importante que o governo federal promova o ensino de direitos humanos e direito das mulheres. Entre as mulheres, o percentual sobe para 80%. Alô, defensores de noções tacanhas como “escola sem partido” ou “ideologia de gênero”. O Brasil quer, sim, falar de igualdade e direitos em sala de aula.

O segundo: 46% das pessoas entrevistadas concordam totalmente com a frase “Só há democracia de fato com a presença de mulheres nos espaços de poder e de tomada de decisão”, e 25% dizem concordar em parte com a afirmação. Desde o início do processo que culminou na tomada de posse do presidente Michel Temer (MDB), o Brasil se divide entre os que acham que vivemos um golpe e os que entendem que vivemos um processo legítimo de impeachment. Esse dado encerra o debate. Golpe ou não, não teremos uma democracia de fato enquanto não tivermos representatividade.

O terceiro é um conjunto de boas novas: 81% dos brasileiras e brasileiros entendem que a presença de mulheres na política e em outros espaços de poder e decisão aprimora a política em si e os demais espaços. Para 78%, o governo federal deve considerar extremamente importante a promoção de políticas públicas que incentivem que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades de acesso e desenvolvimento na educação e na cultura. São 81% os que consideram extremamente importante que o Executivo federal estimule o acesso de mulheres e homens às mesmas oportunidades de trabalho e mesmos salários. E 72% consideram extremamente importante que o governo federal promova políticas visando assegurar oportunidades iguais de atuação em partidos políticos e governos para mulheres e homens.

Esses números atestam a centralidade que o Brasil confere hoje à demanda por igualdade de gênero. Além disso, mostram que há grande expectativa de que o governo federal tenha essa agenda como prioridade. Portanto, não é de se estranhar que um dos muitos grupos criados no Facebook para reunir mulheres que rejeitam a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil conte, no momento em que escrevemos, com mais de 2,5 milhões de integrantes. É também previsível que essa articulação incomode os que apoiam o candidato e que esse grupo tenha sido hackeado na noite de sábado (15). Estamos falando e o Brasil parece estar nos ouvindo. Os consensos estão em trânsito. Quem desdenha da pauta da igualdade de gênero ou se opõe a ela pode ter um fim de ano bem azedo.

Antonia é escritora e roteirista. Manoela é assistente especial do Programa para a América Latina da Open Society Foundations. Feministas, editam o blog #AgoraÉQueSãoElas.

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