Mulheres, votai!, por Dorrit Harazim

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EUA e Brasil regrediram na promoção da igualdade de condições enfrentadas por homens e mulheres na última década

(O Globo, 30/10/2016 – acesse no site de origem)

A deputada Unnur Brá Konráosdóttir é do Partido Independência da Islândia, de centro-direita. Dias atrás, subiu à tribuna do Parlamento para explicar seu voto sobre imigração. Através de uma discreta fenda na bata preta que usava, sequer interrompeu a amamentação da filha de seis meses enquanto discursou.

O bebê em questão não é novidade na casa. Frequenta as sessões legislativas no colo da mãe desde que nasceu, e nunca piou — esta foi apenas sua estreia na tribuna. No singular país nórdico que abriga o Parlamento mais antigo do mundo, hoje composto por 44,4% de mulheres, o episódio mereceu escasso registro. Chamou mais atenção o apoio da deputada conservadora a um projeto de lei para acelerar o processo de deportação de determinados imigrantes.

Para um Donald Trump nos Estados Unidos ou um Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, a hipótese de uma deputada discursar em plenário enquanto amamenta um rebento talvez seja sinal de apocalipse.

Na Islândia, que ontem foi às urnas para escolher novo Parlamento, escândalo é desigualdade. Na contramão do desencanto mundial com políticos e a política, ali ainda se vota com fervor — esperava-se um índice de comparecimento entre 80% e 90% do eleitorado, apesar de o voto ser facultativo.

Já nos Estados Unidos, onde o voto também não é obrigatório, e o dia da eleição sequer feriado é, Trump ou Hillary Clinton devem chegar à Casa Branca com a aprovação de menos de metade do eleitorado — feminino ou masculino — dada a aversão inédita aos dois candidatos.

No Brasil, para este segundo turno das eleições municipais, 47% dos cariocas também manifestaram pouco ou nenhum interesse pela disputa de prefeito, segundo pesquisa Ibope de dez dias atrás. E dos 19% que disseram ao Datafolha pretender anular ou votar em branco, a maioria era de mulheres.

Pena. Estados Unidos e Brasil são justamente dois dos 144 países listados no Índice Global de Desigualdade de Gênero 2016 que regrediram na promoção da igualdade de condições enfrentadas por homens e mulheres ao longo da última década — sobretudo na participação política e paridade econômica. Enquanto os EUA despencaram do 28º para o 45º lugar no ranking mundial, o Brasil caiu da 67ª para a 79ª colocação. Nosso pior desempenho foi na área de paridade econômica (129º lugar) e nenhum avanço no empoderamento da mulher na política.

Enquanto isso, a vulcânica Islândia se mantém há oito anos em primeiríssimo lugar no conjunto de 70 indicadores analisados pelo estudo. Mas nem por isso se dá por satisfeita.

Há mais de quatro décadas o dia 25 de outubro é data séria no país de Björk, das sagas e do idioma intransponível. O que varia é o horário. Na histórica sexta-feira de 1975, o país mudou de cara pontualmente às 14h05m, quando 25 mil mulheres, ou 90% da população feminina do país, rumaram para a praça central de Reykjavík. Proporcionalmente, foi como se 22 milhões de brasileiras se pusessem em marcha.

As islandesas haviam decidido parar de trabalhar onde estivessem — fábricas, lojas, escritórios, aeroportos, escolas, jornais, creches, hotéis — para registrar a enorme disparidade salarial de gênero da época (mais de 40%). Calcularam que, numa jornada de trabalho das 8h às 17h, deixavam de ser remuneradas a partir das 14h05m. Por isso, pararam àquela hora.

Deram ao movimento o nome de Dia de Folga da Mulher, estopim da mudança. Todo um conjunto de políticas foi sendo montado através do que cientistas políticos chamam de triângulo de empoderamento: um ativismo forte somado a um contingente de mulheres feministas eleitas para cargos políticos e funcionárias públicas com autoridade legal para corrigir desigualdades.

Hoje, entre outros, empresas com mais de 25 funcionários precisam atestar equilíbrio nas contratações e empresas mistas com mais de 40 funcionários devem preencher cotas mínimas de 40% de mulheres (ou homens).

E, mesmo assim, as islandesas continuam a ir às ruas. No Dia de Folga de 2005, elas pararam de trabalhar às 14h08m, refletindo um ganho de meros três minutos/dia em relação a 1975. Em 2010, a parada ocorreu às 14h25m. Esta semana, na terça feira 25 de outubro, cessaram as atividades a partir das 14h08m, uma vez que a renda atual da mulher islandesa ainda é 14% inferior à dos homens.

Elas acreditam no instrumento do voto que, em 1980, fez de Vigdis Finnbogadóttir a primeira mulher presidente democraticamente eleita da Europa (ocupou o cargo por 16 anos) e em 2009 elegeu a assumidamente lésbica Jóhanna Siguroardóttir para substituir os responsáveis pelo colapso financeiro que arruinara o país. E colhem os frutos de políticas públicas que visam a um igualitarismo de gênero amparado por números.

No Brasil, um levantamento feito pela TV Globo, em parceria com a agência de dados Gênero e Número, mostra o quanto o país ainda engatinha no uso do voto e de cotas.

Numa contrafação da lei que obriga os 35 partidos a apresentar 30% de candidaturas femininas em pleitos proporcionais, 33 deles inscreveram quase 15 mil mulheres que não tiverem um único voto nas listas para vereador — nem o delas — e mal sabiam a que agremiação eram supostas pertencer. Essa fraude para camuflar estatísticas ocorreu em 65% das cidades do país. Serviu apenas para aviltar essas candidatas como mulheres–laranja.

Mas hoje tem mais eleição. Mulheres, votai.

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